quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A mudança alheia é só um espelho...

  que invariavelmente reflete a nossa própria mudança.

  Gosto de ficção, porque me apetece ver nascer da criatividade de alguém, um personagem, uma estória, um lugar. Gosto especialmente, de apreciar o quanto a "invenção" segue quase sempre um modelo do que já existe, do que é real. O antigo clichê, "a arte imita a vida" tem todo o sentido, embora a vida seja infinitamente mais inacreditável do que a ficção, é nisto que acredito. E talvez por isso, goste demasiadamente da verossimilhança (aquilo que parece ser verdadeiro nas obras ficcionais), das biografias, dos documentários. Porque criação maior mesmo, arte soberana ainda é a vida, aparentemente comum, de todos nós.

  Assisto ao programa-documentário "Entre fronteiras"*, do jornalista Luís Nachbin, o episódio eu pego pelo meio, mas não mudo de canal, o senhor de barba que fala espanhol me conquista no primeiro segundo. Decido "conhecer" mais esta vida e por essa disponibilidade recebo algum ensinamento em troca. Abrir-se a novas vidas é sempre recompensador, amplia nosso repertório de referências, diversifica nossas perspectivas limitadas e, finalmente, nos coloca em contato com as nossas próprias crenças, muitas vezes esquecidas em algum canto obscuro e pouco visitado, dentro de nós. 

  O senhor de barba é Don Antonio, cubano, com mais de 60 anos de idade, que vive em uma improvisada cabana de plástico no acostamento de uma estrada em Rondônia, próximo à fronteira da Bolívia. O homem politizado (ora com ideias liberais, ora com uma ideologia fortemente conservadora) alimenta seu corpo com a comida que lhe é doada, abastece sua mente com as informações, que recebe através de um rádio velho e dos jornais que consegue e aquece a alma com suas crenças políticas e lembranças de familiares e do país de origem. Solitário, em meio a uma estrada movimentada, convivendo com a possibilidade do aparecimento súbito de animais selvagens e peçonhentos, Don Antônio parece-me estar mais "acompanhado" do que muita gente que tenho conhecido. 

  Ás vezes lúcido, outras nem tanto, o senhor de barba encardida impressiona pela saúde, pelas ideias tão ordenadas e, principalmente, pela filosofia tão desapegada do material. Come somente o que lhe dão e se já se alimentou e oferecem-lhe mais comida, recusa-se, "há tantos que não comeram por aí", nunca guarda alimento algum para o outro dia. Não é preciso muito.

  Mesmo somente até aqui já seria válido assistir ao episódio "Km 899", porém a entrevista ganha um desenrolar digno de "vida real", quando Nachbin não se limita ao depoimento de Don Antonio e sai em busca de sua família. O que vemos na parte final do episódio é o "confronto" de Don Antonio com o tempo. Em Miami, o jornalista encontra um irmão do senhor cubano e a família dele, a eles Nachbin mostra o material gravado no Brasil e o irmão de Don Antonio recusa-se a aceitar que aquele velhinho é o seu irmão. Por vezes cristalizamos na memória a última ou melhor imagem que temos acerca de quem amamos. O homem cuja vida nos EUA é completamente diversa do irmão no Brasil, duvida do parentesco, diz que a voz e o sotaque do homem não se parecem em nada com os do seu irmão, ainda que os nomes dos pais, irmãos e local de nascimento, entre tantas outras evidências, sugiram o contrário. O senhor distinto do balneário americano rejeita a imagem envelhecida do eremita, para ele o irmão ainda era aquele sujeito elegante da marinha cubana. Depois de algum tempo de entrevista, visivelmente nostálgico o irmão de Don Antonio parece começar a acreditar que aquele era mesmo o Antonio, seu irmão.

  De volta ao Brasil Nachbin reencontra o eremita de Rondônia, conta-lhe as novidades e divide com ele as notícias de sua família. O jornalista diz que teve notícias do filho de Don Antonio, que reside na Espanha com mulher e filho e que visitou seu irmão em Miami. Já com a informação da atual residência do irmão, o senhor, até então uma fortaleza, quase desmorona, atônito e visivelmente contrariado, ouve mais algumas informações do irmão, sem grande curiosidade. Seu irmão não era absolutamente o mesmo de quem ele se lembrava. Agora morava no país "inimigo", o que mais esperaria Don Antonio? O jornalista ainda, justifica que não veio na companhia do irmão de Don Antonio, porque a família dele não achava a viagem conveniente, já que ele sofria de uma enfermidade cardíaca. Don Antonio pareceu mais aliviado com a ausência do irmão "americano" do que decepcionado. Antes de se despedir do senhor "solitário", Nachbin diz a ele que se tiver interesse de morar com o filho na Espanha ele poderá, já que durante a investigação que fizeram para reencontrar a família de Don Antonio descobriram que, na verdade, o pai deles havia nascido na Espanha. Ele agradece a informação, se despede e segue para sua pequenina cabana. Provavelmente, atordoado com as inúmeras  revelações, aliviado pela ausência daquele que diziam ser seu irmão, um pouco solitário, mas seguro nas suas lembranças, tão menos amargas do que a realidade .

  Don Antonio, reagiu como todos nós diante das mudanças de quem conhecemos e estamos longe, recusou-se a reconhecer no outro, o processo natural que também acontece todos os dias conosco. Os outros modificam na mesma medida que nós. O velho conhecido talvez não esteja infinitamente mais chato, infantil, pernóstico ou superficial do que antes, nós é que nos distanciamos e esquecemos que, possivelmente, também estejamos menos generosos, apaziguadores e bem humorados do que outrora. Em um mundo que todo dia muda, afastar, renegar e rechaçar o antigo não vai fazer parar o tempo. Porque ele é mesmo "senhor implacável" e antingi-nos, igualmente, em uma estrada afastada em Rondônia ou em uma casa confortável em Miami.



 
"Ninguém escapa ao peso de viver..."
       
* Entre Fronteiras - Canal Futura - http://www.matrioskafilmes.com.br/site/projetos/entre-fronteiras


2 comentários:

Ana disse...

que história!! ainda me continuo a surpreender com histórias de familias tão separadas, sem nada saberem uns dos outros. Eu tenho cinco irmãos e não me imagino sem saber onde estão, sem saber de todo de algum deles...
beijos

Amanda M. disse...

Também não me imagino sem os meus, Ana...são tão parte de mim, que eu mesma me faltaria, caso eles me faltassem...