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terça-feira, 28 de agosto de 2012

E se ele gostar de Madonna?

  É da cozinha que eu ouço sempre seus assobios, geralmente músicas muito antigas, sucessos de Roberto Carlos, Fagner e o Hino Nacional, este último ele nunca esquece. Ele deve ter a idade do meu pai, talvez um pouco mais jovem, é casado e tem uma filha adolescente, acho que tem outros dois mais velhos, de um casamento anterior, mas nunca os vi. É um homem assim, assim, de meia idade, aparentemente pacato, boa pessoa, um típico "chefe de família". Apesar de não ter muita afinidade com os seus gostos musicais, gosto muitíssimo de ouví-lo assobiar, parece-me contente, feliz; ele nem sabe, mas nesses momentos ele compartilha comigo da sua prosaica alegria, além do mais, ele tem ritmo, já nos primeiros segundos da sua performance eu identifico o sucesso que ele homenageará.

  O caso é que nesta tarde, enquanto buscava água na cozinha, eu o escutei mais uma vez. Porém, agora o número musical não era nenhum do seu repertório tradicional. - Mas eu conheço essa música e gosto dela...não, não é possível. Meu vizinho, acima de qualquer suspeita, assobiava "Like a virgin". O pacato senhor do quarto andar gosta de Madonna! Eu jamais poderia imaginar, mas depois da primeira estrofe muito bem executada, eu tive certeza: era Madonna. Era sim o meu vizinho assobiando magistralmente "Like a virgin"! Que espetáculo, que surpresa! E eu, da minha cozinha, com a garrafa de água nas mãos, me sentia especialmente homenageada, o contentamento morno, cotidiano que compartilhamos, ganhara mais ritmo, mais cor, mais energia, fui tomada por uma espécie de euforia momentânea. Enquanto ele assobiava eu balançava a cabeça e os pés freneticamente, até eu parar e pensar no quão incomum era a cena e, principalmente, na imprevisibilidade da escolha musical do meu vizinho. 

  E eu só por compartilhar corredores, garagem, acenos e alguns flagrantes musicais, limitei-o a certos comportamentos, gestos e atitudes que caberíam exatamente no que eu pensava dele. Advertida pela surpresa desta tarde, pensei no quanto limitamos o outro dentro de padrões que nós estabelecemos para ele. Nós restringimos ao que parece ser e, nem ao menos, nos damos conta das infinitas possibilidades que cabem em um indivíduo. Ninguém é aquilo que parece, pelo menos não só. 

  Tantos apartamentos, tantos moradores, tantos prédios nesta rua, tantas ruas neste bairro, bairros nesta cidade, cidades neste país. Meu vizinho não tem que "caber" e, principalmente, se restringir ao que penso dele. Que boa surpresa e quantas mais ainda estão por vir?

  Estimulada pela música, por Madonna e pela bela exibição do meu vizinho eu imaginei a cena: ele assobiando em frente ao espelho do banheiro, hidratando seus ralos cabelos, usando uma máscara de limpeza facial, enquanto no forno assava um elaborado prato para o jantar com a sua mulher esta noite. Agora há pouco, estive pela cozinha e não pude ouvir nada, talvez ele tenha  levado-a para jantar fora, quem sabe? E depois seguirão para uma boate pela cidade, dançarão Madonna até amanhecer...Da próxima vez, tentarei não ser tão limitada, meu Deus! E ele, o que será mesmo que pensa sobre mim? Pareço louca?! Prefiro não saber e é bem possível que eu jamais saiba. Afinal, um dia eu também o surpreendo, quem sabe...



segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Do something

  Confira as últimas mensagens no celular; internet no celular, é a grande descoberta - nos afasta da sensação do "não estou fazendo nada". Leve um livro na bolsa, um artigo, uma revista que pareça séria, balas, chicletes e extratos bancários, uma lista de temas "neutros" para conversas também podem ajudá-lo a afastar de certos "inconvenientes" que algumas reuniões sociais propiciam.

