sábado, 11 de julho de 2015

Depois de cada onda

  Há sempre um misto de sabedoria e repetição vaga no que dizem os que nos tentam consolar. Há sempre a possibilidade de julgarmos inútil ou reconhecemos, ao menos, a generosidade de quem nos dedica algum ensinamento, seja ele de alguma serventia pronta ou não. Não importa tanto o conteúdo do que dizem aqueles que nos aconselham, mas o gesto em si, a maneira como tentam indicar um caminho, que algumas vezes é nítido e outras impossível de compreensão. Porque param a própria trajetória para ler no papel que trazemos nas mãos, com caligrafia dificultada, o impreciso endereço.

  Já assisti gente que por maior que fosse o esforço, ainda  não compreendesse absolutamente o destino que o viajante trazia consigo, mas nem por isso se recusava a algum tipo de ajuda. Chamava outro alguém que pudesse ler o papel, recomendava algum possível caminho ou dizia o que qualquer um pode dizer, mas nem todos dizem: - Vai lá, alguma hora você chega, encontra, ultrapassa. Não desista.

  O jovem homem no corredor do prédio se abaixa e com uma voz mansa e doce, aponta caminhos, enquanto segura as mãos de uma senhora, que se eu não a conhecesse entenderia como um gesto de afeto familiar ou de intimidade antiga, mas sei dela, ela é aluna e ele professor. A mulher madura chora pela frustração de um desempenho medíocre na disciplina e o professor, bastante moço, é quem se responsabiliza pela tentativa de levá-la até um lugar de maior conforto dentro mesmo de seu desapontamento. Ele não desconsidera a dor dela, ele não atravessa impassível a fragilidade agora tão visível dela. Assim, cruzando o corredor, observando a dupla, afinada nessa relação de mestre e discípula penso no quanto a maturidade é provisória. Agora é o jovem quem a consola, a humanidade dele não interferiu no seu papel de exigir da terna senhora o que é necessário na academia. Ele não é o algoz que chicoteia e se exime de um olhar compadecido pela vulnerabilidade de alguém que não atingiu o mínimo prescrito. A maturidade vista assim me parece também dependente do lugar de onde falamos, dos diversos papéis que assumimos durante um mesmo dia. O moço acalentando a dor de um senhora pequenina, quase, no colo dele. Do que ele dizia parecia eu já ter ouvido tantas outras vezes, mas a cena toda é que me enternecia. 

  O professor falava de quedas e da superação depois delas. Se estivéssemos em frente ao mar eu o confundiria certamente com um instrutor bronzeado, ensinando a arte de deslizar sobre ondas. E ele diria: - O segredo é entender cada onda. A hora de estarmos em cima dela, de dançar sobre e com ela e depois, cair, saca? Entender a onda. Não ter medo de cair, não pensar na queda, quando estiver no alto dela. Sentir. Acompanhar o ciclo.
 
  No corredor, confortada, a mulher dá as mãos ao professor e ambos olham para uma parede de armários na frente deles, eu juraria ser o mar. E, mais, eu quase vi nos braços deles duas pranchas prontas para serem lançadas no mar, só esperando a melhor onda. Não acho que um surfista, mesmo o experiente, acerte sempre a aposta que faz em cada onda. Às vezes ele acha que a onda vai descer e ela arrebenta, às vezes acha que vai arrebentar e ela ganha fôlego novo. A maturidade é provisória como onda, anda por cima, por baixo, se desmancha e se recompõe em outra, mais tarde.

  Tem vezes que o óbvio precisa ser dito por uma voz de fora, por vezes estamos arraigados demais nas nossas sabedorias antigas para reconhecermos que ela tem seu valor, de fato; não é só mais uma cantiga costumeira. O surfista tem toda a razão: sentir a onda pode não deixar ninguém mais tempo em cima da prancha, mas é certo que faz da travessia um lugar melhor de se estar.





2 comentários:

Paulo Abreu disse...

Outro dia encontrei com uma ex-aluna. Não lembrava seu nome, coisa normal. Ja aposentei ha cinco anos. Estava no supermercado, ela aflita para contar seus sonhos e eu com pressa. Ficamos ali uma hora. Explicou o projeto de uma empresa que estava a constituir com o marido. Apontei os erros, as falhas do projeto, indiquei caminhos mais seguros, desaprovei umas coisas, anulei outras. Aquilo virou uma aula.
Ao final falei que enviaria o endereço de contato de uma amiga que seria de grande importância na sua ideia de implantar aquele sonho. Trata-se de uma professora que tem uma empresa de consultoria especifica.
- Mas, professor, por que o senhor mesmo não faz isto para mim - perguntou.

Seus texto, Amanda, me faz divagar neste ponto. "ainda não compreendesse absolutamente o destino que o viajante trazia consigo, mas nem por isso se recusava a algum tipo de ajuda."

Estavamos ali olhando para a imensidão do mar, como voce bem definiu, e eu estava apenas orientando como navegar ate atingir a outra ponta, onde atingiria o Porto do seu objeto de desejo. Por isto não poderia sair desta situação de porto seguro, o que ela precisava era desatracar e bastava-lhe um timoneiro. Esta deve ser a manifestação da transferência de saber indicada pelo Paulo Freire - "Ninguém caminha sem aprender a caminhar, sem aprender a fazer o caminho caminhando, refazendo e retocando o sonho pelo qual se pôs a caminhar."

Amanda M. disse...

Que lindo, Paulo. Acho que um educador, ainda que afastado das salas de aula, continua a seguir o chamado do mar e não se furta a indicar as melhores ondas.