segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Eles que não desmoronam

  Que não voltam atrás nunca,  já saem de casa com uma decisão tomada, que não se desviará nem com os apelos, as considerações ou perspectivas que não sejam as das suas janelas. Eles que não duvidam nunca, que pisam com os dois pés em qualquer solo, sem olhar para baixo, sem se preocuparem com os deslizes, os declives e obstáculos, sem conferirem o mapa.  

  Que só respondem em juízo, cujas assinaturas são firmadas em cartório e asseguram seus relacionamentos por contrato. Eles que precisam de testemunhas, de veracidade dos fatos, que não acreditam em fábulas, boas estórias, que não reconhecem no fantástico uma parcela de si, eles que evitam a todo custo o absurdo - como se viver já não o fosse. Que são os únicos merecedores, são também os injustiçados, os que sempre pagam o pato, porque, eles dizem, confiaram em quem não deviam e deram mais do que receberam; eles que anotam na agenda cada segundo de tempo que acharam dedicar ao próximo.

  Aqueles que se dizem pacifistas, mas provocam até o outro estourar a bomba que trazem consigo, para depois lamentarem: - São uns descontrolados esses outros.
  Eles que não se deixar convencer por bons argumentos, que nem sequer ouvem a voz que não é deles, que balançam a cabeça e parecem interessados, mas que, no fundo, já agarraram sua própria verdade. Eles que não atravessam a rua sem um motivo definido, que não demoram na frente dos cardápios, que na fila para um pedido ficam impacientes com a dúvida alheia. Eles que não choram por uma foto rasgada, não se culpam por terem chegado depois da hora e perdido os olhos brilhantes de alguém, no segundo que faltaram. Que não pedem perdão pelas escolhas erradas, que não se arrependem nunca do caminho escolhido, que nem se demoraram numa encruzilhada. E dizem sempre,  que não gostariam de estar em outro lugar senão este; que nem ao menos, imaginam outros lugares e vidas.

  Eles que não despertam do lado errado da cama, que não rejeitam as refeições depois de uma notícia ruim na TV, que não atropelam palavras, que não matam suas vontades, mas alimentam-nas cada vez mais, para quem sabe um dia satisfazê-las. Eles que não rompem definitivamente e, depois de segundos, voltam atrás, já curados do ressentimento. Eles que não gaguejam na apresentação, que não se enrubescem depois de um elogio ou esquecimento, eles que não suam ou choram de gratidão.

  Eles que não trocam os nomes, não esquecem as datas, que marcam de verde cada compromisso cumprido. Que  não perdem nos ônibus os fones de ouvido; nas mesas dos consultórios, não esquecem os óculos; que nas salas de cinema, os celulares não tocam. Eles que não parecem perdidos, que não pedem informações aos desconhecidos, nem molham a barra da calça nas poças d'água em dias de chuva. Eles que se cercam de certezas, que desprezam os indecisos, que só conhecem o caminho feito a cabo, sem paradas antes do final, curvas inesperadas ou a desistência assumida.

  Eles que não conhecem o sentido do renascimento, porque têm medo da morte; que estão sempre na direção para evitarem os atropelamentos pelas incertezas, que dirigem seus carros sem pararem no amarelo dos semáforos, que não sucumbem aos artistas do asfalto e passam por eles sem nunca olhá-los pelos vidros escuros.

   Eles que não desmoronam e que, por isso, são os mais tristes; que não conhecem a vida que desmancha por entre os dedos e, mais tarde, se refaz como escultura na areia, ganhando forma, para, sem saber quando, voltar a cair. Eles que não desmoronam, cimentaram os olhares dos outros e os próprios, pavimentaram os terrenos movediços do qual a vida se alimenta  e sofrem muito por não saberem que depois que uma onda nos desmancha na areia, é possível que no próximo dia de sol algum par de mãos nos levante como um castelo fabuloso. Eles que não desmoronam, não conhecem a felicidade de se dissolverem e depois voltarem sólidos, líquidos ou um ar sem direção. Eles que evitam o que não conhecem, não poderão experimentar outros estados.



2 comentários:

Paulo Abreu disse...

Eles ... os outros. Fiquei aqui divagando, ah! pensei, vou falar do "Mal estar na Civilização", clássico freudiano e pronto, está feita a percepção do que acho que li e vi. Digo isto por que chamou-me a atenção que o texto embarca na Felicidade e os obstáculos que os outros interpõem para que a alcancemos. Sou feliz? Não, eles não deixam, eles estão lá fora.

Há, quase como um poema épico, um mantra ao outro como a razão das amarras que prendem o/a protagonista. Mas como romper isto? Este foi meu desconforto - sim - textos promovem desconfortos quando intrigantes e inteligentes. Haveremos de lê-los com amor e com dor. Pensei - e se eles ( o outro ) não for além de mim? Do que eu fui (aprendi) e do que eu sou (um mosaico da minha vida pregressa)? E se eu tiver a coragem de ir em busca do outro (eles, aqueles) e pavimentar uma estrada de luz onde possa transitar idas e vindas sem medo de assombrações? Como fazer isto, se esta pulsão da morte nos é tão bem sedimentada? Ousando, como ousou Clarice Lispector, autora do breve e sensibilizante texto abaixo:

Em Busca do Outro

Não é à toa que entendo os que buscam caminho. Como busquei arduamente o meu! E como hoje busco com sofreguidão e aspereza o meu melhor modo de ser, o meu atalho, já que não ouso mais falar em caminho. Eu que tinha querido. O Caminho, com letra maiúscula, hoje me agarro ferozmente à procura de um modo de andar, de um passo certo. Mas o atalho com sombras refrescantes e reflexo de luz entre as árvores, o atalho onde eu seja finalmente eu, isso não encontrei. Mas sei de uma coisa: meu caminho não sou eu, é o outro, é os outros. Quando eu puder sentir plenamente o outro estarei salva e pensarei: eis o meu porto de chegada.

Amanda M. disse...

Seus comentários, Paulo, sempre me levam a caminhos para além daqueles que eu pensava tomar. Extrapolam o meu texto...felizmente. E por isso, também, sou muito grata. E Clarice...sempre tão precisa nas suas confusões. Não conhecia essa beleza...Obrigada!