segunda-feira, 9 de julho de 2012

E Francisco foi para o céu

  A viagem no ônibus interurbano promete ser breve, parece rotineira. Noite de sexta-feira, trabalhadores e estudantes voltam para a casa, para o lugar onde também um dia foi a minha casa. O ônibus que demorou, chega sem assentos vazios, vou em pé, aproveito para procurar rostos conhecidos, reconheço alguns e sou correspondida por um único, pela antiga colega de escola, que hoje é uma mulher. Blusa colorida, boca colorida, hoje ela é a cara do lugar para o qual faço meu breve regresso. Ainda no início da viagem, vejo um cartaz no ônibus, leio sobre um concurso artístico (foto, texto ou desenho) que a associação de transportes local promove, sobre a percepção do passageiro em sua viagem de ônibus. Qual é a minha percepção? Hoje não caberia em uma foto, em uma página, em moldura alguma. É mesmo emocionante regressar para um passado não tão distante cronologicamente, mas, até então, tão ultrapassado na alma.

  Passo pela empresa que meu primo trabalhou, me recordo com saudades dele; depois pelo bairro, onde ficava a escola que um dia docemente me acolheu, faço uma discreta mesura de gratidão, que nenhum passageiro poderá perceber; revejo o muro do prédio, que décadas atrás era  ilustrada por uma propaganda de doce de leite, lembro-me de outro primo, com quem voltava da escola e que me desafiava a lê-la, que saudades do "pequeno príncipe", tão inteligente, tão irônico, tão sagaz, tão cheio de vida; depois o  supermercado onde meus pais faziam compras e, aos poucos, o antigo lar se aproxima. Muito diferente, tão menor, tão mais feio.

  Ainda lembro quando o vi pela primeira vez, quando chegávamos para morar lá, "definitivamente." Ele já era estranho, feioso, barulhento, colorido e rejeitado por mim. Era um pequeno condomínio suburbano em meio a um deserto rodeado por saibro (aquela areia fina rosada), não havia comércio, escola, praça, só uma pequenina igreja, o pão era trazido pelo vendedor em um cesto de palha, pregado em uma bicicleta, ouço agora a buzina da bicicleta, o gosto bom do pão francês, que nem era fresco. O bairro era mesmo estranho, mas o que havia de mais peculiar eram as pessoas que lá moravam, no meu prédio havia, além de nós, mais três famílias, a da mãe separada, com dois filhos pequenos, que morava logo em cima e que por diversas vezes testou nossa paciência ilimitada; o casal do lado com três filhos, eternos endividados, enrolados, mas também bastante hospitaleiros e a família desajustada, a mais antiga do prédio, o casal e os três filhos. A última família era a mais estranha, barulhenta e problemática. Se agrediam constantemente, precisavam da intervenção de vizinhos e até da polícia. O casal tinha duas filhas quase adolescentes e um rapaz, já adolescente, filho somente da mulher, o marido era o padrasto e fazia questão de deixar isto sempre muito claro.

  O rapaz do prédio era alto, magro de olhos verdes e muito articulado, logo meus irmãos e eu nos tornamos muito próximos a ele. Bricávamos na rua, conversávamos e nos surpreendíamos, diversas vezes, com as suas declarações. A relação com a família era declaradamente pouco amistosa, sonhava em se tornar um político rico e importante e dizia que faria da mãe e das irmãs empregadas de sua mansão espetacular. 

  Aos poucos fomos nos acostumando a nossa nova vida, residência e grupo social, mas sempre com certa estranheza. O fato era que, especialmente eu, me sentia deslocada naquela cultura tão informal, com a proximidade de estranhos tão sem cerimônias e com o número bastante elevado de crianças na vizinhaça. Com o passar do tempo Chiquinho, o rapaz nosso vizinho, começou a demonstrar alguns desvios de comportamento, e logo, iniciaram suas internações. Chiquinho foi diagnosticado com esquizofrenia e a família contava que a possibilidade de melhora ou cura, estavam nas internações em clínicas psiquiátricas. Depois da primeira internação, que duraria meses, o rapaz passaria por outras sucessivas internações, algumas chegaram a durar anos, a cada alta éramos testemunhas das bruscas e drásticas transformações do rapaz. Enquanto crescíamos e os colegas do Chiquinho estudavam, tinham suas primeiras namoradas e empregos, o rapaz voltava mais distante dos antigos companheiros, sua vida era outra, sua realidade era singular. Aos poucos perdia o tempo, a vida, os companheiros e os laços deste lado. Quando a mãe de Chiquinho deu a luz a um novo menino,ele devia ter uns 17 anos, sua relação com a família tornou-se ainda mais complicada, internaram-no com medo de o rapaz ser uma ameaça ao bebê . O rapaz passava longos períodos internado e curtos períodos em casa, sua transformação física era também assustadora, em pouco tempo ganhou muito peso, perdeu os dentes, ganhou cicatrizes e os cabelos eram desajeitadamente cortados. 