  A verdade é que a conversa fluiu, fluiu leve e normalmente, como sempre acontece quando ela está entre conhecidos, amigos ou gente com quem tem empatia. É quase um milagre, é assistir, de repente, a muda falar, falar muitíssimo...E entre uma opinião e outra, alguma revelação prosaica de cunho mais pessoal - que ela acreditava até ser notória, pública e "vísivel" -  e o amistoso ouvinte, passa a ser um inquisidor bárbaro, além de um palpiteiro infeliz. 

  E o antigo amigo, agora algoz, a faz pensar com maior profundidade em questões, cujas respostas ela ainda não tem (e nem sabe se um dia terá). Ninguém é igual, porque ela escolheria um destino igual? Constrangida, desafiada, ela utiliza-se do clichê, "imposição social". E, é bem o que é. Não é isto, que estão cobrando dela: fazer o que todos têm feito há séculos? Eles sorriem e concordam que a tal "sociedade" é mesmo cruel, mas eles nem sabem que hoje são eles a tal sociedade. E enquanto bebem, comem, comemoram ela se pergunta a razão de estar ali - um ambiente visivelmente hóstil para os que não compartilham do modelo. 

  E a escolha talvez nem tenha sido dela, de fato. A verdade é que as coisas poderíam ser diferentes, ela poderia mesmo ser igual, mas de alguma maneira, desde cedo, ao menos suspeitara, que não era. Até tinha os sonhos, projetos e desejos bastante convencionais, mas a maneira de atingí-los sempre foi bastante pessoal. Sem celular à mão, sem internet, balas, chicletes, livros, revistas, extratos ou tópicos de conversas, ela sorriu e se voltou corajosa para o antes temível arguidor, respondeu suas últimas perguntas, sem nunca hesitar e o que não sabia responder, improvisava, porque nenhuma outra fragilidade sua  seria exposta.

  Não, definitivamente ela não cabia na foto, ela até tentava e se espremia, para não causar nenhum mal estar aos outros, pudor que só fazia parte de um dos lados. Não há arrependimentos, nem de ter ido ao encontro, nem do destino que escrevia, só o lamento de não ter levado consigo o celular, o celular a teria salvado dos primeiros embates...a sensação poderia ter sido outra...

  Agora já sabe: da próxima vez, vai fazer alguma coisa, qualquer coisa, só não vai deixar que ninguém ou algo faça-a sentir-se inadequada, pelo simples fato de ser ela. "Não vai não" - obstinada ela faz a promessa para si. Se cumprirá, não se sabe, mas que vai tentar ao máximo, se a conheço bem, isso vai.



segunda-feira, 25 de junho de 2012

Das nossas covardias

  Sentada na praça mal iluminada, esperando a amiga que virá me encontrar depois da sua aula. Olhando para o nada, nada mesmo, nem o relógio eu consulto, penso nas questões de sempre ou em nada, não sou capaz de me lembrar. E, de repente, sou abordada por uma voz desconhecida: - Oi! Tá esperando alguém? Olho para trás, surpresa, mas não há com o que me preocupar, penso rápido: "a garota parece inofensiva". Ao menos parece...

  Pergunta se pode se sentar, diz que espera uma prima adolescente com a qual saiu, pelo que entendi, para acobertar um encontro da prima. Enquanto a adolescente desfruta da companhia de um "pretendente" (sei lá a quê!) a garota, antes só na praça, ao me ver também sozinha resolveu se aproximar. E, em segundos, a moça se sente à vontade o bastante para me perguntar por quem espero, qual a finalidade do encontro e outras tantas curiosidades simples, mas para mim de certo modo invasivas, já que nunca na vida havia visto a tal garota. Receptiva, mas meio "incomodada" com a rapidez da moça, sou sucinta: - Aguardo uma amiga, que sairá da aula, para conversarmos. E, isto é quase tudo que falo nos próximos minutos de conversa.

