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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Não quero o osso, bastava a galinha viva

 E foi ruim? - Não. Mas é que bom também não tem sido. 
 - Há quanto tempo?
- Nem sei mais quando foi  última vez que foi bom. Acho que a espera pelo bom, fez parecer que não era ruim. Entende? Promessa, de repente, vira a própria coisa. A espera pelo bom, acaba por enganar; e, por achar que a coisa já está logo ali, quase apontando na esquina, a gente já se alegra. Não porque estivesse contente de verdade, mas em um ensaio para a felicidade. Acho que é algo assim.

- Mas quem te prometeu?
- Então, aí que está: ninguém fez promessa alguma, mas nem por isso deixei de esperar algo. A gente espera, sabe? O ser que mais cria expectativas no reino animal, vegetal ou mineral é o homem. Bicho-esperançoso, desde a raiz. Porque cachorro até espera pelo osso, se ele vê um homem comer a galinha, se sente cheiro de galinha, vê as penas da galinha, mas ele não espera o osso só porque um homem passa e acaricia sua cabeça. Gente não. Gente, às vezes, nem sabe o que é galinha e mesmo assim espera o osso, sem nem saber que ele existe. E se a gente recebe um afago então, daí  é que espera mesmo! Rodeia o homem, cheira o homem, late para o homem até ele falar de algum osso.

  Então é isso, eu esperava por uma recompensa, eu sei que a viagem é que deveria me importar e blábláblá, mas, às vezes cansa ser andarilho e tudo o que se quer é chegar em algum lugar verdadeiramente bonito. E que tenha paz, cheiro bom, acolhimento e que esse lugar possa te consolar de tantas noites mal dormidas, chuvas surpresas, raios que passaram por um fio do seu corpo, das portas na cara, dos sucessivos copos d'água negados. Alguma compensação, entende? E a gente espera, espera, vai trabalhando, juntando cacos, peças soltas, revirando lixos atrás da única peça perdida e quando a encontra, completa a figura e...subitamente, tiram-na da sua frente e colocam outra incompleta de novo e nunca acaba, acho.

  O dia foi desses, levantaram a minha figura completa, recém-terminada, laboriosamente reconstruída e já trouxeram outra, sem cerimônia de despedida daquela e apresentação desta. E o que eu faço com isto agora?  Meu ânimo está desgastado, minhas mãos menos delicadas...e por isso, acho, as pessoas um dia largam tudo. Abandonam empregos, famílias, casas e a vida de repetidas figuras incompletas e se mandam. Juro. Vão todas atrás da expectativa que nunca virou a esquina, do ônibus que não veio, da ligação que não receberam, da carta que não chegou, do homem que nunca bateu ao portão, de algo, sabe? De algo que, finalmente, legitime esse exercício que embora não prometa gabarito, a gente aguarda por uma singela resposta; um aceno de cabeça bastava, um sorrisinho ou um olhar de decepção também já seriam caminhos. Mas, tudo é neutro, tudo pode ser, tudo é "volte amanhã". Nenhum aceno. E a gente procurando pelo osso, sem nem saber de galinha nenhuma.

- E foi tudo "não- ruim" assim, hoje?

- Quase...teve o céu de noite, o vento sacudindo o tempo parado, a lua embaçada em um branco-fosco, os pelos do braço arrepiados de frio, despreparados para a mudança do clima, um par de sapatos errados que só a dona percebeu e olhando a esquina, eu esperava que a chuva a cruzasse ou um homem ou uma galinha ou osso. Se eu ainda visse só uma galinha, eu me apegava a ideia de um dia ter um osso. Espera, acho que alguma coisa vai virar a esquina agora...só mais um pouco de espera. Não custa nada, não é? Depois de tanto tempo, mais cinco ou dez minutos não farão diferença mesmo. Cansada, senta. Amanhã tem mais. As esquinas estão por toda a parte e o bicho-esperançoso segue rondando o osso de uma galinha que nem sabe se existe para ele.





sexta-feira, 4 de julho de 2014

A mulher mais amada da cidade

  Todas as segundas ela se levanta, arruma a cama e enquanto passa o café, toma seu banho. Veste a mesma roupa da semana anterior, mas agora limpa, recém passada. Toma o café na sua xícara única, come as duas torradas do dia, prende os cabelos, escova os dentes, fecha o gás, limpa os poucos grãos do piso brilhante e pronta, abandona seu refúgio intacto, organizado, o lugar livre do que não é ela, tranca a porta, como um cofre, cerimoniosa guarda seu tesouro intocado.

  Todas as segundas, ela atravessa meia cidade e segue para o lugar colorido, que a escolheu, ainda que, frequentemente, ela sinta que a escolha caiba a ela todos os dias. Ao primeiro passo, o sorriso já chega, há lugares que exigem trajes, lá a exigência é de sentimento. Embora não seja obrigatório, os sorrisos são prósperos, de todos os tamanhos, cores, intensidades. O dela é ela: discreto, sutil, de verdade. Os rostos conhecidos a reconhecem, se alegram ao vê-la, o insuspeitado amor a atinge, sem rodeios; direto, reto, sem círculos ou preparação. E chega em abraços calorosos, sorrisinhos ladeados, bochechas coradas, gritinhos agudos de felicidade em tê-la. Ela que guarda o que é em um apartamento afastado dali, todas as segundas é amada pelo que ninguém pode ver ou ter; ela é amada pelo que não carrega, pelo ocultado, pelo não dirigido.

  E aos poucos, eu percebo que tipo de luta ela trava, que tipo de peso ela carrega, mesmo ali, em um ambiente tão lúdico, romanticamente imaginado. Percebo que o muito pode assustar, pode pesar demais, mas percebo também, que ali não há saída, ou é muito ou não é; não há equilíbrio possível.  E ela deixa que  peçam o seu amor. Todas as segundas eles oferecem a ela um amor que ela não sabe se cabe. Amor rasgado, ofertado sem pudor, gritado, lambuzado. O amor a procura feito uma criança a seu brinquedo novo, uma fada, alguém a quem poderão requisitar numa falta qualquer.

