terça-feira, 4 de agosto de 2015

Num segundo olhar, o que faltava, sobeja

  De repente, de um lugar limite em que se está, perdido de perspectivas outras, instalado numa ausência de promessas, vemos uma janela se abrir e, depois dela, outra, e logo, uma infinidade de caminhos possíveis  se instalam a nossa frente, caminhos antes não imaginados, se tornam disponíveis ao avanço desejado. Como numa magia, uma esperança de que não é preciso nos mantermos estáticos, presos a esse mundo onde não nos reconhecemos. E esta talvez seja uma espécie de descoberta, de vislumbre de liberdade. E, a partir dela, vamos além. Superamos a falta e corremos em direção ao infinito que sobeja.

  Contou-me de um tempo em que vivia numa casa afastada do povoado, onde a noite era de uma escuridão profunda, onde os dias demoravam muito a passar e que se sentia, especialmente depois das 6 da tarde, solitária, desconsolada, incompreendida das pontas da trança apertada, ao dedo do pé no chão de terra. E sentido-se desassistida, pensava em pular no rio que passava no quintal de casa, afogar sua solitude de menina nas águas indulgentes  que margeavam a casa. Só queria pular no rio, acabar com aquela angústia toda, encher de umidade aquela aridez de sentimento, prender com uma pedra a escuridão muito firme das noites e deixá-la no fundo para sempre. Não sofria de falta de afeto, mas tinha como marca comum, de outras crianças do seu tempo e região, a penúria de uma comunicação muito equivocada, da falta da linguagem; de toda ela, escrita, falada, sentida, de olhos que a fizessem querer ficar. E isto é, tantas vezes, a grande fatalidade do mundo, abandonamos ou nos deixamos abandonar não pela ausência de algo, mas por não termos sabido dele a tempo.

  E quando o desconsolo latejava o coração, quando estava prestes a não suportar mais, saía pela porta dos fundos, atravessava a horta, descia o monte de terra, soltava o corpo, quase sem direção, e ia ter-se com o rio familiar que passava pelo terreno da casa. E bastava chegar na sua beirada, que o medo, a incompreensão, a escuridão das noites se dissipava, olhava para rio e desistia de entrar, olhava para o rio e sentia-se finalmente consolada. As águas avermelhadas abrandavam o desassossego, acarinhavam os cabelos, que desconheciam mãos, embalavam as esperanças de um outro lugar, onde a vida fosse menos seca e as horas menos apercebidas. 

  Muitas vezes, onde achávamos que nos perderíamos é o lugar do nosso encontro, bastava sempre um segundo olhar, uma vontade invertida e ela tornava a ter vontade de vida. Não esteve só; nunca o rio a deixou perdida em uma dor, encontrava  afago na água barrenta e seguia. O mesmo rio que a incitava ao término, era o motivo maior da continuação. Na segunda olhada as forças já estavam restauradas e ela voltava a ser feliz como antes. Que riqueza é ter um curso d'água detrás de casa e nele renascer sozinha.

 Olho para ela e vejo essa força de rio, essa busca e encontro de passagem nos lugares mais ermos, nos terrenos menos favoráveis, seu jeito é silencioso e, outras tantas vezes, implacável, aprendeu com o rio que passava no seu quintal a não desistir. E nela, que tanto ainda desconheço, enxergo uma bendita herança, a marca deixada pelo rio barrento e consolador. Nada escapa à vida, ela mesma é quem nos recompensa daquilo que não pode nos oferecer. Bastava  ver o rio e o afeto que não tinha não faltava mais. 



2 comentários:

Paulo Abreu disse...

Menina!!!!! Vou fazer aqui uma pequena alteração ao pensamento do Mario Quintana, que disse: "Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente ... e não a gente a ele!"

Então, no meu plágio barato e inédito - Um bom "texto" é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente ... e não a gente a ele!

Amanda M. disse...

Ah Paulo...este é o melhor/maior/mais bonito retorno que uma pessoa pode ter! Que bom que se identificou...é todo seu!rs
Obrigada!