quinta-feira, 21 de maio de 2015

Os homens não sabem de nada

  Duas da manhã e a dor que não é minha, não me deixa dormir. Talvez seja sim um pouco da minha dor partilhada, que por não sentir completa quando me buscava, agora volta para lembrar que sempre haverá algo a nos tirar um pouco da paz. Todas as dores do mundo inteiro na quase voz dela; no quase desabafo dela. Tenho experiência, tenho argumentos, aprendi, ao menos, a fé na impermanência; vai passar e mais, vai sair melhor quando a onda quebrar na arrebentação.

  É na invasão da onda, sob a correnteza e na profusão de água salgada que a gente acha que acabou, que não terá mais força, que o fôlego não dará mais conta de nos socorrer. Acabou. A fortaleza de uma natureza que eu não sou capaz de deter, me levando para cada vez mais longe da margem, cada vez mais para longe da superfície. Levando embora meu grito impossível, meu pedido de socorro que nem chegou a sair. Terminou. Não há luta, força, aulas de natação que venham nos socorrer; a água, que eu escolhi enfrentar, veio impassível; não terei mais tempo, vou sumir do mundo, desavisada, debaixo de uma onda que eu subestimei.

  E na desistência, na aceitação da condição da fatalidade, depois de engolir tanta água, desesperar-se, fazer uma última oração, um derradeiro "que não sofra muito, Senhor", a onda passa, nos desacomoda, por vezes derruba, nos tira do estado passivo de contemplação para um outro de vigilância imediata. Não há onda que não passe e mesmo depois de tantas passadas, tantos tombos,  a gente ainda achava que não passaria, que as águas carregariam nosso valor mais precioso. Mas passaram, como todas as ondas anteriores aquela, como todas que virão depois. Porque as águas não terminam.

  A volta para a margem é feita com o esforço de um guerreiro depois da batalha crucial. Voltamos quase sem fôlego, com uma fé recém-nascida, adrenalina no comando das pernas inseguras, frágeis, desobedientes; nas mãos, as marcas das próprias unhas, os punhos cerrados e mandíbula tensa. E então, os homens caminham pela areia e nos olham nos olhos e não veem a vida que acabara de ser reconquistada; eles não reconhecem a força que nos colocou até ali novamente, eles não enxergam a vitória, num corpo desajeitado buscando na superfície alguma segurança. Os homens não sabem de nada. 

  E nas marcas deste corpo tão honesto, tão entregue em frangalhos, percebemos que a luta travada nunca foi com a onda, a batalha maior só teve a água como pano de fundo. A luta sempre foi a mesma: nós contra os nossos medos.

  Não falo de experiência, não grito que a onda é passageira e que ela sairá melhor do que entrara, não falo do que só sei por mim e pelos goles salgados que engoli; não falo porque só ela entenderá a sua onda, só ela poderá salvar-se da possibilidade de afogamento.

  Levanto da cama que não me acolhe esta noite, preparo um café forte pela manhã e o tomo com a força de quem se salva na arrebentação todas as manhãs. Que nos protejam das ondas todas, das quais sairemos vitoriosos e que as ondas não cessem de fazer o seu trabalho de desacomodação. São elas que nos possibilitam conhecer a nossa força e a felicidade da impermanência.  

  Porque a vida é o café que tomamos todos os dias, a gente nem pensa nele até ele não estar suficientemente forte, doce, fraco ou amargo, então é no gosto que não nos é familiar que passamos a pensar se é bom ou mau o café de todos os dias...ou se só nos acostumamos a um mesmo sabor. Que ela entenda o quanto a onda ou os cafés de gosto ruim nos movem para algum lugar, mesmo que seja para dentro de nós mesmos.


4 comentários:

Paulo Abreu disse...

Escreve com uma elegância que encanta.

Amanda M. disse...

:)

Cristina disse...

Curti mais uma vez! Que lindo, Amanda! Você é a Clarice Lispector que conheci pessoalmente. Beijo!

Amanda M. disse...

Que lindo, Cristina! Obrigada sempre!!! Não suma! Em breve novidades... ;)