É da cozinha que eu ouço sempre seus assobios, geralmente músicas muito antigas, sucessos de Roberto Carlos, Fagner e o Hino Nacional, este último ele nunca esquece. Ele deve ter a idade do meu pai, talvez um pouco mais jovem, é casado e tem uma filha adolescente, acho que tem outros dois mais velhos, de um casamento anterior, mas nunca os vi. É um homem assim, assim, de meia idade, aparentemente pacato, boa pessoa, um típico "chefe de família". Apesar de não ter muita afinidade com os seus gostos musicais, gosto muitíssimo de ouví-lo assobiar, parece-me contente, feliz; ele nem sabe, mas nesses momentos ele compartilha comigo da sua prosaica alegria, além do mais, ele tem ritmo, já nos primeiros segundos da sua performance eu identifico o sucesso que ele homenageará.
O caso é que nesta tarde, enquanto buscava água na cozinha, eu o escutei mais uma vez. Porém, agora o número musical não era nenhum do seu repertório tradicional. - Mas eu conheço essa música e gosto dela...não, não é possível. Meu vizinho, acima de qualquer suspeita, assobiava "Like a virgin". O pacato senhor do quarto andar gosta de Madonna! Eu jamais poderia imaginar, mas depois da primeira estrofe muito bem executada, eu tive certeza: era Madonna. Era sim o meu vizinho assobiando magistralmente "Like a virgin"! Que espetáculo, que surpresa! E eu, da minha cozinha, com a garrafa de água nas mãos, me sentia especialmente homenageada, o contentamento morno, cotidiano que compartilhamos, ganhara mais ritmo, mais cor, mais energia, fui tomada por uma espécie de euforia momentânea. Enquanto ele assobiava eu balançava a cabeça e os pés freneticamente, até eu parar e pensar no quão incomum era a cena e, principalmente, na imprevisibilidade da escolha musical do meu vizinho.
E eu só por compartilhar corredores, garagem, acenos e alguns flagrantes musicais, limitei-o a certos comportamentos, gestos e atitudes que caberíam exatamente no que eu pensava dele. Advertida pela surpresa desta tarde, pensei no quanto limitamos o outro dentro de padrões que nós estabelecemos para ele. Nós restringimos ao que parece ser e, nem ao menos, nos damos conta das infinitas possibilidades que cabem em um indivíduo. Ninguém é aquilo que parece, pelo menos não só.
Tantos apartamentos, tantos moradores, tantos prédios nesta rua, tantas ruas neste bairro, bairros nesta cidade, cidades neste país. Meu vizinho não tem que "caber" e, principalmente, se restringir ao que penso dele. Que boa surpresa e quantas mais ainda estão por vir?
Estimulada pela música, por Madonna e pela bela exibição do meu vizinho eu imaginei a cena: ele assobiando em frente ao espelho do banheiro, hidratando seus ralos cabelos, usando uma máscara de limpeza facial, enquanto no forno assava um elaborado prato para o jantar com a sua mulher esta noite. Agora há pouco, estive pela cozinha e não pude ouvir nada, talvez ele tenha levado-a para jantar fora, quem sabe? E depois seguirão para uma boate pela cidade, dançarão Madonna até amanhecer...Da próxima vez, tentarei não ser tão limitada, meu Deus! E ele, o que será mesmo que pensa sobre mim? Pareço louca?! Prefiro não saber e é bem possível que eu jamais saiba. Afinal, um dia eu também o surpreendo, quem sabe...