  A garota não se intimida com a minha maneira sintética, ela quer conversar e, de alguma maneira, percebo que não falará do tempo (clima), nem dos tempos atuais (época), nem novela, nem das "crianças de hoje em dia", ela não optará pelo "neutro"; logo na sua abordagem eu percebi que ela não era dessas mulheres. Mulheres que não são "dessas mulheres" sempre reconhecem-se. E a garota, como suspeitava, desabafa sobre um imbróglio amoroso do qual acaba de sair, na verdade, ela diz que "acaba de sair", mas parece-me ainda estar no meio do tal "quiprocó", senão, não incomodaria-se tanto com a tal história. 

  A moça desesperada relata-me, com riqueza de detalhes (com os pormenores mesmo!), o desenrolar dos tais fatos, conta-me da imaturidade do antes amado, agora algoz (?), do desejo latente de uma mulher de quase 30 anos, sentir-se segura em um relacionamento, estabelecer laços familiares, ter filhos, etc. Confesso que não consegui acompanhar bem sua narrativa, no seu olhar angustiado concentrava quase toda minha atenção, fora o ineditismo da situação. Ela, inclusive, optou por um caminho que detesto sempre: o de generalizar: "Porque nós mulheres isto, nós mulheres aquilo...". Éramos duas mulheres, na mesma faixa de idade, sentadas na praça mal iluminada de um determinado bairro, de uma cidade, de um estado, de um país, falávamos a mesma língua, enfim, tínhamos uma série de coisas em comum, mas acabava aí nossas semelhanças, eu pensava. Eu não agiria como ela com o tal rapaz, eu nem ao menos me interessaria por alguém como ela me descreveu (e contou nome, rua e até endereço de onde o tal morava), eu não sentaria numa praça e desabafaria com o primeiro estranho solitário que eu visse. Mas, eu fingi entendimento, eu inventei uma compreensão que eu não tinha. Balancei a cabeça, concordando, não protestei com a parte de "nós mulheres", achei que a situação não era própria para uma análise deste tipo. Segui concordando, emprestando ouvidos, olhos e gestos, porque a fala era só dela.

  De repente, os olhos da moça se encharcaram, tanto, tanto, que transbordaram. A maquiagem escorrida pela face, o rímel diluído em água salgada, ela chorava meio Rio Negro e eu não sabia o que fazer. Pensei que moça não era louca em me abordar, pensei que o fizera premeditadamente, pois não desejava que qualquer um que a conhecesse a visse com a face desmanchada, tão vulnerável, tão infeliz. Precisava mesmo compartilhar com um desconhecido, que não se sentiria responsável por ela, nem pela sua dor. Quando pensei na estratégia fria da moça e na maneira como toda aquela situação me desconcertava, tive raiva. Muita raiva. Achei-a insensível, achei que os seus problemas eram mínimos demais, que o seu desabafo era desnecessário, que a sua dor era ridícula. Antes que eu dissesse as piores coisas que eu pensava naquela hora, meu celular tocou, a amiga me esperava do outro lado da avenida. Olhei para moça mais uma vez, disse que precisava ir e desejei "boa sorte", saí com um ar soberbo de alguém que "tem mais o que fazer". Só isto eu fui capaz de fazer...

  E me odiei por isto. Certo que eu não a conhecia, não nutria nenhum afeto por ela e que o seu jeito de generalizar e de dimensionar seus problemas era muito diverso do meu. Mas, só por ter se exposto tanto, ter "confiado" sua dor a mim, ela merecia palavras melhores, um comportamento mais generoso, menos desconfiado e pudico. Ela merecia, no mínimo, a minha mentira: - Sim compreendo, já passei por isto também. E, isto vai passar. Você se casará e terá filhos com um homem muito especial e nunca mais vai chorar com estranhos em qualquer outra praça.

  Eu deveria ter mentido, ter lhe dado esperanças, mas eu saí, praticamente correndo, como se eu fosse incrivelmente maior, melhor e bem resolvida. E, é assim que eu tenho reagido com a dor de desconhecidos, com total covardia. Como no dia em que, sem querer, surpreendi a moça simpática da yoga chorando em um sinal de trânsito, ela constrangida ainda justificou o choro: - Sabe como é, longe de casa e a família com problemas, né? Antes que ela acabasse a frase eu já me preparava para correr, atravessei a rua, cortando os carros e desejando de longe o meu, já tradicinal: Boa sorte.

