segunda-feira, 15 de julho de 2013

Paixão é desobediência

  E como naquela música ótima do Lobão, ela diz que quer se apaixonar, acho graça e ela acha que não a levo a sério. E eu a levo. Sorrio mesmo é pela sua disponibilidade para a insegurança, noites atormentadas pela imagem, cheiro e voz de uma criação sua, de uma personagem que ela escreve e insistirá que sempre existiu; meu sorriso é pelo risco que ela deseja correr voluntariamente, construção ilimitada de  ilusões, vida futura fantasiada, presente superestimada e passado anulado; pelo desejo de ver a vida correr em um ritmo alucinante, levantando poeira atrás de si, derrubando copos, sacudindo cortinas, atropelando horas, gente e sonhos. Acho graça é do seu alistamento espontâneo para lutar no solo incerto, perturbado, repleto de minas ativas, que é este o da paixão. Logo ela que é quase sempre racional, agora lhe apetece sair do chão e viver em outro tempo e lugar; naquele tempo em que as horas passam mais lentamente, voam como pena ao ar, no lugar onde o cotidiano não chega, as pequenas irritações não alcançam. 

  E o meu sorriso também é um pouco de gratidão. Porque até outro dia ela chorava por um amor antigo, agora só amigo e se quer se apaixonar é sinal mesmo de cura. A doença agora é outra; é desejo de correr todos os riscos novamente; é desejo de oferecer seu coração fora de qualquer redoma, para um desconhecido fazer o que bem quiser com ele. E não existe maior coragem do que esta, a de saltar sem visão de rede embaixo. Ela está salva da dor e disposta a recomeçar tudo, sem exigência alguma. Quer se apaixonar e quer agora. E isto é que é o difícil, o agora.

  Porque paixão não respeita desejo algum; é egoísta, narcisista e abusada. Pede mais do que doa, fere a quem mais lhe oferece dedicação, não obedece marcações prévias de lugar, hora e pessoa. Paixão é desobediência de regras, desejos e pré-requisitos. Nasce escravizando, fazendo do apaixonado um dependente, quase irrecuperável, da própria paixão. Transformando os feios em bonitos, os bonitos em belíssimos, estraçalhando inteligência, racionalidade e bom senso, arrastando uma horda de lindos e tolos para uma existência imprevisível.

  Querer se apaixonar não basta, pelo contrário, a disposição afasta. A paixão desobedece. Se escolheu, se quis sem resistir minimamente, se ele é exatamente o que você precisa, não é paixão. Pode até ser coisa melhor, que eu duvido, mas não é paixão. Ela quer se apaixonar, eu respondo com um sorriso, de quem sabe que ela vai se apaixonar quando não quiser. Vai sonhar exatamente com quem nunca coube antes em um sonho seu e vai espremer, vai fazer o tal caber, depois de tanto querer. Sua paixão virá de moletom, se quiser terno; calça social se sempre gostou das cargos; vai jogar tênis, se você preferir futebol; vai preferir Pessoa, se você for fã de Sylvia Plath; vai ter alergia dos seus gatos; vai ser radicalmente diferente de tudo o que você esperou e por isso mesmo vai parecer tão melhor. Vai te tornar escrava e vai gostar; vai te fazer sofrer e vai querer, vai tomar conta dos teus dias e noites, mas vai colocar nos teus lábios os sorrisos mais resistentes e a vontade de ser infinita. 

  Ela quer se apaixonar, mas só vai mesmo, quando esquecer que quer ou, mesmo, não quiser. A paixão tem disto, só chega quando não esperamos visita. E só por isto este sorriso. Nada de especial, só a graça da imprevisibilidade; vai chegar, quando você não estiver olhando. Vai vir e não te dará  tempo para desculpa alguma. Vai puxar você para o meio do salão, pisar em todos os seus planos e você vai sorrir e dançar até amanhecer, se a noite não for eterna.





3 comentários:

Ana disse...

É a gente não escolhe nem o momento nem o personagem. Eles nos escolhem e muitas vezes quando estamos menos à espera. Beijo

Anônimo disse...

O problema é como se livrar da paixão quando ela chega sem ser convidada...e machuca e faz sofrer...:(

Amanda M. disse...

Acho que ela sempre chega sem convite mesmo. Paixão não combina com cerimônia e etiqueta...e acho mesmo que pode fazer qualquer um sofrer mais que "pinto em lagoa", mas uma hora o sujeito cansa, levanta ainda meio trôpego e caminha em busca de outro rumo. Sofrimento é questão de tempo, uns demoram mais, outros menos...mas todos se "livram" um dia...eu acho!rs