terça-feira, 6 de novembro de 2012

Nada precisa ser definitivo

  A sala toda tem um só nome, são dezenas de homônimas. Todas têm o meu nome. São cinquenta ou sessenta "eus". Mas, são o que eu fui há mais de uma década. Têm 17, 18 anos e tentam uma vaga em uma universidade. Para a maioria tudo é novidade, a prova, o rigor, os minutos que antecedem o que poderá ser definitivo em suas vidas. Na verdade, não precisa ser, mas elas não sabem disto. Eu também tempos atrás não sabia. As carteiras escolares estão abarrotadas de água, chocolates, biscoitos e balas. Elas ainda não tem consciência, mas aqui o tempo será escasso para as doçuras. O tempo corre furioso. Desejo alertar: "Embora enfurecido, o tempo não pode nada contra vocês. Prossigam, não temam, não olhem para trás.". Não tenho o direito de ensinar o que cada uma delas só poderá aprender sozinha, como um dia eu também aprenderia.

  Antes de sair de casa, pensei que a experiência seria desconfortável. A mais velha, a "errada", aquela que fez uma má escolha e por isso recomeça. Um gosto triste do reconhecimento do próprio fracasso. Mas surpreendo-me com agora a sensação ser outra. Elas tem pressa, elas sofrem pressão. E eu não. Eu não tenho o mínimo de medo, minha tentativa não sofre com nenhuma expectativa: se der, deu. Se não, não. Nada precisa ser definitivo, nem minhas escolhas, nem mesmo eu. Enquanto resolvo a prova penso na dificuldade de cada uma delas. Terão estudado? Terão certas "vivências" para determinadas questões? A prova é repleta de pequenas "malícias", respostas dúbias e sutis. Um dia eu errei essas questões. "Pior que falta de estudo, é a ingenuidade", o alerta de um professor de cursinho ecoou na memória. Eu errei por ingenuidade, errei por falta de malícia e vivências anteriores. Errei por acreditar e confiar na primeira lida, na primeira explicação, à primeira vista. Fiz isso na prova, fiz muito disso na vida. É bem verdade que ainda faço. Mas, agora com menos amargura. Acostumei-me aos erros, aceitei minhas falhas. As outras não. Pelo menos, ainda não. Voltarão para casa, conferirão o gabarito e chorarão. Pobres meninas. Queria dizer que vai passar. Prevejo dor, decepção e culpa. Mas, elas esperançosas fazem a própria prova, volto para a minha também. Não há nada que eu possa fazer por elas. Depois de horas, saem uma a uma. Umas mais calmas, outras ainda ansiosíssimas. Só agora abrem seus doces. Eu disse que não haveria tempo para pausas, não disse? Saio antes que a sala se torne vazia de "eus".

  Desisto de caminhar, tenho olhos, pernas, um corpo todo exausto. Minha alma também parece cansada, voltei para o lugar em que comecei. E uma volta dessas não se faz sem deixar alguns efeitos colaterais. Vou de ônibus. Sozinha na poltrona, enquanto olho para a cidade nublada de sábado, eu choro um pouco. Nem tristeza, nem arrependimento. É só cansaço, de hoje, de anos tentando acertar um alvo que permanece no escuro. Há os que caem no cansaço, há os que explodem, há os que reclamam. Eu só choro. Meu choro é fadiga e logo passa.

  Chego mais cedo para o segundo dia de provas, porque quero encontrar um lugar próximo da parede, onde eu possa me recostar, quando o corpo requisitar. Hoje eu olho para os "eus" de maneira ainda mais afetuosa, a maioria estreia na dureza que são as "tentativas com expectativas". São tantos sonhos que possivelmente não cabem nesta sala. Sinto-me a irmã mais velha que nunca fui. Ajudo a encontrarem os melhores lugares, aponto os objetos que caem pelo chão, indico os lugares das bolsas, dos objetos eletrônicos, aconselho calma. E algumas até confiam na minha maturidade. Essas são as mais ingênuas e por elas eu temo. É o último dia de uma concentração assombrosa de "eus" jovens. É a última oportunidade de perdoar-me pela ingenuidade do passado, pelo excesso de confiança nos outros e pela falta dela em mim. Antes de passar a redação para a folha definitiva, rasgo o rascunho da minha vida e não sinto dor. Está perdoada. Finalmente reconheço que não foi por displicência nem preguiça, fiz o caminho que apostei ser o correto para mim e, talvez, naquele momento, fosse. Agradeço ao acaso que ofereceu-me a oportunidade deste encontro. Aconteceu exatamente diferente do que eu havia imaginado. Não houve vergonha, humilhação, arrependimento, nem dor. Entrego a prova e despeço-me daquelas a quem eu desejo que um dia se perdoem, como eu. Admito que surpreendi-me com a minha maturidade, resignação e gratidão, mas o que mais espantou-me nem foram as mudanças, foi mesmo o que permaneceu. E, finalmente, em uma sala repleta de garotas, de um mesmo nome, eu compreendi porque minhas quedas são tão ocasionais e nunca definitivas. Porque em algum momento, em alguma prova destas da vida, eu entendi que permanecer era a única saída. Desistir é sempre mais perigoso do que perder. Perdedor maior é aquele que nunca tenta. O ônibus espera no ponto, estou cansada, mas "seguro" o choro. A maturidade, às vezes, é o melhor caminho. Não sei bem onde aprendi isto, mas de alguma coisa me serve, quase sempre. Na prova e na vida.




6 comentários:

Anônimo disse...

é isso aí! tentando e levantando-se...é de caminhos e caminhadas que se faz a vida...nao so de chegadas finais. ps.: tbm ja chorei em onibus em dias nublados..bj. Bel.

Amanda M. disse...

Sim, só conhece a experiência do recomeço, quem precisou fazê-lo...Beijo

Ana disse...

"(...)Desistir é sempre mais perigoso do que perder. Perdedor maior é aquele que nunca tenta. O ônibus espera no ponto, estou cansada, mas "seguro" o choro. A maturidade, às vezes, é o melhor caminho.(...)"
PERFEITO! Como eu adoro vir aqui:)
beijos

Amanda M. disse...

;) Adoro que venha! Beijos

Milaresendes disse...

Olá, é a primeira vez que passo por aqui... quero dizer que adorei este post! Bjkas
Mila

Amanda M. disse...

Obrigada Mila, pela visita e pelo comentário! Beijos