  Desculpem-me moças desconhecidas, pouco familiares, desculpem-me pela aparente falta de sensibilidade e generosidade, mas se depois de ouvir a dor de cada uma eu resolvesse também me abrir, estaríamos fadadas a uma cumplicidade para a qual nunca estive preparada. Ainda tenho estado muito covarde para assumir problemas alheios e, mais ainda, para compartilhar a pesada carga dos meus, com alguém.  É preciso tempo para tal intimidade...um século talvez, quem sabe?




terça-feira, 5 de junho de 2012

Você se deve isto...

  Parece-me uma endemia, epidemia, ou mais, pandemia. Suspeito que, tal qual uma doença altamente contagiosa, alastra-se rapidamente. Efeito dominó, derruba um, que derruba o próximo, que derruba o outro e, de repente, todos estão rapidamente ao chão. O tal do mau humor não é só situação passageira e individual, depois de uma sucessão de "atitudes" menos otimistas, o sujeito não só pode viver permanentemente de "mal com o mundo", como pode causar efeitos na coletividade.

  O ascensorista do elevador, extremamente despreparado e muitíssimo mal humorado, é impaciente com uma senhora, que pedia informação e por isso impedia a passagem dos outros usuários, ele a apressa com grosseria; envergonhada, ao descer ela "desconta" a indelicadeza na sua acompanhante.  No outro prédio, o porteiro se dirige educadamente ao motorista que estaciona em lugar proibido. Não bastasse estar em local irregular, o motorista recebe a advertência do funcionário como uma ofensa pessoal. Antes de entrar no outro elevador, escuto o motorista, ao longe, prepotente, orgulhoso, com um humor dos piores: - Tá achando que é dono do prédio, é? Não assisto o desfecho do imbróglio, mas subo imaginando que o porteiro nada disse, mas talvez "passasse para frente" a grosseria, com um subalterno, um igual, para esposa ou filho. No intervalo da aula, vou até a cantina. Fila pequena, somente duas pessoas a minha frente, um rapaz visivelmente impaciente especula sobre os recheios dos salgados assados. O moço da cantina, rapaz bem humoradíssimo, falante até e muito solícito, responde: - Tem de ricota com espinafre, frango e quatro queijos. E o impaciente: - Não tem de carne, né?; o moço da cantina responde, já sorrindo: - Claro que tem; - Mas você não falou!; - Claro que falei. Frango não é carne? Pergunta o moço da cantina, soltando junto com a piada inocente um despretencioso sorriso.
O impaciente ferve, borbulha e explode: - Vai ficar a vida inteira aí, vendendo salgados. Burro, pobre e engraçadinho, não vai daqui pra lugar nenhum! Surpreso o rapaz da cantina, constrangidos todos que assistiram a cena pavorosa e sem reação eu me imaginava, fazendo o gracejo. Que mal tem? Que desordem é esta no temperamento coletivo, que se torna incapaz de um sorriso e qualquer gentileza?

  A próxima da fila, desconcertada, faz seu pedido, é atendida e sai rapidamente. Inértil, permaneço na mesma posição desde o desequilíbrio do rapaz sem humor. - Então, querida o que vai querer? - Eu? - É. 
- Quero um assado de carne; Constrangido o rapaz responde: - De carne eu não tenho hoje, vou ficar te devendo. - E frango é o quê? Respondo. O moço da cantina sorri, gargalha, depois me serve um assado de frango, antes me olha com cumplicidade. Somos parceiros de piadas ruins. Somos comparsas contra o mau humor que assola a cidade. Eu e o rapaz da cantina. 

  Saio para aula e escuto o piadista de ocasião me chamar: - Ei Colega! Vai fazer um concurso difícil? - Não. Vou fazer um impossível. Ele sorri e declara: - Colega, no meu concurso tu passa em primeiro! Eu sorrio feliz, ganhei minha noite. Pois são mesmo essas provas que me importam.
  
