sexta-feira, 17 de maio de 2013

E ela me deu música

   Há quase uma década eu a conheci, na faculdade, lembro exatamente o prédio, onde hoje só existe o curso de Letras, o nosso foi deslocado para um outro prédio, novo, bonito e distante; lembro o exato lugar do prédio, perto das escadas, primeiro dia de aula, dia cinzento. Eu já tinha vinte e um, mas sentia que tinha seis e entrava na escola. Afastada do grupo, ela me chamou, perguntou o meu nome e a roda recém formada se abria para mim, por iniciativa dela. Ela, a aglutinadora, a sociável, alma sempre disposta a novas pessoas. Características que quase nunca me conquistavam em um primeiro momento, mas ela era diferente. Sua simpatia é incomum, inédita, incomparável. Foi empatia desde a primeira frase, antes da primeira aula, antes de todas as outras pessoas.

  Depois da primeira abordagem ela ainda faria outras, sucessivas, rápidas e sempre descontraídas. Nos primeiros meses não sentávamos perto, não tivemos conversas longas, não fizemos trabalhos juntas, nada, só simpatia recíproca. Entimou-me a uma festa que eu não queria ir, mas fui e ela não. Mais um motivo para não gostar dela, mas gostei ainda mais; acho que pela imprevisibilidade. A aproximação foi lenta, mas contínua, sempre ou, quase sempre, nos entendíamos por uma comunicação inusitada, ela através da ironia com a própria confusão, conquistando uma legião cada vez maior de admiradores e eu, respondendo paciente as suas dúvidas. A dinâmica foi durante muito tempo a mesma: ela perguntava e eu respondia; ela dúvida e eu certeza absoluta.

  Acabou a faculdade, nenhuma de nós, honrou aquele diploma, mas fomos além do juramento oficial. Permanecemos cúmplices, íntimas e dupla, mesmo distantes. Houve um tempo em que eu achava mesmo, que a minha lealdade é que solidificava nossa amizade. As minhas certezas, a minha memória irrefutável, porque a dela nunca durou mais do que dois segundos, a minha disponibilidade, atenção e afeto; quase exatamente nesta ordem. Pseudo inteligente eu não sabia que no campo dos sentimentos, nunca há ordem, disciplina ou consciência; não há nunca um, relações existem em par, em trio, em bando, nunca um.

  A minha ignorância não dava conta de que o mundo é de quem tem perguntas, são as interrogações que descortinam novos mundos; as respostas não levam a outros caminhos, a resposta é ponto final. Quem tem resposta não tem nada, mas quem tem dúvida e questiona, é dono de um tesouro incalculável. E eu que um dia achei que distribuir sabedoria era generosidade, agora desconfio que inteligente e generosa era ela, que  através de cada pergunta, me deu muito mais do que eu poderia lhe dar, deu-me a mim, deu-me o conhecimento de mim mesma. 

  Ontem, folheando um livro antigo, que nem sabia que tinha passado pelas suas mãos, encontrei um bilhete dela, dizendo coisas banais, mas que revelavam mais sobre mim do que qualquer década de terapia poderia, um dia, sugerir. Hoje procurando um CD para encher de música o meu dia, achei dezenas deles com a letra dela, gravações que ela fez para mim a pedido meu, surpresa dela e alguns até, declaradamente roubados dela. Caso, em um situação surreal, nenhuma música mais estivesse disponível no mundo, eu teria, só com as músicas que um dia ela me deu, suprimento para um ano inteiro sem enjoar. O bilhete que eu encontrei no livro, coloquei-o de volta no mesmo lugar, logo esquecerei dele, ou, pelo menos, o lugar onde encontrá-lo e darei-me o presente de ser surpreendida por ele novamente. Escolhi um CD com o nome dela escrito e a primeira música que tocou, falava de partida. Agradeci a bela amizade e o entendimento, ainda em tempo, de que a nossa amizade é via de mão dupla, dou os ouvidos, pra quem um dia me deu a música; para que a minha vida nunca mais fosse feita só de silêncio. Generosidade é a dela, que dá música para alegrar e as perguntas para refletir. Eu dou as respostas, mas ela é que é a inteligente.



2 comentários:

Ana disse...

Muito lindo! Há pessoas que passam na nossa vida e mudam-na mesmo sem que nos demos conta:) pena que a vida nos perde uns dos outros...

Amanda M. disse...

Daí ficam as histórias e neste caso muitas músicas...rs