  A todo o tempo ela acolhe alguém, ela é sentimento na ação. Prepara o banho, as brincadeiras, um repertório variado das mesmas músicas há séculos, acolhe a cada um dos seus amados, que são muitos, como únicos. De repente, uma cabeça loira que deita no seu colo e ocupa todos os espaços, não deveria, mas pesa e eu vejo o quanto. De repente, ela se afasta, some, acho que por vezes ela se esconde. Como uma mãe desesperada pelos excessos do filho. Uma vez, envergonhada, uma amiga, mãe recente, contou-me que se escondia no banheiro de casa, da própria filha; eu a compreendi, jamais a condenei. Acho que ela, a moça que observo, faz o mesmo, às vezes.

  Toda segunda ela é amada. Vontade de esconder, não vir mais, passar o compromisso a outro. "Não me cabe, não me cabe! Mas é meu, sinto que é carga que não posso repassar!". E ela que não pode se eximir, ignorar, fugir para outra vida ou se trancar no seu apartamento tão seu. Ela que escuta um chamado, que não é divino, nem cósmico,  mas doce e humano: - Tia, me ensina.

  E ela  que não sabe amar, nem deixar-se ser amada, ela que mantém um apartamento seu, intocado, noutro lado desta cidade, está tentando ensinar amor; ela que sabe, na verdade, que no fim, ela quem aprende. Toda segunda ela volta. Toda segunda ela ainda voltará. A mulher mais amada da cidade carrega o peso do amor que não conhece, empurra dignamente os seus pudores de lado e, aos poucos, fora do apartamento, abre uma volta da porta de cada vez.Toda segunda ela sai um pouco mais para fora.



sábado, 24 de maio de 2014

Alma longa, curta dor

   E quando falta fé nos homens, eu assisto a gata de rua, mãe recente, que alimenta os filhotes com a comida que lhe dão, que rouba, que consegue sei lá como, mas que sempre se ajeita, volta à casa vazia, onde abriga os filhotes. Ela que não foge nunca, não desiste, não se enrola, não reclama, ela que não reflete se é bom ou mau ser gato, só é; só sabe ser. Gata manchada, sozinha, mãe de muitos filhotes, todos dependentes de sua força única.

  A gente desiste fácil, ao menos, mente, ameaça desistir. As velhas coisas que parecem se repetir, o inédito que não chega nunca, a dor que lateja, quando chove; às vezes, a alma encurta, encurva, se esconde não sabemos onde. O que pode ser visto é só um amontoado de papéis desordenados na escrivaninha, contas nunca feitas, a tinta apagada dos extratos bancários, anotações perdidas, olheiras de séculos de insônia, convites recusados, outros nunca recebidos, aqueles que aceitaríamos.

  Para alongar um espírito, tempo; não muito, mas o suficiente para não sermos sugados pelo ralo aberto do cotidiano; uma boa história, lida, ouvida, criada, assistida; um poema em um papelzinho delicadamente dobrado de presente, agora guardado na caixinha; conversas atravessando a madrugada, bons braços, abraços quentes, sonhos, os nossos, os dos outros, os quase realizados e os distantes; cama fofa, um final de semana sem hora para acordar. A mulher da casa ao lado, molhando as plantas e o filho gargalhando cedo; o vendedor de gás de terças, quintas e sábados; a música do violino do rapaz, privilegiada de ter o som do violino na minha rua. O sábado nublado que ilumina o quarto; a desistência desistida, é preciso seguir como a gata. Não pensar se é ou ou ruim; só ser gata e voltar à casa, aos filhotes famintos. Porque precisamos da maternidade, da responsabilidade com as muitas vidas que damos à luz diariamente.

  E, porque doar o que sobra não é difícil, nem o que se tem em conta -  acostuma-se sempre com alguma falta -  mas dar o que não se tem, buscar em algum lugar sem saber onde, é a grandeza de uma existência passional. Não desisto hoje, porque alguém, em algum lugar, tem me dado, em demasia, aquilo mesmo que ele próprio talvez  não tenha. A gata é capaz  disto: dar o que lhe falta.

  Com a alma longa, a dor passa, nem a chuva pode fazê-la vir à tona o tempo todo, voltemos então à cama, ainda desfeita e ao violino extenuadamente ensaiado. A desistência ameaçada não será cumprida; a maternidade me chama e eu obedecerei, não cativa, que não sou dessas, mas como a gata; pronta, corajosa, sem reclamações.



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Sobre muros altos

  Eles existem e estão lá para não serem ultrapassados. De longe, parecerão baixos e acessíveis, frágeis até; e de longe mesmo, criamos coragem, nos alimentamos de força, resolução e seguimos rumo ao que está lá, atrás do muro. Nunca chegaremos a conhecer o que mora lá, nunca saberemos quem ou o que mantém o muro erguido, porque ele é feito disto e para isto: impossibilidade.

  Não gostava dos "im's", quero dizer, "dos contrários ruins", mas  passei, com alguma resistência, é claro, a respeitá-los. Toda possibilidade só existe, a partir de seu contrário; a vida é uma construção infinita de oposições. A própria oposição a esta, a morte, nos faz lembrar, tantas vezes, de comemorarmos um pouco de vida. O amor e os seus diversos contrários, de todos, o mais adequado sempre me pareceu, a indiferença, porque no ódio existe algum amor, mas na indiferença nada. E o claro e o escuro; o som e o silêncio; a liberdade e o limite, a tristeza e a alegria; todos fazem parte de uma arranjo inseparável, cuja vitória de um sobre o outro, acontece em uma linha tênue, frágil e impermanente. 

  Ao impossível cabe aceitação, não desesperança. É procurar, mesmo depois de admití-lo, insanamente por uma passagem alternativa, uma fissura escondida na forte construção, que ao se dilatar, será um meio de entrada. As impossibilidades, fazem de nós, uns esperançosos incorrigíveis, otimistas, fanáticos por milagres, ainda que nunca antes tenhamos conhecido a fé. O impossível são os outros, os outros fora ou dentro de nós, as vozes que falam por nós, que tentamos a todo custo ensinar, mostrar um melhor caminho e que até tentam, mas desviam-se, se perdem, fazem outras escolhas.

  E como guerreiros destemidos, insistimos em chamar a atenção da vizinhança, convencer seguranças, enganar os cães e escalar os tais muros, mas não há sensibilidade nos ouvidos dos vizinhos, nem no coração dos seguranças, nem no instinto infalível do animal. Por isso não passamos, não nos fazemos ouvir, não há facilidade alguma para o convencimento, o argumento friamente articulado nem chega ser ouvido. Nós e as nossas limitações. A voz que instrui, consola e esclarece paralisa, diante de um muro alto, resistente aos estranhos. 

