quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Nau de ausências

   Quando pequena, ainda, às vezes sentia que tinha uma falta muito interior a ser preenchida. Não era ausência de sentimento, objeto ou pessoa específica, era um oco que não sabia do que era feito. Era como se entendesse a existência de um buraco, mas desconhecesse a matéria ausente. Crescia e a medida que os espaços se ampliavam o eco também parecia ser mais urgente. Um grito para dentro e toda a estrutura estremecia. A falta, o oco,  o eco, a descontinuidade de um algo que a acompanhava. Não buscava solução, não compartilhava a sensação com ninguém, levava com ela o inexplicável. Por vezes, o que a gente tem mesmo é o sentir. Então, a gente dorme com ele, acorda com ele, toma banho, se alimenta, conversa, compara, escreve, se entristece e  se alegra, sem se apartar dele, como um patuá, um signo, uma marca ou cicatriz que só dói, um pouco mais, em véspera de chuva. No mais, fica lá acanhado, junto da dona, sem latido, sem incômodos maiores.

  Tinha quase doze anos quando soube da existência dele, a vizinha de uma amiga tinha comentado e a amiga quis saber: - É seu avô, o velho da casa do pinheiro?
A cidade nem era tão pequena que se pudesse conhecer todos os habitantes, mas no bairro, se não conhecesse de nome, lembrava por alguma referência. O pinheiro, perto da praça, era o lugar preferido no bairro. Sossego, verde, sombra e visão centralizada. A casa em frente ao pinheiro era amarela e velha e tinha sim um velho que ela via sempre na janela. Mas, avô? Não. Avô não podia. Parente a gente reconhece de sempre, já nasce e ele está lá, é de vida, de um começo que a gente entende só mais tarde.

  Voltou para casa e achou muito engraçado ter um avô que não sabia: - E se fosse? Se o velho da casa do pinheiro fosse o marido que a avó nunca falava? E se o pai da mãe e dos tios dela fosse o homem da casa amarela? Precisou de certa reflexão até a pergunta. Pensou se valia mesmo investir seu tempo numa investigação infrutífera, descabida. E se falasse do avô que diziam morto e a mãe se lembrasse da orfandade e se ferisse com a memória? Mas, pensava depois, que talvez o avô perdido era vivo, morasse na rua de baixo e ela por um cuidado com o sentimentos da mãe perdesse a chance de vê-lo de mais perto. Na queda de braço entre a sensatez e a curiosidade, a segunda ganhou com larga vantagem, mas ainda sim, a primeira precisava dar certo equilíbrio à empreitada.

  Depois de duas noites e um dia e meio, abordou a mãe com uma lição de casa simulada: a árvore genealógica. A atividade já repetida algumas vezes, desta vez seria dirigida, se fixaria na personagem da sua curiosidade. Falavam muito pouco do marido da avó materna e quase sempre que o nome era citado, outro assunto atropelava a menção. Largos espaços da infância da mãe e dos cinco tios eram guardados, pulavam décadas de assunto e minha avó era a única figura heroica que eles gostavam de render honrarias. Começou a árvore pelos bisavós, quando a mãe falou o nome do avô a menina lançou a primeira pergunta: - E seu pai morreu em que ano, mãe?

  Ela engasgou, repetiu a pergunta em voz baixa e pediu para olhar o caderno:
 - Morreu quando?  - Hum...pede data aí, é?
 - Não, mãe. Não pede. É curiosidade minha. Meu avô morreu quando mesmo? 
A mãe não mentia. Tinha muita dificuldade em inventar qualquer desculpa. Atendia vizinha chata, arrebanhava inimizades. Tudo por não saber inventar história melhor que a verdade.

  Tentou desconversar, pediu que terminassem logo, ensaiou começar outros assuntos que forçassem uma mudança de rumo da situação. Até que pressionada, pela vilania curiosa da própria filha, caiu num choro que quase fez a menina desistir do intento. Ela abraçou a mãe, levou água, uma colher de açúcar, chamou a vizinha do lado, consolou-a o quanto sabia,  mas não desistiu. Voltou, de novo, com o assunto que suspeitava mais a cada minuto ter algum sentido e descobriu, um pouco surpresa e outro tanto muito certa, que o homem do pinheiro do bairro era o avô que pensava, até três dias antes, ser finado. A mãe pediu que menina não falasse com a avó, nem com os tios que ela sabia do avô. Pediu que não o procurasse nunca. E chorou como se fosse órfã de verdade e o pai morresse ali, neste instante.

  Tinha um parente que  sempre via e não sabia da existência, porque matavam ele do álbum, das lembranças, das histórias da família. O velho da casa amarela, em frente ao pinheiro, era sangue seu, memória da mãe dela, um marido que avó nunca falava e que os tios se redobravam nos cuidados de omiti-lo da infância. E  se o oco da menina fosse o velho debruçado na janela? E se a sensação de descontinuidade fosse a falta dele? Não respeitou o pedido da mãe, duas horas depois da lição inventada e  inacabada, com razão, buscou a parte escondida da sua história. Bateu na porta da casa amarela e o velho a atendeu, pediu que ela entrasse, se sentaram e assistiram a novela juntos. Não falaram nada. Só viram novela e ela foi embora.

  Passou a visitá-lo todas as terças e quintas, depois do balé. Ele esperava-a na varanda e eram avô e neta recentes, sem necessidade de apresentação. Ele nunca perguntou sobre a filha, a mãe dela nunca perguntava pelo pai e a avó fingia não saber dos contatos da neta com o passado que ela escolheu extinguir. Nos primeiros meses, em volta, havia incômodo e descontentamento com os encontros. A insistência da neta parecia traição. Quando ela leu, na escola, o enredo de rivalidade dos Montequio e dos Capuleto ela se sentiu Julieta. 

