sexta-feira, 29 de maio de 2015

O bastante é muito pouco

  Não há necessidade de gentileza, basta que seja eficiente e cumpra com o prometido:entregue o produto, preencha o formulário, facilite o troco, atenda no horário, seja fiel às promessas, saia bem nas fotos, sem mais. A disponibilidade, a  entrega sem cobrança, a oferta das mãos, a atenção do par de ouvidos, a alma a mostra ou a delicadeza nunca estão no contrato. Tampouco é necessário falar a verdade; basta ser educado, dizer o que se supõe ser desejado ouvir, ser prático, lacônico; dar sempre o que acha que consegue, sem gastar tudo ou saber se é o que o outro precisa. Não se implicar ou se responsabilizar pelo que não é conhecido. O outro sabe bem dele, nós só sabemos de nós; é o bastante dizem.

  Não precisa trabalhar no que se gosta nem, ao menos, se perguntar se gosta, melhor não pensar; se o salário nos mantém, isso é o bastante. Não precisa dizer no que se acredita, compartilhar ou declarar porque a defesa, o discurso, a paixão afastam o outro;  o outro nunca nos entende. Não precisa pensar se comem, onde dormem, se amam, como vivem, se não nos afeta, não nos é próximo, não é da nossa conta.

  Não precisa ver o céu, se tem TV a cabo; olhar para tempo, se no celular a temperatura pode ser consultada; não precisa esperar a resposta do "como vai?", porque vão sempre bem, se não fossem saberíamos logo. Não há necessidade de árvores, se há sombras de concreto e ar condicionado - nas férias vamos ao campo - certo? Não é necessário ouvir as ruas, os outros que falam, cantarolam ou fazem piadas, se temos os fones, então a nossa música é o bastante. Não é preciso polemizar: não votei, não fiz campanha, não tinha ninguém melhor, a política não sou eu; o menor não é meu filho, a espancada não é minha amiga, não ganhei nada com isso.

  Não é preciso mar, nem mares de morro, nem terra vermelha ou paisagem sertaneja, já se tem arquitetura refinada, objetos de arte legitimados pela revista, vidros blindados e cadeados seguros. Não é necessário sentir o sabor, basta ler os rótulos ou perguntar ao especialista e confiar nas notas de madeira do vinho e de chocolate do café. Não é preciso ler nenhum livro de trezentas páginas, basta passar os olhos numa resenha e, astuto, comentar rapidamente no círculo de novas amizades. 

  No banho quente de inverno, aquele antes de dormir, não precisa sentir cada gota de água descer pela pele, acolhedora, mágica, promessa pequena de descanso e renovação; é só higiene diária. Não há necessidade alguma de sorriso no café da manhã; levantar-se, vestir-se e não se atrasar ou ficar preso no trânsito, são suficientes. O elevador, o shopping, os aeroportos e estações de ônibus e metrô são não-lugares, espaços de passagem, então, não precisa ser delicado, generoso, tampouco empático. Passar desapercebido para chegar ao lugar de fato é o bastante.

  Não é preciso ser honesto, leal, amoroso ou sincero se ninguém vê, se não sabem, se não há testemunhas, nem publicação em redes sociais; só vale se é visto. Para a dor dos outros, distância, pena e frase bonita; cada qual com sua alma, há pesos que não podem ser partilhados, dizem. Talvez só um chá amenizasse os males alheios, mas a água quente, por vezes, custa-nos muito tempo dispensado para a sua fervura. O grande amor pode até até ser pequeno, mas a declaração, os regalos nas datas, as demonstrações públicas precisam impressionar. 

  Não precisa gostar, se tolera. Não precisa perdoar, se for embora. Não precisa arrepender-se, se há sempre a oportunidade do porvir. Não é necessário reconciliar-se com o próprio passado, se escolhemos inventar nossas memórias. Não precisa tirar os sapatos, se não vai entrar na água; só depois de estarmos certos é que nos despimos completamente.
  Dos manuais de sobrevivência, três conselhos básicos: estar contido, ser adaptável e se juntar sempre aos mais fortes. Do que só saberemos depois de viver, três loucuras que se pode escapar, se a sobrevivência é o bastante: molhar os pés sem certeza nenhuma, oferecer para além do que se sabe ter e transbordar junto dos mais sensíveis, sem jamais se contentar apenas com o necessário. 





2 comentários:

Paulo Abreu disse...

A Resiliência em si

Amanda M. disse...

Creio que seja algo assim... :)