  Não há bom senso, bons conselhos ou experiências pessoais que destruam muros tão bem planejados. E  lá atrás, alguém a quem desejamos muito salvar de si ou do mundo, acabará por salvar-se sozinho. Esta é a maior esperança de uma impossibilidade: ela ser nossa e não universal.

  O muro continua alto, ergo acampamento bem em frente à impossibilidade, um dia, quem sabe, distraída ela me perde de vista e eu ultrapasso a fronteira, agora, tão protegida. Não é porque os muros são impossíveis, que nós vamos embora. Contra uma impossibilidade: só a fé, nada mais. Contra muros intransponíveis: tempo, vigília, café e algumas orações.



quarta-feira, 24 de abril de 2013

E por medo os frutos apodrecem

  Explico-lhe que tenho mudado de ideia, eu até pedia mesmo paciência, dizia que tudo seguia seu curso naturalmente, mas agora começo a achar que nem é tão natural. Há intervenções catastróficas sim, mas não acho que é o caso e acho, ainda, que pior é não intervir. Essa coisa toda de preservar uma relação quando se quer outra é, no mínimo, covardia. Eu sei, eu sei, o medo faz parte da vida de cada um, não há como evitar, em algum lugar de qualquer pessoa há uma fragilidade. Mas tenho achado que são as fragilidades que não nos deixam sucumbir, sabe? É como um alcoólatra no início do hábito, bebe, bebe cada vez mais porque é "forte pra bebida", a embriaguez não incomoda, a ressaca passa rápido e faz do eventual, o cotidiano e por ter sido forte, não teve nunca medo de se tornar escravo de um costume e, então, o vício. Entende? Acho que ela se perde na analogia e eu preciso mesmo que ela entenda. Então continuo: essa sua fragilidade que você conhece tão bem já a protege, é ela que faz com que você se torne atenta a esse seu medo, ela é quem te dá os limites que você calcula necessários, se não é alcoólatra, não há problema em um primeiro gole, se conhece sua fraqueza para o álcool não passará deste primeiro copo. Por isso não há necessidade de evitar definitivamente uma bebida. O medo só precisa limitar e não evitar.

  Acho ótimo essa sua disponibilidade em ser boa para os outros, mas acho que você também poderia ser assim para si. Intervenha. Faça algo, peço. O que está fazendo com os seus sentimentos é deixar que alguém, em algum momento, alimente-os e isso é uma espécie de assassinato, sabe? Deixá-los soltos, perdidos, esperando uma resolução natural é crueldade com você mesma e só. Se não conhece o caminho certo, tente vários, até a exaustão completa, porque risco mesmo é esperar a salvação que vem de fora. E se ela não chegar? Quanto tempo mais resistirá as intempéries, ao medo? A decisão e depois a ação, no ínicio, até poderão parecer-lhes desastrosas, em um outro momento, estúpidas, mas foi feito, entende? Eva fez a bobagem de comer a maçã, não foi assim? Mas a humanidade só nasce a partir disso ou não? Paro com os exemplos aqui, mas eu precisava tentar, essa é a minha intervenção. Na sua questão, que é um pouco minha também.

  Olha, eu não sei qual é o caminho, mas tente algum, eu acho mesmo que nunca tive resposta alguma para nada, mas suspeito que, às vezes, pensar a vida dos outros é um pouco mania minha e me ajuda. E eu? E a minha vida? Acho que, sob certa perspectiva, sou muito parecida com você. Eu acho que tenho vivido tudo errado, leio muito, ouço muita música, vejo muitos filmes e vivo muito tudo isso, sabe? Viver  o que ninguém mais vive, não compartilhar, de fato, tem valido a pena? Eu tenho, agora,  um medo imenso de sentir isso tudo sozinha sempre. Trocaria todas as palavras lidas pelas ditas de improviso; trocaria os sons artísticos por barulhos mais reais, dissonantes; e todos aqueles personagens do cinema por gente de verdade. Acho que você me entende, né? Como é que alguém nesse mundo pode viver de uma espera sem prazo, sem definição, sequer, aparente de data? É um sofrimento desnecessário, tenho achado.  Quando eu disse que você deveria ter paciência falava das recusas e não das tentativas. Quando negarem-lhe algo espera, mas é preciso o pedido antes, com este, quanto menos tempo gastar, menor o sofrimento.

  Se ainda permite alguma sugestão, pare de olhar a árvore, esperando que o fruto caia, suba e tente agarrá-lo, se não houver força, segurança e flexibilidade suficientes, só lá do alto você saberá. Mas se continuar aí embaixo talvez ele caia, talvez não.












terça-feira, 6 de novembro de 2012

Nada precisa ser definitivo

  A sala toda tem um só nome, são dezenas de homônimas. Todas têm o meu nome. São cinquenta ou sessenta "eus". Mas, são o que eu fui há mais de uma década. Têm 17, 18 anos e tentam uma vaga em uma universidade. Para a maioria tudo é novidade, a prova, o rigor, os minutos que antecedem o que poderá ser definitivo em suas vidas. Na verdade, não precisa ser, mas elas não sabem disto. Eu também tempos atrás não sabia. As carteiras escolares estão abarrotadas de água, chocolates, biscoitos e balas. Elas ainda não tem consciência, mas aqui o tempo será escasso para as doçuras. O tempo corre furioso. Desejo alertar: "Embora enfurecido, o tempo não pode nada contra vocês. Prossigam, não temam, não olhem para trás.". Não tenho o direito de ensinar o que cada uma delas só poderá aprender sozinha, como um dia eu também aprenderia.

