domingo, 22 de setembro de 2013

A dona da história

 A fotografia não ocupa mais o lugar onde por anos permaneceu, foi substituída. No lugar, outra imagem, outros rostos, novas vidas, gente recente que nunca conheceu os antigos inquilinos. Mas o lugar permanece e olhando para ele, a foto antiga, na verdade, nunca saiu. Engraçado como a memória da gente solitária, secreta e sorrateira preserva os lugares das coisas antigas, mesmo quando essas já foram embora. Uma antiguidade vale mais do que cobramos ou pagamos por ela, as lembranças que ela traz consigo são sempre o seu maior valor. O quadro que a visita curiosa contempla tem uma imagem diferente da que vejo, a foto retirada, substituída e escondida nunca saiu dali, ela ocupou o quadro definitivamente, sem meios de fazerem se separar.

  A visita se despede, fecho a porta, apago a luz e o quadro me persegue mesmo no escuro, no silêncio; ligo então o som, a música escolhida toca mais baixo do que aquela outra antiga, que sempre volta aos ouvidos. E não importa quantas esquinas do apartamento eu atravesse a imagem retirada do quadro sempre vem ter comigo. Desafiando-me, obrigando-me a um confronto diário. A imagem que rasguei se recompõe, colada pedaço a pedaço, atravessa o vidro do quadro e tranquila, toma o seu antigo lugar.

  Cada coisa no apartamento é bem mais do que parece, um livro de trezentas páginas, na verdade tem mais de mil; o brinco que falta uma pedra tem mais valor agora, com essa ausência, do que quando o comprei completo; a mancha persistente no estofado tem mais história do que cor; o espelho, herança de alguém ainda vivo, tem mais valor do que ações na bolsa; a pequena rachadura na parede não é consertada por pena, por já fazer parte de tudo aquilo. Tudo vira excesso no apartamento, extrapolando a capacidade da bagagem; cada detalhe tem peso triplicado. E não adianta apagar luzes, fechar portas, trocar móveis ou as cores das paredes, o que foi um dia, não desaparece nunca, apropria-se do espaço, vira dono vitalício dele; há de se acomodar as coisas novas, sem nunca querer se desfazer das antigas, porque elas se recusam a qualquer despedida. O tempo passa, as pessoas entram e saem do apartamento, eu passo, mas as coisas nos seus lugares permanecem como foram um dia, novidades seculares, predecessoras de sua dona.

  Procuro a caixa onde guardei a foto antiga, eu nunca a rasguei de verdade, sempre achei de uma inutilidade besta rasgar papéis, se na lembrança, a imagem não pode ser destruída. Seguro-a nas mãos, a foto tem luz ruim, o enquadramento é péssimo e as cores parecem bem menos vivas. Não há necessidade de ressurreição, fora do papel seguimos melhores, mais vivos. Coloco-a no fundo da caixa, a imagem permanecerá secreta ao público, mas de mim ela jamais sairá, máquina eficiente, a memória guarda o que a fotografia jamais poderá alcançar. E coisa alguma do apartamento jamais se perderá, já fazem parte definitivamente da dona delas, daquela, que de sua mesmo, tem a história das coisas. Este sim é o único valor absoluto.



4 comentários:

Ana disse...

As recordaçõe, quer queiramos quer não, não se podem, rasgar nem esquecer...
boa semana

Amanda M. disse...

As memórias da gente são uma espécie de mundo paralelo particular. Obrigada, ótima semana pra você também Ana!

Maria disse...

Passei, gostei e marquei lugar para voltar!
Bom final de dia!
Maria

Amanda M. disse...

Que bom que gostou...gratíssima pelo aviso. Bom dia pra você também...aproveitei e visitei "A próxima curva" nome pra lá de apropriado... ;)