quinta-feira, 18 de julho de 2013

O ônibus errado

  E isto vive acontecendo. Como distraída crônica leio um nome, de longe, vejo um número na placa e vou
letargicamente em direção a um outro. Errei o ônibus mais uma vez. Na primeira vez que isto aconteceu, foi quando comecei a ir para a escola sozinha, na volta da aula, eu tinha oito anos e entrei em pânico, quando percebi o engano. O ônibus que tomei entrou em um bairro há quilômetros de distância do meu. E mesmo certa do erro eu demorei um pouco a tomar qualquer atitude, continuei quieta, parada, com a mochila pesada nas costas, no mesmo lugar, apegada ao erro, ao lugar em que eu não gostaria de estar, mas, de algum modo, segura. Prendi respiração e choro, o coração disparado de medo e eu não fazia absolutamente nada, enquanto o ônibus se afastava cada vez mais do meu destino. Não enxergando outra possibilidade, desci em um ponto qualquer, quando um outro passageiro apertou o sinal de parada. O medo paralisa mesmo as atitudes mais básicas.

  Com o dinheiro contado para ida e volta ao colégio, sem reservas, sem possibilidade de comunicação com ninguém, na época nem telefone tínhamos em casa, solitária, perdida em um lugar desconhecido eu quase chorei. Pensei em pedir ajuda, dinheiro para algum desconhecido, mas tímida e receosa de que uma palavra minha trouxesse à tona todas as lágrimas que eu segurava, preferi construir um plano individual. Segui até a avenida principal, que eu bem conhecia, e fui andando até o meu bairro, já passava do meio dia, era verão e o sol parecia querer furar minha cabecinha baixa, envergonhada e medrosa. A avenida larga tinha trânsito intenso e eu rezava para não morrer atropelada, anos antes um primo meu, da minha idade, fora atropelado por um caminhão na mesma avenida. Tinha mesmo medo era do choro da  mãe.

  Depois de uma hora de caminhada, chego em casa com sede, rosto corado de vergonha e calor, o uniforme molhado de suor, amassada, com o aspecto de uma garota que brincara o dia todo nos montes de saibro do bairro. Quando me viu à porta de casa, a mãe desesperada fazia uma pergunta atrás da outra, decidida a não perder minha relativa independência recém conquistada, inventei-lhe uma mentira qualquer, nunca contei à mãe do meu engano e saga sob o sol. Só chorei na segurança de casa, sozinha, pelo medo, raiva e descuido já passados. Outras vezes eu repetiria o engano, mas nunca mais o medo ou a paralisia. Logo que eu percebia o erro eu descia e seguia o caminho certo, se não soubesse onde estava, vencia a timidez e me informava em um comércio qualquer; padarias e bancas de jornais sempre me pareceram confiáveis.

  E mesmo hoje quando pego um ônibus errado eu não conto com o dinheiro reserva para subir em outro certo ou para tomar um táxi. Também não espero para ver que trajeto ele fará; desço. Volto a pé, é a minha punição pela distração e enquanto eu cumpro o caminho da volta eu insisto, que errar é comum a todos, mas para seguir qualquer caminho novo ou velho é preciso coragem, é preciso que se saia do conforto do erro e toque o sinal de parada. Forte eu volto. Mais forte eu retorno ao caminho perdido. Vez ou outra, ainda tenho medo e choro sozinha, mas um ônibus errado não é o bastante para quem sabe aonde deseja ir. Pior mesmo seria continuar por um caminho que não se quer.  



2 comentários:

Sandra Fantauzzi disse...

Os seus textos me emocionam muito.Quantos ônibus errados já peguei nessa vida...

Amanda M. disse...

Ohh que bom Sandra...seus comentários também me emocionam. Beijos.