  Antes de sair de casa, pensei que a experiência seria desconfortável. A mais velha, a "errada", aquela que fez uma má escolha e por isso recomeça. Um gosto triste do reconhecimento do próprio fracasso. Mas surpreendo-me com agora a sensação ser outra. Elas tem pressa, elas sofrem pressão. E eu não. Eu não tenho o mínimo de medo, minha tentativa não sofre com nenhuma expectativa: se der, deu. Se não, não. Nada precisa ser definitivo, nem minhas escolhas, nem mesmo eu. Enquanto resolvo a prova penso na dificuldade de cada uma delas. Terão estudado? Terão certas "vivências" para determinadas questões? A prova é repleta de pequenas "malícias", respostas dúbias e sutis. Um dia eu errei essas questões. "Pior que falta de estudo, é a ingenuidade", o alerta de um professor de cursinho ecoou na memória. Eu errei por ingenuidade, errei por falta de malícia e vivências anteriores. Errei por acreditar e confiar na primeira lida, na primeira explicação, à primeira vista. Fiz isso na prova, fiz muito disso na vida. É bem verdade que ainda faço. Mas, agora com menos amargura. Acostumei-me aos erros, aceitei minhas falhas. As outras não. Pelo menos, ainda não. Voltarão para casa, conferirão o gabarito e chorarão. Pobres meninas. Queria dizer que vai passar. Prevejo dor, decepção e culpa. Mas, elas esperançosas fazem a própria prova, volto para a minha também. Não há nada que eu possa fazer por elas. Depois de horas, saem uma a uma. Umas mais calmas, outras ainda ansiosíssimas. Só agora abrem seus doces. Eu disse que não haveria tempo para pausas, não disse? Saio antes que a sala se torne vazia de "eus".

  Desisto de caminhar, tenho olhos, pernas, um corpo todo exausto. Minha alma também parece cansada, voltei para o lugar em que comecei. E uma volta dessas não se faz sem deixar alguns efeitos colaterais. Vou de ônibus. Sozinha na poltrona, enquanto olho para a cidade nublada de sábado, eu choro um pouco. Nem tristeza, nem arrependimento. É só cansaço, de hoje, de anos tentando acertar um alvo que permanece no escuro. Há os que caem no cansaço, há os que explodem, há os que reclamam. Eu só choro. Meu choro é fadiga e logo passa.

  Chego mais cedo para o segundo dia de provas, porque quero encontrar um lugar próximo da parede, onde eu possa me recostar, quando o corpo requisitar. Hoje eu olho para os "eus" de maneira ainda mais afetuosa, a maioria estreia na dureza que são as "tentativas com expectativas". São tantos sonhos que possivelmente não cabem nesta sala. Sinto-me a irmã mais velha que nunca fui. Ajudo a encontrarem os melhores lugares, aponto os objetos que caem pelo chão, indico os lugares das bolsas, dos objetos eletrônicos, aconselho calma. E algumas até confiam na minha maturidade. Essas são as mais ingênuas e por elas eu temo. É o último dia de uma concentração assombrosa de "eus" jovens. É a última oportunidade de perdoar-me pela ingenuidade do passado, pelo excesso de confiança nos outros e pela falta dela em mim. Antes de passar a redação para a folha definitiva, rasgo o rascunho da minha vida e não sinto dor. Está perdoada. Finalmente reconheço que não foi por displicência nem preguiça, fiz o caminho que apostei ser o correto para mim e, talvez, naquele momento, fosse. Agradeço ao acaso que ofereceu-me a oportunidade deste encontro. Aconteceu exatamente diferente do que eu havia imaginado. Não houve vergonha, humilhação, arrependimento, nem dor. Entrego a prova e despeço-me daquelas a quem eu desejo que um dia se perdoem, como eu. Admito que surpreendi-me com a minha maturidade, resignação e gratidão, mas o que mais espantou-me nem foram as mudanças, foi mesmo o que permaneceu. E, finalmente, em uma sala repleta de garotas, de um mesmo nome, eu compreendi porque minhas quedas são tão ocasionais e nunca definitivas. Porque em algum momento, em alguma prova destas da vida, eu entendi que permanecer era a única saída. Desistir é sempre mais perigoso do que perder. Perdedor maior é aquele que nunca tenta. O ônibus espera no ponto, estou cansada, mas "seguro" o choro. A maturidade, às vezes, é o melhor caminho. Não sei bem onde aprendi isto, mas de alguma coisa me serve, quase sempre. Na prova e na vida.




sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Talvez ela estivesse certa

  Da menina muito pouco se sabia, quase ninguém ouvia sua voz, não que não tivesse uma, não que não tivesse o que falar, mas era mesmo muito próprio da sua personalidade: chegar devagar, permanecer, escutar, confiar e, só então, começar a falar. Acontece que dentro de si, era muito cheia de palavras, inventava estórias, mantinha longuíssimos diálogos internos, cantarolava as canções que ouvia, mas externar, era mesmo muito raro. A medida que as suas relações sociais se ampliavam, ficava cada vez mais difícil manter-se silenciosa, sua voz passou a ser requisitada, e pressionada, a menina tornou-se uma "falante eventual". Desacostumada às atenções, à oralidade, sua voz era mesmo bem baixinha e, vez ou outra, ouvia a advertência: - Fala para fora! Magoada, ela obrigou-se a mais este ajuste: seu tom precisava ser potencializado. Gostava bem mais da fala interna, sempre mais fluida, mais natural e mesmo assim, tão mais elaborada. Sentia-se patética quando precisava estabelecer algum diálogo, gostaria de ser compreendida, mas desistia de se fazer entendida, quando o caso parecia demasiado difícil. Cansada das confusões externas, às vezes, trancava-se no seu quarto, naquele que ficava dentro de um armário, escondia-se do mundo de fora, dentro do mundo que criara para si.

  Mais crescida aprendeu a equilibrar o mundo "de fora", com o seu individual, e ainda, que não fosse uma adolescente  falante e extrovertida ao extremo, sabia quando a escola, o trabalho, a vida em geral, solicitava que "falasse para fora". Aliás, odiaria a tal requisição para o resto da vida. Para tirar-lhe do sério a senha era bem esta. Já mais "treinada" com as vivências sociais, a menina silenciosa, tornou-se uma mulher razoavelmente articulada e quanto maior o nível de intimidade, maior o número de palavras e opiniões. E se a voz era baixa, as falas eram raras, as opiniões surgiam em fluxos incontroláveis.

  E, talvez a sabedoria da natureza estava bem aí, fazer alguém tão cheia de juízos e convicções, com voz e vontade de falar bem limitadas. Assim, não haveríam as confusões, os mal entendidos e as mágoas, as dela, e as dos outros, por conta de uma análise externada. Há coisas que não devem ser ditas, porque só quem  as viveu, sabe exatamente o seu tamanho e razão e não há palavras, entende? Língua nenhuma é capaz de abarcar todo e qualquer sentimento.

