terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O que não tem certeza, nem nunca terá

  Quem escolheria voluntariamente abrir mão da sua autonomia e se tornar refém do outro? Mergulhar sem boias, salva-vidas ou segurança alguma, em águas desconhecidas? Remar contra, quando todo mundo aconselha a favor da maré; ignorar avisos sonoros, visuais, telepáticos. Acreditar nas cartas do tarô, na magia indiana, africana, laosiana; acreditar em fadas, cupido, deuses exóticos; acreditar em sinais, sinas, em mudanças de comportamento, vida ou valores. E desacreditar nas estatísticas, nas pesquisas, nas feministas, nas próprias convicções, agora jogadas no lixo. Quem?

  Quem racionalmente se entregaria ao mundo das sensações desconfortantes corporais, mentais e, especialmente, as subjetivas,  de borboletas no estômago, do frio na barriga, do apetite acentuado ou perdido, da insegurança pueril, revisitada pelo sujeito com mais de vinte anos; quem?

  E por não querer e de tanto não querer, teve aquele dia de se apaixonar, acontece, inevitavelmente, ao mundo inteiro. E mesmo ao sujeito mais incrédulo, mais pessimista,  mais frio ou racional, vai acontecer. "E mais essa derrota! Não comigo, não de novo, não agora".
 O apaixonado é um retardado, um ignorante, um otimista insano e risonho em meio a um bombardeio. Não vê perigo, não sente dor, não contabiliza os desaforos, só segue, cego, a caminho da própria paixão. Apaixonado pelo objeto a quem dedica o sentimento, apaixonado pela própria paixão e, especialmente, apaixonado por si. Porque a paixão tem disto, fazer do apaixonado um lindo de olhos brilhantes, postura leve, sorriso insistente, vaidade pelos detalhes mais imperceptíveis, aos olhos dos não-apaixonados.

  A paixão atrapalha a meditação, a oração, a reza, a ioga , a concentração ou busca de qualquer essência superior, porque a paixão não é humilde, ela ocupa os espaços reservados ao que é mais importante; ela se autoproclamará essencialmente superior. E burlará qualquer instrução para esvaziar a mente, para viver o presente; a paixão é sentimento que vive de tempo futuro: o próximo encontro, o próximo beijo, a próxima dança, o próximo passo, a próxima declaração, o próximo...
  Sentimento desse, não obedece relógio esquece do compromisso com o resto do mundo, se atrasa, não comparece. Mas, para a paixão: se adianta, chega dois dias antes, espera sentado, de olhos abertos, com o coração nas mãos; o relógio do doente de amor é outro.
  O apaixonado é um pacifista sem conserto, por isso não briga pelo troco errado, pela encomenda que os correios não entregam, pela infiltração no apartamento do vizinho, pela razão de uma discussão; o sujeito apaixonado é irritantemente pacífico. O apaixonado é o primeiro a desejar a paz mundial, o amor mundial, a felicidade mundial, o tesão mundial e tudo mais que ele acredita ter, agora, em sua posse.

  O apaixonado, antes de sê-lo era qualquer um: eu, você, o professor de matemática, a moça da loja de perfumes, até que...de repente, um onda lilás, refrescante invade e faz do descrente um fanático; do débil um intelectual e do esperto um imbecil, porque a paixão desloca, desarruma é desordeira, rebelde com causa e a causa é só mesmo bagunçar os corações, mentes e vidas.
  Porque a paixão nos obriga a um desapego imensurável: de alma, de orgulho e até da própria solidão. Ela inventa uma leveza constrangedora para os duros, os homens e mulheres de sobrancelhas soerguidas; ela envolve e aprisiona sutilmente, com a gaze mais delicada, a dignidade e o amor-próprio do indivíduo e substitui este último pelo amor ao próximo. A crueldade da paixão vai  além, nos tira a preciosidade de nos termos inteiro e nos obriga a partilha desigual de nos doarmos totalmente, ou quase, de nos desabitarmos; como em uma fuga desesperada, levamos tudo o que temos em uma mala e vamos morar no outro.
  A paixão é a ilusão de uma salvação que nunca vem é, mais, uma possibilidade de perder-se em um absurdo labirinto. Quem escolheria não achar um fim, uma porta ou mesmo a si?

  E depois que vai embora, o que a paixão deixa como legado? Um coração perdido, entregue, completamente ferido, a humilde admissão, mais tarde, de tê-lo em frangalhos. Quem nunca se deu mais do que devia, que atire a primeira rosa. Quem escolheria sofrer como um pobre diabo se tivesse outra opção? A paixão não é escolha, quem escolhe é ela: o lugar, o tempo, os sujeitos. Cabem aos escolhidos, aproveitarem cada benefício do sentimento, como um condenado à morte; cada momento, o último desejo.

  Para corações partidos há cura: tempo, amigos, novas paixões, vingança, esquecimento, perdão; para os vazios: nada. Se pudesse não partiria o coração, o meu, o do outro, o de quem quer que fosse; se pudesse não me apaixonaria, se pudesse...
  Mas, já disse, a escolha certa não é minha, a mim só cabe mesmo é a incerteza. Que tenhamos sorte na próxima empreitada, coração!



4 comentários:

Ana disse...

lindo texto, é mesmo, quando uma paixão assolapada nos encontra é como um furacão, ficamos sempre com uma dualidade de sentimentos, de tudo, deixamos de ver o mundo da mesma maneira, dá-nos o melhor e o pior. Mas a vida sem paixão não seria a mesma coisa, prefiro um coração partido a um vazio, a gente vai colando, custa mas cola:)

Amanda M. disse...

Como diria Almodóvar: "Afinal, o essencial é isso: sobreviver e manter a paixão". Não há vida possível sem ela... ;)

Débora Rapacci disse...

Uau, era tudo o que eu precisava ler. ❤

Amanda M. disse...

:)