   Mas, acontece que numa história de rancores que parecem há muito cimentados, vez ou outra, uma estrutura se abala, uma raiz nova luta para nascer e o que parecia instalado, de repente, muda o curso. Nos encontros desaprovados por mágoas muito antigas, a menina juntava histórias, colava partes importantes desencontradas e, aos poucos, devolvia ao álbum da família a parte recortada do retrato. Todos os dias, sem preparo algum, sem nunca saber, ela perdoava os rancores de duas gerações antes dela, ajudava um velho a se reaproximar de seu sangue e debaixo do pinheiro em frente a praça do bairro, uma colcha era finalmente remendada.

  O Homem da casa amarela só teve vida por mais oito anos, depois da descoberta, conheceu outros netos, abraçou os seis  filhos, cada um a seu tempo, sem pressa, tomou o café da mãe da menina e sentou no mesmo sofá que avó, pelo menos, mais uma dezena de vezes.

  A ausência sentida antes, ela nunca me disse se foi, de fato, superada. Não soube se o oco se completara com o avô ou se o eco ainda a acordava no meio da noite. Mas, do que soube mesmo, foi que a herança que ela rejeitou receber da mãe, a traição capitaneada por ela foi a redenção de uma infinidade de outras ausências.

  Não há existência que esteja livre da desconfiança de uma falta. A todos nós, sempre, haverá um espaço a espera de matéria que o complete. A ousadia  de Julieta foi romper com uma nau de ausências que buscavam um porto. Ela pulou e buscou socorro num bote inseguro e incerto, ultrapassou ondas gigantescas e reescreveu histórias pavimentadas sobre mágoas para, assim,  tecer novos rumos em material mais flexível. Uma colcha velha, remendada sob um pinheiro, por um par de mãos muito velhas, mas suavizadas pelas perdas e outro par jovem, estimulado pela busca de completude durará mais que qualquer dureza cimentada.  



4 comentários:

Paulo Abreu disse...

Ando lendo você, mas também ando correndo, deve ser por isto que minhas ausências estão ficando mal acostumadas a serem estocadas em cantos. Assim que parar de correr volto aqui para ler sem pressa.

Amanda M. disse...

Volte. ;)

Paulo Abreu disse...

Bem, voltei. Sexta-feira, quase 23 horas. Dia cansativo, e claro terminando com uma reunião ... ah! estas reuniões - a impressão é que nunca terminam. Tenho algumas regras com as quais sigo em frente:

1 - reunião é um negócio tão sério, que não pode ser coisa de última hora, tem que ser agendada. Coisa de última hora é ajuntamento.

2 - Reunião tem que ter pauta, hora para começar e hora para terminar.

3 - Reunião é somente um instrumento de decisão. Instrumento de discussão é forum, encontro, debate, bate-boca, etc.

Pronto, desabafei. Como vc não está a par, foi a vitima escolhida. Mas e a pergunta - se segue estas regras, como esta reunião escapou de tudo isto? Pois é, se vivermos sem exceções, não vivemos, apenas navegamos em mar aberto.

Li seu texto, a família navegava em mar aberto, sem exceções. Inevitável para mim buscar em Drummond (sempre ele) uma coisa que permitirá minha opinião com aquela imponência - caramba, o cidadão falou em cima de uma visão do Drummond. Não sou isto tudo, mas pelo menos sou bom fingidor.

Antes de falar nisto, puxa vida, bateu um Fernando Pessoa - gente, é o setembro, eu acho que estou afetado pela vida setembrina:

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

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Agora, seguindo minhas tortas linhas de pensamento, há muitos anos, você devia ser uma menina ainda, alguém, não sei quem, colou no armário da minha sala um poema do Drummond, e isto mexeu comigo. Tive uma mudança na minha percepção do outro, este outro que mora dentro da gente, invisível, mas que ocupa espaço:

AUSÊNCIA

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

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prolixoprolixoprolixoprolixo.... calma, Amanda, está acabando.

Foi naquela época que criei a tese, minha, sem nenhuma honra acadêmica, sem o merecimento dos pares, etc, sem medalhinha (rs) de que há uma pulsão entre a partida e a chegada. A esta pulsão chemei de "Hiato passional".

Vamos imaginar Amanda, lindinha, toda arrumadinha saindo de casa de manhã e retornando na parte da tarde. Para quem ficou em casa, Amanda saiu e Amanda voltou. Mas nestas 12 horas que ficou fora, Amanda viveu aventuras inenarráveis, que só ela viveu. É este hiato temporal que chamo de Hiato Passional.

Ele sintetiza a história da mocinha que buscou ligar os pontos, e ela só liga dois pontos, a saída e a volta. O que ocorreu neste intervalo, anos de histórias, é o Hiato Passional, um sentimento único de ausência e ausência não é falta, segundo postei acima.

Então é isto que eu passei a reunião toda pensando em te escrever. Carpe diem!

Amanda M. disse...

Entendo... que bom que voltou. E voltou, sobretudo, com muita presença! Duas referências poéticas que eu adoro e ambas couberam muitíssimo bem por aqui, a de Drummond, neste caso, ainda mais tocante. Sobre sua tese sem o reconhecimento da academia - e que talvez por isso tenha ainda mais méritos (rs) - "o Hiato Passional", que feliz análise. Um ínterim particular de cada um de nós. Achei-o perfeito! E sim, só Drummond para traduzir lindamente que "não há falta na ausência". Obrigada pelas contribuições sempre muito preciosas, Paulo. Obrigada pelas partilhas! Abraços