  A mulher de hoje, pensa que não devia ter lutado tanto contra a sua própria natureza. Mesmo que o mundo requisitasse que ela "falasse para fora", era "para dentro" que as respostas deveríam  reverberar. Há coisas que devem mesmo permanecer cá dentro, trazer incomodações para fora só lhe farão mais mal. Talvez, o melhor mesmo é parecer boba. 

  Portanto faça coisas bobas, seja o tolo que sempre acharam que você era: assuma como seus os erros alheios, diga que falhou, que exagerou, peça desculpas, mesmo quando a ofendida for você, supere traições, deslealdades, sorria aos carrascos, continue imperceptível se assim desejarem, permaneça em silêncio, mesmo diante do maiores impropérios, afirme com a cabeça, não dê a eles nem sequer um "sim" falado; quem quiser que entre aí, no mundo onde você tem voz, não adianta gritar aos surdos, é em vão dizer-lhes o que eles não querem, não sabem ou não suportam ouvir. Ela voltará para o quarto do armário, voltará para si. A menina silenciosa talvez tenha razão, dê somente o que você tem a oferecer, não se esforce demais, porque há muita incomodação aí fora...



segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Do something

  Confira as últimas mensagens no celular; internet no celular, é a grande descoberta - nos afasta da sensação do "não estou fazendo nada". Leve um livro na bolsa, um artigo, uma revista que pareça séria, balas, chicletes e extratos bancários, uma lista de temas "neutros" para conversas também podem ajudá-lo a afastar de certos "inconvenientes" que algumas reuniões sociais propiciam.

  A verdade é que a conversa fluiu, fluiu leve e normalmente, como sempre acontece quando ela está entre conhecidos, amigos ou gente com quem tem empatia. É quase um milagre, é assistir, de repente, a muda falar, falar muitíssimo...E entre uma opinião e outra, alguma revelação prosaica de cunho mais pessoal - que ela acreditava até ser notória, pública e "vísivel" -  e o amistoso ouvinte, passa a ser um inquisidor bárbaro, além de um palpiteiro infeliz. 

  E o antigo amigo, agora algoz, a faz pensar com maior profundidade em questões, cujas respostas ela ainda não tem (e nem sabe se um dia terá). Ninguém é igual, porque ela escolheria um destino igual? Constrangida, desafiada, ela utiliza-se do clichê, "imposição social". E, é bem o que é. Não é isto, que estão cobrando dela: fazer o que todos têm feito há séculos? Eles sorriem e concordam que a tal "sociedade" é mesmo cruel, mas eles nem sabem que hoje são eles a tal sociedade. E enquanto bebem, comem, comemoram ela se pergunta a razão de estar ali - um ambiente visivelmente hóstil para os que não compartilham do modelo. 

  E a escolha talvez nem tenha sido dela, de fato. A verdade é que as coisas poderíam ser diferentes, ela poderia mesmo ser igual, mas de alguma maneira, desde cedo, ao menos suspeitara, que não era. Até tinha os sonhos, projetos e desejos bastante convencionais, mas a maneira de atingí-los sempre foi bastante pessoal. Sem celular à mão, sem internet, balas, chicletes, livros, revistas, extratos ou tópicos de conversas, ela sorriu e se voltou corajosa para o antes temível arguidor, respondeu suas últimas perguntas, sem nunca hesitar e o que não sabia responder, improvisava, porque nenhuma outra fragilidade sua  seria exposta.

  Não, definitivamente ela não cabia na foto, ela até tentava e se espremia, para não causar nenhum mal estar aos outros, pudor que só fazia parte de um dos lados. Não há arrependimentos, nem de ter ido ao encontro, nem do destino que escrevia, só o lamento de não ter levado consigo o celular, o celular a teria salvado dos primeiros embates...a sensação poderia ter sido outra...

  Agora já sabe: da próxima vez, vai fazer alguma coisa, qualquer coisa, só não vai deixar que ninguém ou algo faça-a sentir-se inadequada, pelo simples fato de ser ela. "Não vai não" - obstinada ela faz a promessa para si. Se cumprirá, não se sabe, mas que vai tentar ao máximo, se a conheço bem, isso vai.



quarta-feira, 20 de junho de 2012

Como esperar não esperar?

  Tinha decidido: arrancaria de vez qualquer traço de ansiedade. Fazia-lhe mal, tinha determinado a médica, tirava-lhe o foco, detectava o conselheiro, trazia-lhe sofrimento, apontava seu guia espiritual. E quando se conhece a raiz do mal, o jeito é trabalhar para arrancá-la, não é?

  Procurou terapias alternativas, tratamento homeopático, yoga, filosofia, autoajuda, biografias diversas, alguém com quem pudesse compartilhar o problema e buscar a definitiva solução. Paciente seria, presente estaria, aceitaria somente o " hoje", o futuro ficaria por conta de um outro eu; o "eu do futuro". Achava que a homeopatia ajudava, amava a yoga e sentia-se mais "presente" com a sua prática, compreendia a necessidade do pensar no agora (mente e corpo), a autoajuda e as biografias, ajudavam a distraí-la, afastava-a das suas expectativas intermináveis, ainda que temporariamente.

  Madura, segura, respaldada pelos diversos mecanismos que incorporara no seu cotidiano. Além de relaxamento, meditação, oração, restringia o consumo de cafeína e açúcares. Agora, definitivamente, controlava a ansiedade. Contemplava a mansidão de um "eu tranquilo", vitoriosa, orgulhosa, sentia o delicioso sabor da conquista: nunca mais esperaria. E a sensação pacífica durava; durava tanto quanto um sorvete fora da geladeira.

  Bastava o telefone tocar, o som do celular, apontando uma mensagem recebida, o interfone chamando, a chegada de uma correspondência...qualquer sinal de comunicação externa era motivo para o sobressalto atrapalhado. Os olhos brilhavam, a boca secava, milhões de expectativas em alguns segundos seriam destruídas. Sem brilho nos olhos, com a boca novamente úmida, atendia o telefonema que não era para ela, lia a mensagem enviada, na verdade, pela operadora, atendia o interfone para informar o número do apartamento, do verdadeiro requisitado, assinava o recebimento de uma correspondência da qual não seria a dona. Não importava a sequência dos acontecimentos, nem o número de vezes que eles ocorriam durante a semana, na próxima, a expectativa voraz estaria de volta.