  Hoje eu ouvi, em algum lugar, de alguma fonte pouco confiável, que pessoas bem humoradas atraem coisas boas. Não conheço estatísticas que comprovem tal hipótese. Mas de qualquer forma, um sorriso, ainda que discreto é sempre mais atraente do que um cenho franzido. Um sorriso grande ou  um "sorrisinho Monalisa"; nós devemos isto às velhinhas distraídas, aos porteiros gentis, aos moços alegres das cantinas, por aí afora e mais, nós devemos isto a nós mesmos.
   Boa noite moço da cantina, boa noite porteiro, boa noite senhora do elevador. Boa noite, para quem hoje recebeu o que não queria e continuou dando o que gostaria de receber...quem sabe amanhã...




segunda-feira, 7 de maio de 2012

Só mesmo as pessoas é que modificam...

   E, são capazes de transformarem um episódio rotineiro em uma experiência mais bonita, mais verdadeira. Ou o seu contrário.

  Estavam novamente quatro pessoas, em frente a uma maravilha, a um espetáculo natural, antes tão brilhante, tão misteriosamente belo, só que em um outro tempo. Procurava as luzes, procurava o mistério todo que as cercavam, mas a beleza toda não fluía, a energia circulava de outro modo, havia certa resistência, certa incredulidade, alguma desconfiança. Fixo mais uma vez o olhar no horizonte, procuro com insistência, algo que em uma outra vez achara instantaneamente. Agora era demasiadamente demorado, resistente, ordinário. A beleza não havia de "aparecer" por ali. E por que apareceria? Nada ali era sedutor: o clima, a fé, as pessoas...

  A verdade é, que eram outras quatro pessoas, embora, só uma, não tivesse participado da experiência anterior. Mas, as outras três, haveriam de ser modificadas, diante do novo quadro que se apresentava. Em uma delas certa desconfiança, uma dificuldade de se estabelecer intimidade, aconchego; em outra uma tentativa de "continuação" desperdiçada, impossível e constrangedora; na terceira, via-se o reflexo dos sentimentos das anteriores. Podia mesmo se suspeitar que era era "obra" do tempo, que afasta, que modifica, que pesa e descompensa algumas relações, que desfaz os laços tão doce e lentamente confeccionados. Mas não era culpa dele não.

  A beleza toda de outrora era fruto da crença, era resultado de uma fé cega, de uma falta de necessidade de confirmação qualquer. Eu acredito, só porque você me faz acreditar. Acredito, porque você me diz ver. E isto é tudo. Na verdade, era tudo - porque ficou cristalizado, intocado naquele outro tempo . Aquela beleza toda era reflexo de uma intimidade criada, de almas desarmadas, sem desconfianças e receios. Sem medo de falar demais, sem medo de magoar, sem os "vernizes sociais"...acho que era isso a tal beleza.

  E agora o que você vê naquelas montanhas? - Não vejo nada que não tenha visto em qualquer outro lugar. Nada diferente do que vejo no trabalho, no dentista, nas idas ao banco, no cursinho. Luzes artificiais, projetadas e ordinárias...

  Não era o lugar, não era o tempo, eram as pessoas que faziam toda a diferença. O fantástico para ser visto precisa de almas que iluminem. A beleza não está lá fora, a beleza não precisa de tempo ou lugar específicos, a beleza requer é de gente; só a gente pode fazer brilhar de novo a tal "beleza"...


quinta-feira, 1 de março de 2012

Imperfeita, mas ainda flor

   Entro no consultório, com a revista de celebridades nas mãos - escolhida ao acaso na sala de espera - dois beijinhos, pergunto como foi o feriado superficialmente e A. me conta, quase mecanicamente, sem o seu entusiasmo rotineiro, como havia passado o Carnaval.
  A. é mesmo adorável, na minha primeira consulta/sessão/visita me contou sobre "parte" da sua vida, tantas informações que suspeitei que era uma vida inteira e não parte dela. Gosto de gente assim, que se abre para qualquer desconhecido, não sou assim, nunca fui, muito pelo contrário (infelizmente), mas quando encontro gente assim "hiperverbal", me sinto confiável, sabe? Se está contando para mim, devo ter cara de "gente boa", sei que no fundo pessoas assim, tão "abertas", não tem um padrão muito exigente para eleger ouvintes - deu confiança, pronto! - Mas, sigo fantasiando que tenho cara de uma boa e especial ouvinte...

