sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A vida dos outros não é mesmo para ser sua

  
  Enquanto aguardo a amiga resolver alguma pendência em um prédio na região central, olho pela janela  a vida que lá embaixo segue apressada e ao mesmo tempo, incrivelmente, lenta. Porque é calor, porque o sol é implacável no concreto, principalmente, para quem não se protege sob as marquises; a energia é pouca para um começo de semana quentíssimo; os adultos estão pesados, andam como se carregassem todo o mundo nas costas; as crianças são mais leves, têm mais energia, mas estão igualmente incomodadas com o tempo quente, suadas, todas têm cara de preguiça. Estou em um outro mundo, onde o clima é ameno (artificialmente refrigerado), as paredes alvíssimas, que contrastam com o "mundo escuro" lá embaixo, paisagem pichada, amotoada e suja; aqui, no meu mundo agora toca uma bossa nova baixinha (João Gilberto sussurra no meu ouvido), o telefone não toca e a recepcionista não recebe ninguém, além de mim, agora. Na janela ampla, fechada,  meus olhos, protegidos pela vidraça limpa, procuram algo inédito em um cotidiano demasiado vivido. Conheço a rua, o prédio e até aquela mesma janela há tanto tempo. Mas lá fora nada é completamente familiar, as pessoas são outras a cada segundo, o chegar e o sair é intenso, lá embaixo ninguém tem a opção de só permanecer; o embaixo é passagem.

  Canso do embaixo e procuro o "à frente", a janela do meu mundo temporário, revela a secretíssima intimidade de  um salão de beleza, eu olho para as costas do salão. O lugar é amplo, a clientela é vasta, para uma terça-feira à tarde. Em uma pequena parte, separado por uma divisória dessas de escritório, fica o local reservado para as funcionárias, é de lá que tenho a melhor visão. Dezenas de garrafas térmicas coloridas, xícaras de diferentes conjuntos, algumas canecas e copos na pia esperam sua vez de serem lavados, alguns potes de um biscoito ordinário, muitas sacolas sobre um balcão improvisado. O salão fica em um prédio antigo, dos mais antigos da cidade talvez, conheço o seu nome e lembro de uma propaganda antiga, com uma modelo antiga, em um visual já antigo, para uma época longínqua; eu era criança e a moça da propaganda balançava os cabelos,  suspensos por litros de spray, de maneira forçadamente sensual, dizendo palavras ininteligíveis para minha pouca idade, mas lembro dos cabelos da moça, da roupa de paêtes e do nome do salão, eu que nunca soubera onde o tal ficava, décadas depois sorrio com a descoberta . As trabalhadoras estão de costas, das clientes só vejo os cabelos, sendo escovados, pintados, divididos em fitas de papéis laminados, sendo enrolados, alisados, presos e trançados. Lembro de um sonho antigo e finjo fazer parte daquele outro mundo, onde os secadores gritam, as mulheres falam sobre tudo, sobretudo de assuntos comezinhos: tudo está caro, os maridos são uns parvos, os filhos uns delinquentes, mas quando querem, são fofíssimos, a novela sem graça, a amiga doente, o governo que piora a cada dia, o país que nunca esteve tão desordenado...

  Acompanho a cabelereira que enquanto conversa com a cliente, de tintura no cabelo, segue até o reservado, serve-se de café, ou outro líquido qualquer, da garrafa azul e acende o cigarro em frente a janela. A mulher é ruiva, de um ruivo provavelmente fabricado no próprio salão, a calça tipo legging é tão vermelha quanto o cabelo, a voz deve ser forte, porque mesmo afastadas, a cliente e ela continuam o diálogo. A ruiva fuma e se contorce para jogar a fumaça pela minúscula abertura da janela (lá também o ar deve ser climatizado), uma outra funcionária serve-se da mesma garrafa, a cliente se aproxima e aceita o líquido de outra, goteja o que parece ser adoçante e as três travam uma conversa animada, com muitas gargalhadas, café e um pouco de fumaça. São quase quatro da tarde e no centro da cidade três mulheres são infinitamente felizes. E eu que um dia quis tanto ser ruiva, trabalhar em um salão, fumar e gargalhar durante o trabalho, falar de marido, cabelo e filhos. Só a ruivice de meses eu realizei. 

  Conformada com o sonho que tive, fatalmente irrealizado nesta vida, não por má vontade, nem falta de talento com os cabelos dos outros, mas por um motivo desses que a gente nunca saberá explicar. Porque um dia, quis ser outra coisa, conheci outros mundos, admirei outras pessoas e nestes sucessivos "abrir de portas" eu não encontrei o caminho de volta, entende? Nunca mais poderei voltar, não para este desejo infantil.

  Enquanto olho para a vida do outro lado da rua, no meu mundo silencioso e branco, percebo que a recepcionista observa-me,o que será que ela vê? Terá ela tido um sonho com a vida de alguém? Terá sido eu, meu Deus? Rogo que não. A vida dos outros é mesmo uma beleza do lado de cá da janela, mas é dos outros, só dos outros. A amiga chega e vamos embora, em minutos seremos a multidão abatida do mundo quente lá de baixo. É esta a minha vida, é minha, minha, minha só...

        


2 comentários:

Ana disse...

agora fizeste-me viajar o tempo, no antigo salão na zona histórica da minha antiga cidade:) coisa boa

Amanda M. disse...

Rs. Minhas recordações de infância ivariavelmente passam-se nestes lugares...os salões, que eu adorava.