  Não aprendeu a controlar expectativa alguma, não afastou a constante ansiedade de si, não arrancou raiz maléfica do seu terreno, mas decidiu que faria daqueles momentos de espera turbulenta, um "intervalo" para os seus paraísos pacíficos, duramente descobertos. Nenhum dos mecanismos agregados na sua vida seriam descartados, mas conviveriam eternamente com a enfermidade incurável da vida, a febre do desassossego. Esperar, em algum momento, pode sim trazer angústias, mas significa também, que existe alguma fé, seja na rede, no peixe, no mar ou no pescador. Alguém ou alguma coisa pode movimentar as águas, aparentemente paradas, do seu rio. Com o coração na mão ela espera um telefonema, uma correspondência, um chamado, um balançar qualquer na rede jogada com fé.



terça-feira, 22 de maio de 2012

É só cansaço

   Uma pia vazando sem parar;  uma prima adolescente grávida, me ofereço para cuidar do seu filho, não tenho resposta; "precisa caminhar", a voz me avisa, "não vá se atrasar", impaciente me alerta; no caminho percebo que saí com uma bolsa pesada para me exercitar, um ator famoso me para, pede a chave de casa, entrego-lhe a chave com naturalidade; e a bolsa, o que faço com a bolsa? Bato na porta de uma casa, em um bairro que não conheço, uma professora de geografia, da época de faculdade atende a porta, peço para deixar minha bolsa na casa dela enquanto caminho, ela diz que está de saída, mas quer me ajudar a resolver o meu "problema" - a bolsa, o que fazer com a bolsa? Arrependida, envergonhada, estou em meio a uma profusão de pessoas falantes, que gesticulam e tentam encontrar uma solução para mim. Quero ir embora, só desejo ir embora, mas ninguém me ouve, estão ocupados demais comigo, para prestarem atenção em mim. A polícia aparece. Eu resolvo voltar para casa, mas não a encontro, não lembro o endereço, o caminho, nada no lugar por onde ando me parece familiar; lembro que esqueci de algo, "Do que esqueci, meu Deus?", subindo uma ladeira íngreme um senhor sorri para mim, vem em minha direção, reconheço o sorriso, o aceno, o senhor: meu avô. "E eu achava que ele tinha morrido, até chorei pelo desgraçado", a voz bem humorada volta a me importunar. Meu avô me pergunta se formei, se estou indo ver a minha avó. Aliviada, agora tenho companhia, talvez ele me leve para algum lugar que eu reconheça. Começamos a caminhar, até que alguém grita seu nome, ele para, pede para eu seguir. Nó na garganta, tenho tanto medo, não sei para onde ir, mas não quero decepcionar ou preocupar meu avô, despeço e sigo pela mesma rua, talvez no final, eu encontre algo, alguém, alguma resposta. E a bolsa, onde está minha bolsa? Perdi-a pelo caminho, preciso voltar. Minha chave não está mais nela, não vou voltar, desisto da bolsa. Mais a frente encontro um parque, preciso saber onde estou, resolvo pedir informações, entro em uma padaria, pergunto a atendente, ela se vira, é minha amiga de infância com quem briguei, não nós falamos há mais de 15 anos, ela diz que estamos no Jardim Botânico. "Tão diferente o Jardim Botânico!", eu penso, ela ouve a voz da minha cabeça também e responde: "é reforma para a copa".

  - Então, como tem sido seu sono? A médica me pergunta. - Normal, tenho dormido bastante, só acordo muito cansada. Com o que você tem sonhado?  - Acho que não tenho sonhado. Prefiro mentir. Como eu explicaria essa sucessão de enganos? Quem poderia fazer alguma "interpretação dos sonhos", com tanta informação? 
- Está triste hoje, querida? Ela pergunta.
- Não, não é tristeza. É só cansaço.
 
  Deixa estar... talvez esta noite seja aquela dos "sonhos tranquilos". Tomara.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Quando a vida passa na sessão da tarde...

  É ficção, mas poderia ser vida real; embora seja comédia romântica sempre achei dos dramas mais angustiantes que assisti, por dezenas de vezes na "sessão da tarde". O filme, de 1993 (sei disso, porque ganhei de aniversário "1001 filmes para ver antes de morrer". Obrigada amiga!) chama-se "Feitiço do Tempo", é com o Bill Murray e a Andie Macdowell, dois atores que adoro. Parece-me ser uma obra assim, despretensiosa, mas me marcou tanto, que vez ou outra, suspeito estar vivendo o mesmo fenômeno que vivencia o protagonista da estória, cujos dias, subitamente passam a se repetir. E se não bastasse a angústia dos dias que se repetem, somente ele tem consciência da repetição.

  De maneira resumida, Bill Murray  vive um repórter de TV(Phill Connors), que é enviado à uma pequena cidade, para cobrir um evento tradicional, pauta pela qual tem total desprezo. A ideia dele é a seguinte: cumprir com o seu trabalho da maneira mais "profissional" possível e, logo ir embora, por isso repele qualquer aproximação dos moradores da cidade. Seu castigo será, acordar todos os dias, no dia da cobertura do tal evento. Então, ao longo do filme temos a maravilhosa oportunidade de observar o quanto o ser humano é capaz de errar, repetir os mesmos erros, "inventar" novos, para só então, aprender lenta e duramente uma bela lição.

  Até o desfecho da estória Phill Connors passará pelas situações mais engraçadas e patéticas, em função da sua "forçada" interação com a comunidade local, a qual prefere ignorar. E, por outro lado, somos testemunhas do que o desespero para resolver uma situação surreal é capaz de provocar. Phill, tentará, inclusive, se matar das mais variadas formas, no entanto, sempre acordará no outro dia, sempre "preso" a mesma data. Aos poucos, sem o "poder" de administrar qualquer "mudança" do tempo, sem saída, com todas as suas tentativas desesperadas fracassadas, vemos submergir do cruel repórter uma alma nova, com perspectivas mais reais, o antes ambicioso Phill, passa a desejar que os seu "dia" (aquele único que se repete insistentemente) seja melhor do que o anterior e assim sucessivamente. Se é tudo o que ele tem, ele o terá da maneira mais profunda e completa. O filme, para mim, é isto.