  Mas, neste dia, A. não estava muito para conversa, então a minha leitura (só de imagens, porque nessas revistas não há muito o que se ler, né?) até rendeu...cansei da leitura e dei uma olhada para a janela (as janelas desses consultórios/escritórios sempre são minha distração favorita - muito amplas, iluminadas e com um cenário bastante diverso do meu cotidiano), mas a persiana estava fechada pela metade (fazendo meu olhar se restringir à sala), olho no mármore da janela e vejo duas flores artificiais. Duas jarrinhas, cada uma com uma flor (daquelas eletrônicas cujo mecanismo se assemelha com aqueles cachorrinhos de carro, que balançam a cabecinha num ritmo alucinado e constante, sabe qual? Ou daqueles papais-noéis que "dançam" movendo a cintura de um lado para o outro)...

  Enfim, eram duas flores dessas (uma lilás e outra coral. Com o caule e uma folha de cada lado, mais as pétalas e o miolo). Chamei a atenção de A. para suas flores, elogiei-as e percebi que ambas embora muito parecidas (só com cores diferentes) não "dançavam" em sincronia, muito pelo contrário. A flor coral mantinha caule e petálas imóveis, com uma das folhas em um balançar bastante sutil, como o braço de alguém que pedisse ajuda por muito tempo, enquanto se afogava, meio sem forças, desesperançoso, mas ainda assim, ativo; já a outra folhinha estava com um balanço quase imperceptível (A. não havia nem percebido, eu também só havia percebido após alguns segundos de olhar fixo e teimoso). Já a flor lilás era "louca, alucinada" e dançava em um ritmo frenético, pétalas e miolo rebolativos e folhas em um ritmo ininterrupto (para baixo e para cima).

  A. me explicou que tinha deixado a flor coral cair acidentalmente, quando abrira a persiana e por isso ela havia ficado "aleijada". Disse também que adorava aquelas suas flores (que por serem novas eu nunca tinha reparado no ambiente) e então havia ficado muito triste com a queda e mais tarde com a "sequela" na flor coral. Ela gostava delas assim:agitadas, freneticamente alegres...

  Tentei consolar A. com a minha sincera observação: - Sabe A., eu acho que a flor coral  agora tem um balanço muito mais "sincero", natural...
  Foquei a flor lilás e achei o seu balançar muito "falso", mecânico, cansativo até. Já a coral e o seu balançar sofrido, de quem insiste e embora cansado segue em frente, era muito mais tranquilizador... e era tão mais real. Na coral, eu não via máscaras, nenhum disfarce para encobrir o que não é belo; na sua imobilidade vemos de melhor maneira as cores e formato das pétalas, e sua folhinha sôfrega nos dá esperanças de um dia reagir, fora a outra folhinha com um balançar tão sutil, que só olhos muito atentos percebem...e há tanta beleza neste movimento!
-  Natural? A. me perguntou? - Tá é uma flor "maneta". E sorrindo me disse que se ela não se "recuperasse" compraria uma nova, da mesma cor, ressaltou, para fazer companhia a flor lilás.

  De nada valeu minha observação, A., fatalmente, descartaria a flor defeituosa... e neste dia meu mundo se dividiria entre: os admiradores de flores coral (eu) e os admiradores de flores lilás (A.)...e a diferença entre os dois? Não sei bem...para mim, somente a certeza de que, ainda com traumas e sequelas e independente do ritmo que ela adquirira, a coral ainda é uma flor, e tão genuinamente bela...