quarta-feira, 6 de junho de 2012

Não há melhor nem pior, só há.

  Logo que aprendi a escrever, nas primeiras "redações" da escola, ainda na 1ª série, eu acho, descobri minha primeira grande inspiração. Depois de um repetório respeitável de estórias ouvidas, descobri que "as melhores" terminavam com o "e foram felizes para sempre", eu ainda não sabia escrever esta frase inteira, mas sabia o que significava. Felizes, alegres, significava que no final de uma boa estória os personagens sorriam. Por isso, meu primeiro desfecho para uma pequenina redação foi: " e riu, riu...". Assim mesmo, a palavra repetida e reticências, não sei quem me ensinou, mas sabia que reticências imprimia a ideia de continuidade. Então, a professora surpresa, achou meu desfecho "dos melhores" (isso ela quem disse), assim como a minha redação. Foi meu primeiro grande elogio. Foi a primeira vez, que eu me lembro pelo menos, que "melhor" acompanhava algo que eu tinha feito. Outras redações vieram, mudavam os personagens, o tempo, o cenário, mas a fórmula eu repetia indiscriminadamente. "O urso riu, riu..."; "A boneca riu, riu..."; "O fazendeiro riu, riu..." e até o sapato e o carro ria, ria...

  Era simples, a professora gostou, fui elogiada e queria "para sempre" agradar. O que antes eu demorava cerca de 20 ou 30 minutos desenvolvendo e me esforçando, passei a fazer em 5 minutos, sem esforço algum. Era só repetir um modelo e eu era a melhor, não era? Não. A cada nova redação meu conceito foi diminuindo, de "excelente", para "muito bom", depois somente "bom", até chegar ao "regular". A professora não achava mais minhas estórias "as melhores" e eu também não tinha o menor prazer em escrevê-las, era só repetição. Depois do conceito "regular" a professora advertiu-me que faltava criatividade nas minhas redações, que eu deveria escolher outros desfechos que também me agradassem. Fui para casa confusa, nada do que não fosse "Riu, riu..." me parecia um final interessante. Mas, o desejo de ouvir o "melhor" dirigido a mim, era uma motivação considerável. Na próxima redação, suei, lutei, me concentrei tanto que não ouvia nada, não via ninguém, a folha em branco era meu desafio, o lápis minha espada e o "melhor" era meu prêmio. Não me lembro absolutamente de qual foi o enredo e, principalmente, o desfecho da minha nova estória. Fui para casa apreensiva, mas quase certa da vitória, não poderia dar errado, eu agradaria a professora novamente.

  Quando recebi a redação corrigida, um "muito bom" no alto da folha, sem nem ao menos uma "exclamação", sinalizava minha derrota. Eu não voltei a ser a "melhor". Deixei de querer sê-lo, deixei de desejar que as minhas estórias agradassem quem quer que fosse. Foi quando eu descobri que adorava fazer as minhas redações, para mim mesma. Adorava inventar, escrever e depois sentia prazer em ver minhas ideias, cintilando no papel, antes vazio. Eu adorava-as e isto passou a me bastar. Um dia, que não sei quando o "muito bom" voltou a ser "Excelente", com três exclamações, mas eu não voltei a sentir necessidade de agradar, de surpreender e nem de repetir modelos;  eu senti o gosto doce de "ser melhor" e o amargo de deixar de ser. Descobri que gosto bom mesmo, era o "enquanto". Enquanto eu escrevia era feliz, enquanto eu era feliz escrevia livremente. "Ser melhor" ou "pior" passou a significar para mim uma prisão, masmorra úmida, sentença que limitava o melhor da vida, que era o "enquanto".

  Desde cedo, felizmente, aprendi que cultivar "títulos", fazia com que o sujeito se limitasse a modelos, a concepções pré-estabelecidas; fazia com que o indivíduo abrisse mão de si, em função da simpatia alheia. E, por isso, desde então, passei a não só não me submeter aos títulos a mim atribuídos (tanto os elogiosos, quanto aos depreciativos), como passei a não "crer" neles. Porque simplesmente título algum pode "dar conta" do que sou. Por isso não sou a mais inteligente, mais bonita, mais engraçada; não sou a melhor, em absolutamente nada, nem amiga, nem irmã, nem filha, nem amante, nem coisa nenhuma; mas também não sou a "pior" em nada, nem em matemática, nem em futebol, nem na direção, nem em economia. Por vezes, não ser "a melhor" ou "pior" desperta a sensação de que o sujeito é mediano. Mas, não. Se não me servem os extremos, nos meios eu também não me limito, porque me sinto "fora" dessas medidas, porque escolhi estar à margem das réguas e fitas métricas. E, é por isso que nunca fui boa vendedora, nem marketeira, porque nada é melhor, nada do outro é pior que o meu. Só conheço o que é e pronto. Só dou conta do meu "enquanto", porque esse é que é capaz de fazer qualquer homem feliz. 

  E é por isso que quando não sou "Top of mind" de nada, quando não sou a primeira opção dos outros, meu abatimento logo vai embora; fui eu quem escolhi o caminho, fui eu quem experimentei e escolhi o gosto da minha preferência. Por enquanto, prefiro o "enquanto" e nos meus finais, mesmo que eu não escreva, eu continuo rindo, rindo...


2 comentários:

Anônimo disse...

Olá Amanda!
As instituições de ensino as vezes são cruéis com as crianças, mas enfim, é a representação da sociedade.
Que bom que vc não deixou de escrever depois dos ocorridos na sala de aula! Acho que com tudo deveriamos ser assim, fazer por nós mesmos.
Mesmo que não seja sua intenção, seus textos que, além de bem escritos e interessantes/emocionantes/parece louca (risos), me agrada e me ajuda muito!
Obrigada!

Amanda M. disse...

Sim, é verdade, "fazer por nós mesmos" é a melhor alternativa sempre, mas saber que outros compartilham dos mesmos sentimentos é, no mínimo, reconfortante. Obrigada pelas palavras, fico imensamente feliz em ajudar/agradar involuntariamente.