  Já a vida, muito embora não apresente aspectos tão surreais, quanto à ficção, tem também se repetido. E, a lição, todo o final do dia (o mesmo há algum tempo) parece ter sido completamente aprendida. Puro engano, ainda há muito o que se aprender. Phill só ganha a oportunidade de acordar em um novo dia, quando muda não somente suas ações, mas principalmente sua perspectiva com relação à vida. A chave, me parece ser bem esta simples combinação:  aceitação e paciência com o que não podemos modificar, humildade para conhecermos o outro integralmente e um novo olhar para aquilo que estamos vivenciando. Depois disto, é possível que amanhã, quando acordar, o calendário tenha uma nova folha...Enquanto isso não acontece, o jeito é fazer o melhor para que hoje, seja um hoje melhor, do que o "hoje de ontem"...c'est la vie.




quarta-feira, 2 de maio de 2012

Insatisfeito? Entre na fila...

  Nem antes, nem atrás de mim. Porque nesta fila, definitivamente, não estou. Mas, todos os dias (todos mesmo) encontro quem se sinta o ser mais infeliz, irrealizado e pobre do universo, e quer saber? Concordo, pelo menos, com o último adjetivo. Pobreza extrema, miséria irremediável é isto: ter e se sentir sempre em falta.

  Sonha-se em visitar um determinado lugar, realiza-se; deseja-se cursar a faculdade dos sonhos, concretiza-se; sonha-se em encontrar um parceiro e o destino se encarrega; felicidade, euforia, êxtase. Até que um dia, deseja-se outro lugar, outra faculdade, outro amor verdadeiro e...frustração. Porque não teve um, dois ou os três novamente. Diagnóstico: caso grave de insatisfação crônica.

  No supermercado a Dona Granfina reclamava com a empregada, que não tinha dinheiro para nada. Nada? Disse ela? Pois o "nada" dela é o triplo do salário da sua funcionária...Olhei para ambas e vi exatamente o que eram: a Granfina paupérrima e a sua funcionária muito rica.

  Para esses insatisfeitos não há no mundo "felicidade", cuja garantia dure mais do que a de qualquer bem material. Não há atenção, fidelidade, lealdade, afeto, despreendimento, amizade e companheirismo suficientes. Nada é o bastante. Tudo falta, tudo "ainda" está no porvir.  A vida parece ser um eterno projeto "a se realizar" um dia, quem sabe.

  Nas últimas décadas conheci gente de todo o tipo, e sou muito grata por ter convivido com elas, por ter "incorporado" algumas delas a minha vida. Mas, por outro lado, lamento tanto ter me afastado de pessoas pelas quais sempre tive mais admiração, afinidade e certa simplicidade ao me relacionar. Por vezes, a gente acredita que "cresce" ao se afastar de onde partimos um dia, mas a verdade é que evolução plena,  está em aceitarmos o que somos, de fato, e sermos gratos (eternamente) ao lugar de onde partimos. 

  Pena mesmo é um dia ter me afastado de gente "real", cujo almejado presente de aniversário era uma simplória roupa de cama. Para onde eu fui, que deixei pelo caminho, tais pessoas?

  Desculpa se não compartilho desse surto de insatisfação, mas é possível que a minha cura esteja mesmo nessas experiências mais comezinhas que tenho vivido e, principalmente, visto por aí. Mas, se quiser se livrar dessa sensação permanente de insatisfação, só observe. Tem muita gente por aí desfrutando de uma satisfação real, sem prazo de validade, sem perecibilidade. Caso contrário, entre na fila e tenha muita paciência, porque os insatisfeitos costumam ser bem impacientes e "reclamões". Boa sorte!


sexta-feira, 27 de abril de 2012

Abandonar e seguir?

  Ou permanecer e tentar? O problema de se "abandonar" definitivamente algo ou alguém, muitas vezes, significa abrir mão da própria essência (enquanto desisto de algo, renego minha crença naquilo, que até então me era fundamental). Afastar-se de um, e por causa deste um, afastar-se de outro - que nada tinha a ver com a história - e mais outro e de todo um grupo, que também faz de você o que você é, entende? Não é justo com os outros, nem com você e, mais, é dar poder demais ao que deveria ser simplesmente ignorado.

  Queria (juro!) ser mais sintética: viver somente de "sim" e não", na maioria das situações, mas embora eu acredite que seja isto mesmo, que a vida pede, acho o "pouco" muito pouco e onde vejo lacunas tento preencher com alguma explicação. E que duro, sempre pensar, analisar, procurar diferentes pontos de vista e se surpreender com a resposta, que era só um "sim" ou um "não". Definitivamente isso de pensar, não tem me levado exatamente onde eu gostaria de chegar, mas talvez seja apenas o jeito que a gente encontra para se distrair no transcorrer de uma longa viagem (nem livro, nem música, nem observação. "Só" pensamentos...)

  Não sou de abandonos, embora isto, às vezes, me faria bem; tampouco consigo seguir em frente com nós na garganta, incertezas e a sensação de fuga. Se a luta chama, respondo, permaneço e tento. Se eu perder, seguirei em frente, mas agora, sem a necessidade do abandono. A resposta de hoje é: permanecer, tentar e, só depois, seguir. Abandonar não me faria seguir, pelo contrário, me levaria novamente ao início do caminho, só que a um outro caminho, por isso sem  vantagem alguma no recomeço.


                           (Ludov)
Eu não sei se quero fazer parte disso
Esse mecanismo está prestes a parar

É tanto desespero que o passo é impreciso
Esse mecanismo ainda vai degringolar

As ruas que eu caminhava mudaram de direção
me sinto perdido, andando em círculos sociais
entrando em contramão
confundindo sinais


Ser o que se espera sem ser previsível
Vai ficar díficil pro navio navegar
Se for só por vaidade peço pra anular o visto
Fogos de artifício também podem te queimar

segunda-feira, 16 de abril de 2012

A luta exige constância

  Eis o problema. Se tudo é tão instável; os humores, situações e relações são tão inconstantes, como nos mantemos em vigília o tempo todo? 

  Não. Nada é tão "natural" assim, livre de qualquer esforço. Gostaria mesmo que fosse, mas não é. Mesmo a felicidade, que, muitas vezes, nos parece sentimento enigmático "nascido não sei onde, nem quando, nem o porquê", sensação  surpreendente, chegando quando menos se espera, precisa de alguma (senão muita) batalha. Necessita, no mínimo, de "preparar o terreno" para recebê-la.

