segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Em um suspiro

  E depois da última cena; um suspiro. Profundo e nítido, no final do filme, no escuro, na última sessão de cinema do dia, sala vazia, semana cheia e na minha fileira, um suspiro demorado. Respiração profunda, na qual talvez coubesse tantas memórias, tantos desejos, uma infinidade de sentimentos. Não é cansaço, acho. É a entrega do espectador anônimo. "É isso, estou rendido. É isto a vida". É a entrega contente, pacífica, inspirada talvez pelo filme, pela chegada de um final de semana, por alguma imagem que o perseguisse, agora se resolvia em uma conclusão suspirada. Invejo o desconhecido, ainda que eu também pudesse fazê-lo, seria uma cópia, uma imitação da naturalidade do suspiro dele.

  As luzes acendem, continuo sentada, observo cada espectador deixando a sala, se levantam, recolhem seu lixo, ligam seus celulares, abrem suas bolsas; só um homem, além de mim, permanece. O olhar parado em direção a tela, o corpo ainda entregue à poltrona, imerso na trama ficcional ou na sua própria, naquela que carrega e não o abandona. É dele o suspiro, ele nem me nota, ele não percebe ninguém na sala e talvez por isso a espontaneidade de um suspiro alto, a exposição de alguma sensação íntima.

  Todos os outros têm pressa, nós dois não. Ele impedido por uma resolução suspirada, eu pela contemplação do homem em suspiro. Levanto-me lentamente, adiando o abandono da cena, não quero perdê-la, desejo prolongar o instante; do homem, o meu e, especialmente, a do suspiro. Temos paciência, estamos ligados por um sentimento que é só dele, mas que compartilho por súbita admiração. Nada fora da sala me comove mais, nada me faz andar mais depressa, meu celular na bolsa não tem importância, tampouco minha volta para casa, meu dia de trabalho, minhas angústias guardadas, minhas alegrias diárias, meu futuro incerto não incomoda, meu passado não requisita ser lembrado. Só o homem e seu sincero suspiro me absorvem agora.

  Fora da sala, uma horda de impacientes perdem o tempo, a hora, o instante da poesia nossa de cada dia. Ninguém mais se comove com o suspiro alheio, ninguém mais se ocupa do próprio suspiro, ninguém mais suspira. Os impacientes arfam pelos segundos passados no trânsito, no elevador e nas filas; prendem seus olhos nos semáforos, nos relógios. Se irritam e bufam pelo tempo mais lento do outro, pelo tempo que levam até a sua vontade encontrar seu desejo e por isso não esperam, aceitam até o que nunca quiseram, só para preencher um espaço, uma lacuna; na tentativa de não serem mais vazios. A ironia é que acabam aceitando algo que os deixarão mais vazios, mais incompletos, mais endividados com os próprios sonhos.

  Despeço-me da sala, do homem e do seu suspiro improvável, volto caminhando para casa ainda submersa pelo clima de calmaria e paciência que a respiração alheia me proporcionara. Aqui fora a vida é outra, mas obedeço o tempo de cada coisa, minha espera é doce, ainda que longa, pelo menos por esta noite. Contemplo uma lua crescente e a respiração agitada é agraciada pela pausa de um suspiro próprio. Amanhã é outro dia e eu não tenho pressa, não hoje, não agora.




4 comentários:

António Jesus Batalha disse...

Ao passar pela net encontrei seu blog, estive a ver e ler alguma postagens
é um bom blog, daqueles que gostamos de visitar, e ficar mais um pouco.
Eu também tenho um blog, Peregrino E servo, se desejar fazer uma visita
Ficarei radiante,mas se desejar seguir, saiba que sempre retribuo seguido
também o seu blog. Deixo os meus cumprimentos e saudações.
Sou António Batalha.

Amanda M. disse...

Que bom que gostou, Antonio. Volte quando lhe apetecer. Visitarei sim o seu blog. Abraços.

Ana disse...

É bom saborearmos a vida, pararmos de vez em quando a vê-la passar nos outros, às vezes nem damos por ela a passar em nós...

Amanda M. disse...

Exatamente. Vê-la nos outros nos faz dar conta dela em nós..acho. ;)