terça-feira, 15 de janeiro de 2013

E, passamos...

  E, são nestes momentos que me recordo da razão de nunca ter sentido a necessidade lancinante de dirigir. Porque enquanto não chego, tenho tempo para pensar, contemplar, dividir com tantas outras pessoas as pequenas felicidades, as invisíveis angústias. Não é por preguiça ou acomodação é justamente o contrário, é por achar que uma viagem de ônibus pode ser uma exploração muito humana, de outras pessoas (ou de si) e seus sentimentos; uma corrida de táxi pode ser o caminho para uma descoberta agradável do gosto musical, da opinião e da profunda filosofia do motorista e  uma boa caminhada trazer até à alma e à mente o oxigênio necessário para uma vida de verdade crescer nestes dois lugares, por vezes tão abafados.

  Entre as três possibilidades, neste dia, escolho o transporte coletivo, a distância não é grande, mas com sorte pararemos em todos os semáforos, torço solitária e discreta por um maior aproveitamento da viagem, quanto mais demorar, mais tempo terei para o meu exercício favorito, observar. Não encontrando rostos conhecidos, comemoro, prefiro o "conhecer novas gentes" a reconhecer as antigas, as primeiras vezes reservam lugar especial na memória da gente. Depois do olhar de reconhecimento, escolho um semblante com o qual mais me identifique, a gente faz isso a vida toda, busca o diferente, contanto que ele possa de alguma forma nos refletir. São nas identificações que a gente se compreende, é através da imagem refletida que julgamos, acusamos, reconhecemos e até perdoamos.

  E, então a vejo. Plácida, lívida, levemente feliz, sozinha olha a cidade pela vidraça transparente do ônibus, parece ela também relaxada e contente com as sucessivas paradas do transporte; embora veja muita coisa, suspeito que só repare mesmo em si. Ela é seu único foco. Por alguns segundos achei-a esgoísta, ensimesmada demais, mas logo, admiro-a e julgo-a corajosa. Afinal, quantos olhamos para dentro de nós mesmos, sem vaidade, sem orgulho ou necessidade de fantasias? Quantos nos desnudamos em frente a nós mesmos sem pudor, livre de julgamentos?

  A moça do ônibus é, ou pelo menos está, reflexiva, introspectiva e está tão presa aos próprios pensamentos que nem percebe, que dá pequenos sorrisos, mexe com os olhos como se fosse arrebatada por sentimentos diversos, em situações específicas que a sua própria mente cria ou recorda, os lábios se movem e ela balbucia pequenas palavras, do enorme diálogo que, certamente, trava consigo. Acho que só eu percebo e acho graça. Agora não há mais volta, é ela a personagem, a quem acompanharei até o final da jornada de uma de nós. 

  Paramos no cruzamento entre as duas avenidas mais tumultuadas, olho para a moça e ela ainda exala paz, mesmo em meio ao clima geral de ansiedade; os outros passageiros reclamam, buscam o celular dentro da bolsa, batem os pés no assoalho do ônibus, ou os dedos rijos nos próprios assentos. A moça não se contagia pela pressa urbana, pelos apelos barulhentos do lugar, ela segue com o seu diálogo íntimo, por vezes imagino que ela interroga, outras, ela se responde e soluciona as questões que ela mesmo criara. A moça plácida, cheia de perguntas e respostas, a moça leve que responde as próprias questões. De repente, enquanto eu preparava-me para descer, já em pé, olha-me nos olhos e acho, pelo sorriso vitorioso que deixou escorrer pelo lábios,  que encontrara a resposta definitiva para as suas questões. Definitiva de hoje, porque sei bem que essas respostas fogem, enganam, camuflam e se perdem a todo instante. Mas, por algum motivo, eu e a moça compartilhamos o sentimento maior de plenitude. Ela segue e eu fico no meu destino, agora eu sou a moça, caminho leve, acompanhada de um contentamento único e doce. Ainda que nenhuma de nós estivesse condenada a um fim próximo, desconfio que seja essa a sensação de quem morre. Por um segundo ter a resposta de uma vida inteira. Saber exatamente para quê se vive, compreender o que deve ser feito, sem a sombra da dúvida pairando.

  Respostas deste tipo são perecíveis, o sentimento de entendimento completo e plenitude também não demoram muito a se abalar e é por isso que eu e, possivelmente, a moça desfrutamos ao máximo da sensação, sabe-se lá quando ela tomará o nosso ônibus novamente?






2 comentários:

Ana disse...

eu sou a moça do autocarro, muito distraída, já me apanharam muitas vezes a rir dos meus pensamentos...

Amanda M. disse...

Se te vejo distraída observo e depois conto aqui...:)