terça-feira, 30 de julho de 2013

E no final, bom é não estar protegido

  O nariz vermelho corta o vento, o casaco fino mal fechado, abre a qualquer rajada mais forte; não queria estar na cama quente, não mesmo. Não que gostasse de acordar cedo, não que gostasse antes de enfrentar a temperatura cada dia mais baixa, mas sentia realmente grata por fazê-lo. Não que compreendesse minimamente a neurolinguística, não que se sentisse atraída por autoajuda, mas mantinha a crença de que o ambiente, suas respostas a ele e a conduta diária poderiam influenciar seu destino. Manter-se a cada dia mais próxima do que deseja, afastar-se lentamente daquilo que ela não quer. E se não fosse verdade, pelo menos não se culparia por não ter tentado. Lamentar-se pelo que não foi feito é tragédia maior do que a dor de ter se empenhado em algo, porém sem resultado, para esta última existe o consolo da tentativa.

  Enquanto desço a rua vizinha, uma mãe sobe com o filho agasalhado, quase completamente coberto, tirando meio rosto destampado, provavelmente, apenas para preservar sua respiração. Incomodado, sem a mobilidade costumeira, em um instante de descuido, salvo do olhar da mãe, ele retira o primeiro casaco, vitorioso, segue com passos mais rápidos a frente dela, logo que ela percebe, puxa-o para próximo dela e, mais treinada, rapidamente coloca-o sob o casaco novamente, mesmo com a resistência frenética do menino. Ele sobe reclamando, tenta abrir o zíper daquele que parece ser um pesado castigo, ela impede cada tentativa dele; passam por mim, a mãe zelosa e o filho chorão. Definitivamente, não gosto de casacos, faria o mesmo no lugar do pobre.

  Em tempos frios assim, sempre achei que a melhor solução era a de não sucumbir ao clima, não evitar os banhos, não exagerar nos casacos, coisa pouca, somente o indispensável, acho que quanto mais tentamos afastar o frio, mais poderoso ele parece. A proteção demasiada pareceu-me sempre aumentar  a fragilidade, quanto mais nos cercamos de proteção, mais inseguros nos tornamos diante de qualquer imprevisto. Enquanto arrumava a cama, assistia ao jornal da manhã e revia uma figura pública simpática, explicando sua escolha pela sua aparente displicência com a própria segurança: "Acho que ninguém morre de véspera.(...)Não dá para visitar os amigos em uma redoma de vidro". Mãe e filho, contrariados, viram a esquina. O menino crescerá e terá de lutar muito para afastar-se dos cuidados sufocantes da mãe; segurança demais isola e enfraquece, penso ainda.

  É preciso que se coloque o peito à prova, não se encolha tanto os ombros; enfrente o frio, a chuva e, principalmente, o medo do frio e da chuva. Assim também é a vida dos sentimentos; expor-se aos riscos de se quebrar, decepcionar, desiludir é, ainda, o único caminho possível para se chegar ao melhor da vida. Insuportável seria ver a vida por um vidro seguro, sem tocá-la, sem sentir o calor, que só quem se arrisca experimenta.

   Logo que mãe e filho se afastarem, ele correrá e tirará o sufocante casaco, longe dos olhos da mãe, ele, finalmente, terá a liberdade sonhada, a dos movimentos e a dos sentidos. Uma gripe ocasional não lhe fará mal, febre e tosse são curáveis; mas a vida que se viu e não se teve, esta jamais poderá ser remediada.




2 comentários:

Anônimo disse...

Gostaria muito de ter a coragem de viver sem tanta proteção, mas acontece q algumas vezes a vida machuca tanto q precisamos de muita proteção...

Amanda M. disse...

Verdade. Mas tenho achado que machuca de qualquer jeito, então se for assim, menos segurança me parece melhor...;)