sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Não por justiça

  Andou mais dois passos e logo quis voltar, mas não voltou. Nunca voltaria. Nunca não. Voltou em pensamento; vez ou outra, batia a dúvida pelo que nunca aconteceu. Se aqueles dois passos não fossem dados seria outra vida? Não sabe, nunca se saberá. Entre o permanecer e tentar e o ir embora e desistir, parecia ter combinado o "ir embora e tentar". Escolheu abandonar o par de olhos, as mãos brancas, o futuro prometido, que ela até sonhou, mas nunca quis para si de verdade. - Não era para ela entende? Por isso a partida, o abandono e as visitas eventuais à vida imaginada.

  Mas, embora houvesse sempre muitas dúvidas, ao lado delas caminhava uma certeza: foi esta a minha escolha, a de não voltar. E teria uma vida inteira para se orgulhar ou arrepender-se de uma escolha sua, somente sua e de mais ninguém e só isso bastava para se encher de altivez. Decisão minha, escolha minha, vida minha. O pronome possessivo, dava a ela, ela mesma. Ela era sua. Assim como a escolha. Liberdade maior que essa não devia existir.

  E a cada vez que o pensamento ameaçava atormentar-lhe novamente, resignada (no melhor sentido da palavra) ela sentia-se grata pela possibilidade da escolha; ela que quase sempre pode escolher, lamentava a vida daqueles que desconheciam essa liberdade; na maioria das vezes por ignorar que houvessem escolhas. Há sim. Há sempre a possibilidade do parar ou continuar; do ficar ou partir; do desejar mais ou contentar-se com aquilo que se tem; do dar adeus ou dar-se. Pensava ainda, que as pessoas tinham quase sempre aquilo que mereciam, nem tanto por justiça, porque a vida não tem que ser justa, já que não tem leis a obedecer, que não é equação de fácil resolução, algumas vezes, nunca é solucionada de verdade. Mas porque o mundo quase sempre nos devolve exatamente aquilo que lhe damos. Injustiça é amnésia. É quando recebemos o ruim, imaginando que só oferecemos o nosso melhor; nunca é verdade. 

  Sempre recebia das pessoas e do mundo aquilo que também dava, se davam-lhe pouco é porque tinha negado partes suas também; desconfiadas, comedidas, ariscas, todas como ela. E o espelho do mundo também devolvia-lhe  a afetividade, o bom humor, a intimidade, todas também ela. Não por justiça, que fique claro, mas por puro e simples reflexo.

  Deu os dois passos. Não voltou. Abandonou o que nunca teve e teve o que nunca teria, se não tivesse colocado pé após pé. A vida não é necessariamente justa, mas é generosa com as nossas perdas, para cada uma delas, uma reparação. A gente abandona um caminho, para seguir noutro; isto é escolha, isto é liberdade; é ter-se a si próprio e ver o seu destino, exatamente como resultado de cada passo dado ou recolhido. Não é por justiça, é só pelo que é. Deu os dois passos e não arrependeu-se, isto, ela não sabe ainda, é sabedoria.







4 comentários:

Anônimo disse...

Como é difícil tomar algumas decisões...a vontade de voltar atrás ou de n ter dado o primeiro passo...e como saber se realmente foi o melhor? e como conviver com um "mau" passo??
Espero ter acertado...pelo menos estou tentando...

Amanda M. disse...

De fato, a dúvida, vez ou outra, aparece querendo acertar as contas...o melhor, acho, que é não darmos razão a dívida alguma. A escolha de um caminho sempre me parece melhor do que só "estar nele". A tentativa já mérito.

Ana disse...

Olá Amanda,
estava mesmo a precisar ler esse teu texto... mesmo!
beijo e obrigada

Amanda M. disse...

Que bom Ana...beijo!