segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Sabes quanto pesa um coração?

  Nenhuma expressão metafórica  parece-me mais real, pelo menos nos últimos tempos, do que a do "coração nas mãos". Eventualmente passa-se por isto, mas como tudo na vida caminha para um esquecimento, mesmo que provisório, quando repetimos um sentimento ele nos engana e se traveste de novo. "Nunca me senti assim antes", mentira! Outro dia mesmo passavas por isto, mas resolveu-se e agora encara a maldita sensação novamente, como se fosse inédita.

  O coração nas mãos é a possibilidade, a notícia que está porvir, a carta que poderá ou não chegar, o antigo, que despediu-se para uma pausa e prometeu regressar ou é o novo, que de tão novo é desconhecido, incalculado, inimaginável e mesmo assim tão esperado. Estar com o coração nas mãos é ter a garganta seca, os gestos rápidos, a inquietação dos movimentos, o susto do telefone tocando, a caixa de e-mails verificada a cada minuto, a aparição na janela para conferir a chegada do carteiro a cada meia hora, é a desatenção no presente para a expectativa do futuro próximo. São momentos constantes de sobressaltos e olhos esbugalhados, fome descomunal de um alimento que não sabemos distinguir qual é, é apetecer um gosto desconhecido, não identificado; depois, a súbita perda do apetite, nada é saboroso, suficientemente satisfatório, porque a fome deseja a notícia, a chegada, o resultado, alguém entrando pela porta agora.

  O coração nas mãos é a carta que não chega ao coronel (Ninguém Escreve ao Coronel*) de García Márquez, é apostar tudo em uma correspondência que só faz tardar, é ter sua sobrevivência subjugada a dura espera. A espera pode ser longa ou curta, mas neste caso, o tempo parece ser um só: comprido, eterno.

  De repente, o coração pesa, os olhos já úmidos ameaçam lacrimejar, as mãos fraquejam, mas não deixam escapar a vida ali angustiada, que se alterna entre os doces e os nefastos presságios. É disso que o coração nas mãos se alimenta: da imaginação do ser agora tão fragilizado pela espera. Racionalmente, esperar significa adiar ainda mais um definição, porque a ansiedade embranquece os cabelos, aumenta a circulação sanguínea, causa úlceras estomacais, antecipa um sofrimento desnecessário. Mas coração nunca é racional, quando está nas mãos então...só emburrece, ignora as teorias e se agarra ao mundo das subjetividades.

  O peso de um coração nas mãos equivale ao peso da própria vida, agora dependente, de uma carta, que ninguém escreve. Entendo o Coronel de Márquez, lamento pela sua espera, mas compartilho deste peso. Amanhã, Coronel, passará. Para quem sabe na próxima semana, seu coração voltar a pulsar nas mãos novamente. E, se isto é vida? É sim senhor, a mais pura, bela e, às vezes, pesada vida. A qual a gente nunca se acostuma, lamenta um pouco, para rir mais a frente. E se ninguém escreve ao coronel, para mim, parece que também não. Coração nas mãos pela minha espera, pela do Coronel e pela de tantos outros neste mundo que perderão seu sono esta e outras noites, preparando-se pela correspondência nunca enviada...

* "Ninguém Escreve ao Coronel" (Gabriel García Márquez)



3 comentários:

Ana disse...

eu adorei o livro e adorei este teu texto, fabuloso:)
beijo

Amanda M. disse...

Também adoro o livro. Obrigada Ana!

Ana disse...

Amanda,
o doce de tomate é uma maravilha e até se faz bem com aquelas latas de tomate pelado de venda. na internet há inúmeras receitas, é bem fácil.
Experimenta!
beijo