segunda-feira, 21 de maio de 2012

Eram mais que doces

  O apito avisa, o trem à vapor já vai deixar a estação. O passeio é rápido, é apenas uma pequena amostra para o turista àvido por consumo, novidades e experiências, de hoje. Mas, e há séculos atrás, quem teria sentado nesses bancos, quem teria visto a mesma bela paisagem que hoje eu tenho a oportunidade de contemplar, o que fariam na outra cidade? Minha divagação é sutilmente interrompida, com uma voz doce, que agora entra pelo vagão, o cheiro era familiar, coco, amendoim, leite, a moça que traz consigo voz e cheiro doces, tem também um olhar igualmente açucarado, traje de trabalho vintage e uma cesta de palha, dessas que a gente raramente vê. A doçura de moça oferece os produtos caseiros que ela mesmo faz e vende, explica para o turista curioso.

  A linda paisagem perde minha atenção, minha contemplação muda de foco, minha curiosidade, aos poucos repousa na mocinha com a cesta. Ela se aproxima, outro passageiro parece querer tecer algum diálogo com a moça, que não recusa e por isso, sou também, agraciada com uma bela lição. O passageiro pergunta e a alegre trabalhadora responde, sem reticências, com o simpático sotaque inconfundível da terra hospitaleira. Fala sobre o trabalho,  a origem humilde, algumas considerações sobre a vida, em geral, tudo com olhos, expressão corporal e tom de voz, típicos das meninas de pouca idade. Ela tem intensidade, paixão, confiança, entretanto, sem soberba alguma, tem muita humildade na alma da moça do trem. Enquanto relembra passagens sobre a sua vida, para um público seleto (o senhor que a abordou, sua esposa e eu, do outro lado do trem, que mesmo sem convite, não tiro olhos, ouvidos e coração dos "causos" da alegre menina) a moça se emociona com as próprias histórias. Coisa mais bonita é ver alguém contar uma história que conhece há tanto tempo e ainda ser surpreendido com umas delicadas lágrimas escapando face a fora. Há tanta beleza nisto. Jamais seria capaz de explicar aqui.

  São todas histórias simples, sem nenhum rebuscamento, sem "moral da estória", sem efeitos especiais, todas passagens muito simplórias, mas dá tanta dignidade à moça. Conta, por exemplo, sobre uma ocasião em que a família muito pobre recebeu a oferta de um fazendeiro para que tivessem tratamento dentário de graça. Uma a um, dos muitos irmãos, foram até o consultório do dentista; cada um que voltava do tratamento tinha as piores opiniões a respeito do profissional. Que era um homem muito bruto, com uma prática muito rude, que machucava, que parecia ter certo contentamento em ver a dor do paciente. Impressionados alguns desistiram do tratamento no meio, outros nem chegaram à primeira consulta. Mas, ela, a moça do trem, como bem explica para seus ouvintes: - Não podia perder a oportunidade, dentista era coisa de rico.
  Na primeira vez que foi ao consultório, sentiu exatamente o que os irmãos haviam relatado. Era dor, desconforto, uma falta de jeito sem fim.  -  A força toda daquele homem era rancor. Disse ela, sem tirar o sorriso de nenhuma lembrança. Resolvida a não perder o tratamento, ela aguentou toda a dor, calada e permenceu forte até o fim daquela tarde torturante. Deveria voltar outras vezes, para o término do tratamento. E, mesmo sob protestos da própria família, voltou. Na próxima consulta, ela cumprimenta, com firmeza, o dentista e o agradece alegremente pelo atendimento anterior. - Olha doutor, muito obrigada pelo cuidado comigo. Sabe que eu tinha muito medo de ir ao dentista, sentir dor, mas o senhor tem mesmo mãos abençoadas, tão leves, tão cuidadosas, que não senti nada na vez passada. Emocionado o dentista agradece, aponta a temida cadeira e ela é agraciada com o resultado da própria sabedoria, o restante do tratamento é feito com muita delicadeza, sem dores maiores. É claro que a moça humilde, quando contou a história, não conferiu a sua atitude o nome de sabedoria, mas é o que é. A mocinha sabia bem que rancor só cura com doçura e nunca com mais rancor.

  A moça dos olhos marejados e do sorriso fácil ainda contou sobre quando conheceu seu "príncipe encantado", lá na estação ferroviária da qual havíamos partido há pouco, do seu desejo de se casar de "princesa", mesmo aos 40 anos (em uma época que mulheres de 40 anos eram solteironas, distituídas do direito de se casarem com alguma ostentação). - Casei vestida de princesa, com bolo de três andares. 
E, antes do final da conversa com o passageiro, ela ainda diz: - Sabe, é que sempre fui pobre, mas nunca me faltou nada, porque tenho muitos sonhos. Sempre fui sonhadora.

  A moça, que hoje deve ter mais de 60 anos, mas que me pareceu adolescente, do lugar onde eu a via; compartilhou sua história comigo, mesmo sem saber, iluminou meu dia, fortaleceu minha fé no homem e nos sonhos e eu, nada tinha para lhe oferecer. Desejei silenciosamente que "Deus a conservasse assim", como é bem de costume local e comprei algum dos produtos que ela oferecia. Eram doces. 
  O segredo da juventude dela, da sua alegria e da sua vitória sobre o rancor do dentista, era o açúcar. É este o remédio: doçura. Não sei se de leite, amendoim ou coco, porque o gosto do doce, que eu provei no trem, era mais como um súbita alegria...


2 comentários:

Anônimo disse...

Eita,mas como vc ta inspirada!!!lindo,lindo...

Amanda M. disse...

Rsrs