quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Quem vai comprar um barulho destes?

  Avisto-o de longe, logo ele que não via há algum tempo e ainda hoje que não queria muito ser vista. Vou ao supermercado, busco salsa e hortelã e encontro-o. Penso em sair correndo, mas com o mercado vazio, certamente eu chamaria sua atenção. Não há saída. Bom, talvez haja. Esgueirando-me pelos corredores, atrás das prateleiras na luta insana para não ser vista. Eu em fuga. Logo dele que nunca escondo nada, logo ele que nunca disse-me uma só palavra de desaprovação. Talvez mesmo por isso não quero que me veja. Por amor a ele, por respeito ao afeto que ele tem por mim. Preparei-me para os encontros frios e distantes do cotidiano, não para quem conhece-me tão bem. Para o dia de hoje não tenho boas respostas, brilho no olhar, nem ao menos preocupei-me em disfarçar muito bem as olheiras e se me perguntar como estou? Certamente direi que bem, mas ele não se convencerá, em minutos cairei em contradição. -  Hoje não, por favor. Hoje não! Faço minha súplica silenciosa.

  Sigo desesperada, procuro uma rota de fuga. Em pensar que tenho feito o possível para não encontrá-lo, ele e tantos outros. Talvez por isso meu celular é insistentemente esquecido no silencioso, por isso só percebo que sua bateria acabou passadas horas e até dias. Gripes, resfriados, indisposição, atrasos, saídas mais cedo. Ele entenderia, mas não desejo explicar-me. E dizer o quê? "Olha não é que eu queira evitá-lo, na verdade, preciso evitar-me". O confronto temido é comigo. Por isso essa correria. Evitando responder agora, talvez amanhã já tenha palavras melhores, amarguras menores, até uma cara melhor. Se eu não disser nada, talvez esse hoje possa ser simplesmente esquecido, sem testemunhas quem é que vai saber? É uma espécie de filosofia, falar somente coisas boas, positivas, que tragam boas energias. Aprendi em algum livro de autoajuda; li na matéria da revista feminina, enquanto fazia o cabelo; ouvi em algum programa de TV vespertino ou na escola primária. Já nem lembro, mas desejo colocar a tal filosofia em ação. Parece-me uma boa estratégia.

  Ele está no meio do supermercado, é alto, tem sempre muito boa visão e é atento; abaixo mais um pouco, encolho-me na seção de higiene, um funcionário passa e me vê, finjo olhar o preço do amaciante, levanto-me devagar e avisto-o próximo aos frios, enquanto procura um salmão eu vejo a oportunidade de concretizar meu plano. Linha reta, ombros erguidos, o olhar já na rua. Saio do supermercado sem ser vista, rápida. Aliviada, agora do lado de fora, agradeço a esmo: - Obrigada. Muito obrigada. Talvez essa fuga possa não ser lembrada na próxima semana e, também por isso, não existirá.

  Do outro lado da avenida, que atravessei com o sinal aberto, percebo algo entre as mãos, tenho algumas folhas de hortelã amassadas entre os dedos rijos. Carrego comigo a culpa de uma fuga, uma covardia, um sinal ultrapassado e agora um roubo. Quem irá me perdoar? Sou uma criminosa perigosa e ninguém percebe. Faz sol do lado de fora do supermercado, eu trago uma tempestade dentro de mim e ninguém suspeita. E por não suspeitarem é possível que a previsão para amanhã seja de frio e chuva, mas o sol pode nascer dentro de mim, não pode? E por acreditar nessa possibilidade que eu não ofereço ao mundo meus piores barulhos. Quem compraria o estampido de um trovão? Se não posso oferecer barulhos mais harmônicos, mantenho-me em silêncio. É assim que a minha banda toca, é essa a música que eu quero vender.


2 comentários:

Ana disse...

há encontros inevitáveis,mais tarde ou mais cedo dão-se. Eu também tenho uma fuga assim e dura há alguns anos (já se deu mas sempre com outras pessoas, o que acaba por ser uma fuga óptima), sei que não é para sempre... e quando o encontro se der não sei como vai ser.
beijos

Amanda M. disse...

Espero um dia não desejar fugir, Ana. Quem sabe? Beijo