  Mas, mesmo sabendo dessa "exigência", tão inerente à vida, é normal que a gente, muitas vezes, se canse e "abaixe a guarda" em alguma parte do caminho. Ainda há pouco você estava em meio a batalha, com sua espada em riste, exibindo uma força descomunal, cara pintada, gritos de incentivo para os companheiros, parecia um guerreiro incansável. E porque acreditava nisso, sua coragem se potencializava. Então, depois de algum tempo naquela postura altiva, os caminhos vão parecendo mais calmos, as lutas quase escassas (ou já vencidas, por antecedência - arriscada presunção!), os desafios menos importantes, e por subestimar o que "virá", enquanto abaixa sua arma, resolve "esquecer" de sua elaborada estratégia, neste momento, a sua mais importante luta se apresentará.

  Porque é assim que as batalhas se engendram: a vida requisita da gente, o que, no momento, a gente menos tem. Pede amor, quando você tem raiva; pede generosidade, quando você tem rancor; pede leveza, quando você "carrega o mundo nas costas"; pede reflexão, quando você oferece pragmatismo e, principalmente, pede força, quando você vivencia seu momento de fraqueza. E assim, mesmo o mais experiente guerreiro, perde um ou outro desafio, pelo único minuto de "indisciplina" que se permitiu ter.

  Invariavelmente, todos perdemos, mesmo depois de muitas vitórias consecutivas; todos fraquejamos, quando acreditávamos sermos suficientemente fortes. É mesmo coisa da vida, é mesmo coisa de "gente". A verdade, é que somos uma multidão de aprendizes, precisando de vigília constante; cujo único vigilante possível somos nós mesmos. Já ganhou sua batalha de hoje?  E se perdeu, já levantou? Já retomou de onde parou?  E, se não dá para descansar, o jeito é mesmo seguir lutando.


segunda-feira, 9 de abril de 2012

Então, só deixa passar...

  De fato, a maneira mais inteligente de viver é "deixar" mágoas e ressentimentos o mais distante possível. Mais do que perdoar, tratar o que te feriu, como "parte da vida", inerente a qualquer existência humana. Eu bem que suspeitava que essa possibilidade era o jeito "mais esperto" de viver, mas depois de "mergulhar" intensamente em uma biografia emocionante neste feriado, fico mais certa disto (porque tinha um comentário do autor a respeito dessa característica, na "personagem" pesquisada. E, eu imediatamente, concordei com ele.)

  A verdade é que romper relações, se colocar como "vítima" e seguir se lamentando por uma situação que te magoou profundamente, de nada adianta. Iludidos, às vezes, a gente pensa que "fazer doer" no outro (naquele que nos feriu) pode amenizar a nossa dor, ou ainda, fazer o outro "aprender" com a situação invertida. Quanta pretensão! Quem disse que você está à altura de qualquer ensinamento? Pagar dor com dor não é lição, é imaturidade. Tenho aprendido muito mais com o amor, do que com qualquer outro método.

  Sim. No início, é mesmo difícil esquecer, ignorar ou admitir que falhas, qualquer que sejam suas proporções, fazem parte daquilo que chamamos de humano (parte do outro e também de mim). Mas, com as "medidas" necessárias de paciência, tolerância, generosidade, compaixão e...amor. É sempre possível se estabelecer uma nova perspectiva com relação ao outro. Perdoar ao outro e a si mesmo, custa muito caro, por algum tempo, mas depois é mesmo recompensador. Significa dar passagem para uma outra esfera, abrir caminhos para relações mais sinceras e libertadoras.

  Errei quando me questionei (durante muito tempo) o pouco apreço que o outro tinha por mim (a verdade é que nunca me simpatizei com ele, mas jamais faria algo que o prejudicasse. Mas, é o "jeito", que o outro sabe viver...é preciso respeitar, inclusive a desumanidade alheia...), não desejo mais compreender, agora é fato, definitivamente ficou para trás; errei quando cobrei do outro a atitude que eu achava mais generosa, porque cada um é responsável por suas atitudes; errei quando me senti "escolha descartada" em uma situação que eu jamais aceitaria ser item "de escolha", se não há escolha não há descarte, simples assim; errei (e erro todos os dias, invariavelmente) quando esperei uma atitude específica do outro, qualquer expectativa gera frustração, o outro é um personagem da sua vida, cujo roteiro não é escrito por você, portanto não esperar nada é o que se tem de fazer; errei, errei, errei. Mas, sou generosa comigo, aceito as minhas falhas e reconheço minhas qualidades. Deixo para trás o que não posso mudar e sigo, abrindo caminho para as mudanças que posso implantar ou, para aquelas, que só precisam que eu deixe que aconteçam.

  E isto, também foi a minha páscoa. Passar a deixar as coisas só passarem...sem esforço, sem dor, nem frustração, só abrir espaço para acontecerem...


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Ter medida é tudo!

  Acho que para tudo, há de se ter muito equilíbrio...até mesmo para o que a gente considera bom. Porque um pequeno exagero em um único ingrediente  há sempre o risco de "estragar" toda a receita. Amor demais pode "cegar", daí podemos transformar o ser amado em uma figura mítica, inexistente e prisioneira de uma imagem apenas ilusória; necessidade demais se torna dependência (que se transforma em doença); expectativas demais podem se transformar em duras decepções. E, com relação ao humor não penso diferente...

  Adoro gente bem humorada, espirituosa e até debochada; sempre que tenho a oportunidade estou no meio deles, na maioria das vezes tenho sido um "deles". Acho que o humor faz a vida ficar mais colorida, leve e descomprometida. Acho que pode transformar quedas, dores, problemas em um oportuno mote para piadas e enquanto se ri, não nos entregamos às lamentações. Mas há de se medir a dose...

  Rir de uma dor que não é sua, não me parece engraçado, ao menos até o "afetado" pelo assunto, abrir  a sessão de "Stand up comedy"; porque geralmente se ele riu de si, debochou; aí sim acho que somos "autorizados" a sermos também engraçados. Mais do que "etiqueta" a gente tem que aprender a respeitar a dor alheia. Nada demais, não se pede compreensão, aceitação ou entendimento com o sentimento alheio, só respeito... e este "só", às vezes, me parece que é pedir demais. Tanta coisa para rir, mas a falta de sensibilidade alheia parece que limita o olhar do pretenso humorista para tantas outras questões...vai saber...