quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Um bom dia pra nascer

  Eu não nasci na data do meu aniversário. Não para mim. Não para o meu pai. No caso de meu pai a comprovação é recente, quase uma semana. Não me ressinto, não me magoa, a sinceridade do meu melhor amigo só emociona-me. Queria eu, ter essa verdade quase lancinante, não há uma única desculpa para esconder a verdade, nem por gentileza ou cortesia, para ele, educação é sempre dizer a verdade, seja ela qual for.

  A história da descoberta do meu nascimento tardio, para o meu pai, começou quando minha mãe, que sempre guardou consigo um pequeno tesouro, herança da infância dos seus rebentos, um pequeno chaveiro. Cujo um dos lados era decorado com uma pequenina foto dos dois filhos mais velhos (sorridentes, sardentos e irriquietos, posando no sofá de couro marrom) e do outro, a caçula (tímida, quase careca, de vestidinho azul, com uma galinha bordada; eu com quase dois anos). Tendo o tempo se afastado tanto, as memórias boas começado a emergir, com poucas fotografias da época, minha mãe previdente, achou melhor desmontar o chaveiro, resgatar-nos de lá, ampliar as imagens e digitalizá-las. A irmã, agora menos sardenta, ajudou nos trabalhos e, na semana passada, vimo-nos maiores, mais nítidos, com rostinhos tão antigos, mas muito familiares. Com a foto ampliada minha irmã mostro-a para meu pai, primeiro a minha e ele não reconheceu-me, não soube dizer quem era, na única tentativa que se lançou, disse ser minha sobrinha mais nova e ela nem parece-se comigo. Agora as fotos estão na estante  e a cada visita à sala, meu pai contempla, se esforça, mas não se lembra de mim com aquela idade;  não me surpreende. Eu nasci para o meu pai mais tarde, um pouco mais crescida. O caso é que este bom homem não se deixa conquistar por rostinhos meigos, risadinhas travessas ou balbucios ininteligíveis. Para conquistar seu afeto é necessário discurso. Meu pai só ama quem tem ideias, quem as defende, quem tem algum talento para persuassão. Eu nasci para meu pai quando eu conquistei a palavra. Talvez, e muito provavelmente, quando tivemos nosso primeiro embate, daí sim os olhos dele se voltaram para mim.

  Já para mim, o meu nascimento deve datar da minha primeira lembrança, afinal, antes disso não "nascemos para nós", de fato, e assim, penso, que cada dia é uma oportunidade nova de nascermos de novo. Para algum fato, para um desconhecido, para uma habilidade, para uma nova história. Para cada nova pessoa é um novo nascimento, tolice é esquecer disto e seguir pela vida cansados, de olhos acostumados, velhos demais por termos nascido ao mesmo tempo do registro no cartório. A gente encerra histórias o tempo todo, fecha ciclos, termina projetos, nos despedimos de alguém para quem a gente, de repente, descobre que nunca nasceu, por uma frase, declaração ou cobrança, percebemos que esta pessoa não nos conheceu, de fato. Terminada uma história, às vezes, em uma despedida difícil, mas libertadora, porque encerra aqui, para começarmos outra logo à frente. 

  Não lamento meu nascimento atrasado para o pai, tampouco os outros tantos que demoraram a acontecer, pior mesmo é se nunca acontecessem, se abortados, se não concebidos, se não gerados.
  Não se morre somente quando deixa-se a vida, morre-se um pouco por dia, quem não nasce para alguém ou alguma coisa nova e também quando não se testemunha o nascer do novo. Esta sim uma morte imperdoável, incontornável.

  Hoje é um bom dia para nascer, todos eles são.



4 comentários:

Anônimo disse...

Aaaaaaaah amiga linda!!! Hoje e msm um ótimo dia pra nascer... e que a gente nasca e renasca qts vezes forem necessárias!!! Ainda que esteja "bebendo mhs culpas, meu veneno, meu vinho..." ;)

Amanda M. disse...

Mas também "regando teu jardim, cuidado bem de si"... ;)

Ana disse...

Todos os dias são bons para nascer, quanto ao teu pai, eu entendo, também sou assim, não sei lidar muito bem com as crianças antes de dizerem palavras, frases, coisas com sentido:)
parabéns se foi o caso:), beijinhos

Amanda M. disse...

Gosto de crianças antes mesmo delas nascerem, Ana. Imagine a minha dificuldade de compreender meu pai, mas enfim, aconteceu. Ainda não é o caso dos "parabéns", mas obrigada! Beijos