quarta-feira, 25 de julho de 2012

Hoje é dia de...

  Todos os dias, nunca tudo é sempre igual. Nem pensamento. Em um mesmo dia somos mais sozinhos do que lua minguante, lá em cima, esquecida até pelo amantes; em um outro próximo instante, temos tanta companhia, tanta gente, tantos afagos, de fazerem inveja ao mais imponente monarca de fábula. Em um mesmo dia somos mendigos miseráveis e esquecidos e depois rei, lembrado, admirado, saudado. Há uma linha muito tênue que separa insatisfação de contentamento; sorte de azar; fartura de penúria. Todos os dias nos equilibramos na fina corda que separa o drama da comédia. 

  No filme "Melinda e Melinda", o grande Allen faz dois filmes em um só. A protagonista é a mesma nas duas estórias, Melinda. Melinda comédia, Melinda drama, os dois gêneros em uma mesma obra. Não é nem de longe o meu filme favorito de Allen, pelo resultado da obra, mas com certeza um dos meu favoritos pela "filosofia" embutida na estratégia "dois em um". A estória principal das duas Melindas é a mesma (divorciada, sozinha, recém chegada na cidade), a diferença está nas escolhas de cada uma, na personalidade, nos olhares. O apartamento, os amigos, as escolhas amorosas de ambas é que determinam a Melinda comédia e a Melinda drama. Allen é mais que diretor, escritor, roteirista e ator; Wood Allen é um filosófo magnífico.

  Melinda é Allen, sou eu, é você. Melinda é o cara da esquina, a moça da farmácia, a professora, o chefe, a amiga. Em um mesmo dia somos comédia e drama, talvez por isso essa iminente crise que nos persegue, que derruba alguns e que deixa outros marcados. Não caber em um só gênero é o nosso grande drama e a nossa deliciosa comédia. É mesmo estranha essa estratégia em nosso roteiro: ora o exercício da humildade (não tenho ninguém, não sou ninguém, não entendo ninguém); ora a explosão de orgulho (sou amada, querida, especialíssima). Em um único dia, com distância de horas, ou mesmo, minutos, somos o melhor e o pior.

  Nosso grande dramalhão é reconhecer que nunca somos inteiramente amados ou odiados, porque não somos "unicamente" em nada; há aspectos que agradam uns e desagradam outros, nós mesmos, somos nossos melhores amigos em determinados momentos e algozes cruéis em outros. Nossa grande comédia é que nunca podemos dizer: nunca, sempre, tudo e nada. Porque podemos sempre ser surpreendidos com uma nova possibilidade, um novo pensamento. Como diria o Rosa: "Tem horas em que, de repente,  o mundo vira pequenininho. Mas noutro de repente ele se torna demais de grande outra vez. A gente deve de esperar o terceiro pensamento." E o terceiro pensamento qual será? Qual a próxima Melinda que virá? Hoje é o dia de esperar pela terceira, porque as outras duas já passaram por aqui...

Maria: - (...) constante até a morte, constante eu morrerei.

Andarilho: - E no fundo de tudo, um defeito é um degrau importante na escada perfeita. Torto, pobre, mal feito, todo vivente pode andar reto. Porque humano não é ruim, nem bom; humano é ser incompleto...







2 comentários:

Ana disse...

Que grande filme e que grande critica, adorei o texto.
Tenho que rever este filme brevemente, aliás tenho que concretizar o meu projecto de fazer a minha colecção de filmes do mestre, assim quando quiser rever algum é só ir à estante:)é um verdadeiro filósofo, como poucos.
beijos

Amanda M. disse...

Obrigada Ana!Allen é fabuloso,adoro-o! Comecei minha coleção com um box de 20 filmes dele (presente da irmã amada. Thanks sister!). Vale muito a pena, cada revisita é uma nova descoberta.