  Em um dos períodos que passou em casa, aproximei-me dele; solitário, fragilizado, passei a ter conversas superficiais com Chiquinho. E toda vez que voltava da internação eu me mostrava solidária. Conversávamos de longe, ele do quarto isolado que construíram para ele na cobertura do seu apartamento e eu do meu quintal. Vez ou outra, Chiquinho me gritava, às vezes para dizer coisas desconexas, outras para conversar e até no meio de uma crise agressivo e violento ele me requisitava no quintal da minha casa. Aos poucos incomodaram-se meus pais, advertiram-nos os vizinnhos do perigo de uma menina de 10 anos conversar com alguém mentalmente perturbado e, até eu mesma, comecei a me cansar de tamanha disponibilidade e atenção. E, é claro, aos poucos também comecei a ter medo dos gritos de Chiquinho, que ultrapassavam o quintal e invadiam o meu quarto. Passei a me comportar como todos os outros a volta de Chiquinho, simplesmente o ignorava.

  Em um período de férias escolares, duas das minhas primas estavam na minha casa e enquanto brincavam no porão e eu terminava de lavar a louça do almoço,  ouvimos um barulho ensurdecedor. Eu e meu irmão corremos para o porão, com medo de que algum acidente houvesse ocorrido com as meninas e elas correram para dentro da casa, temendo que o acidente fosse conosco. O barulho vinha de um do banheiros do apartamento, na verdade, de uma área externa ao banheiro que interligava todos os outros apartamentos, ouvimos gritos, barulho de água corrente, Chiquinho havia se jogado na tal área. Havia destruído o encanamento e assustado muito os moradores. Ficamos os quatro em casa, com a porta do banheiro fechada e vimos quando chegaram os bombeiros e o resgataram. De uma fresta da janela eu vi Chiquinho ensanguentado, desesperado, entrando em uma ambulância, ele gritava o meu nome e eu não apareci.

  Meses depois ele voltou por mais um curto período para a sua casa, mas nunca mais conversamos, nem sequer um olhar eu tive coragem de oferecer ao rapaz. Ele, porém, nunca esqueceu da minha deslealdade e me puniu por isto durante muitos anos. Quando estava no bairro e se estivesse sentado sem fazer nada, ao me ver Chiquinho insistia nos comportamentos mais escandalosos, mexia no lixo, disputava comida com os cachorros da rua, tirava a roupa, batia na janela do ônibus, onde eu estava, oferecia a mim,sua mão suja para um cumprimento, fazia caretas e sempre tentava me constranger, eu jamais sucumbia a sua vingança; ignorava-o resistente, orgulhosa, sem culpa alguma (aparentemente).

  O Francisco me ensinou que qualquer outra enfermidade podia ser aceita, ignorada ou digna de angariar mais afeto. O Chiquinho poderia ter tido um câncer, poderia ter sofrido um acidente grave, ter pedido um braço, uma perna, até a mobilidade, mas não o juízo. A loucura e toda a desconfiança e estranheza que ela despertava  não seria perdoada. Pela primeira vez eu tive medo do abstrato, não era o ladrão, o "homem do saco", o "bicho papão", era a loucura que eu passava a temer. A dele, a dos outros e até a minha, me causou medo. Medo da violência, da perda de valores e afetos e, principalmente, do abandono.

  O ônibus passou rapidamente pela rua em que eu morei, não deu nem para ver o prédio, não precisava, ele ainda está aqui; o ponto de destino se aproxima, desço. O lugar em que eu morei por mais de uma década e que por tanto tempo desprezei, foi só uma passagem. Para Francisco foi o lugar definitivo. Alguns anos depois soube da sua morte, disseram-me que foi envenenado.

  Pela primeira vez, depois de tanto tempo, olhei com gratidão para o lugar onde fui criada, olhei com respeito e muito afeto.  Francisco foi embora muito antes da sua morte, mataram Francisco muito antes do seu envenenamento final, mataram-no por falta de afeto, compreensão e tratamentos adequados. Torço para que Francisco tenha encontrado sua verdadeira paz, seu lugar em um outro mundo e tal qual o santo homônimo, talvez ele esteja trajando uma veste marrom, com um terço como cinto e rodeado de passarinhos e, talvez também chamem-no de "irmão sol".  E se Francisco foi para o céu, eu vivi um pouquinho do céu hoje, minha percepção de viagem? Redenção. Finalmente eu fiz as pazes com o lugar em que vivi, comigo e com Francisco também...


4 comentários:

Loh LS disse...
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Carla Machado disse...

Oi, irmã!!!!! Que bom que a redenção é possível!!!!! Tenho certeza de que ela nos deixa mais leves e sorridentes! Beijo, te amo!

Amanda M. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Amanda M. disse...

Sisi mana, engraçado, né? Depois de tanto tempo...