terça-feira, 7 de agosto de 2012

Ofereço a frase para quem precisar mais dela do que eu

  Porque quando criança, o maior consolo que eu tinha, quando o final das férias se acercava (não que eu amasse tanto assim as férias escolares, só não tinha muito afeto pela escola mesmo) era o dia que meus pais saíam com a lista de livros nas mãos e voltavam com os livros fresquinhos, do novo ano letivo que se aproximava. E, eu aguardava ansiosa, sedenta por aquele, que seria meu companheiro mais presente durante todo o ano: meu livro de português. O restante das  minhas férias eu dedicava inteiramente, apaixonadamente a ele. Perscrutava detalhadamente cada imagem, cada texto, cada nova matéria e, principalmente, cada palavra, porque quando começassem as aulas, nós seríamos íntimos, não haveria nele, segredo, mistério a ser desvendado, por mim. Eu, definitivamente, iria à frente da expedição, eu apontaria os detalhes (erros de impressão, curiosidades), os caminhos mais tortuosos, os mais suaves; a minha leitura "em voz alta" seria irretocável, era onde finalmente eu me sentia segura e acolhida. Enquanto eu examinava cada página, vez ou outra, eu era seduzida por um período, frase ou poesia, com o qual, por algum motivo nem sempre muito claro, eu me identificava. E, foi em uma dessas incurssões que eu descobri a frase (de certa maneira até meio tola), que me acompanharia, até hoje, até ontem, até aqui, talvez.

  A frase é de um escritor, que confesso nunca li nenhuma obra completa. Conheço-o da frase e me restringi a ela. A princípio, parece-me que a personagem sofre uma desilusão amorosa e tenta se consolar com a conclusão de que o ser amado, não é digno do seu sofrimento, nem tampouco, do seu amor. Embora, em algum momento eu tenha  utilizado-a com esta finalidade, a frase-mantra nunca se restringiu a este aspecto da minha vida. Bastava que eu sofresse qualquer frustração, decepção ou desilusão, que eu logo recorria a singela oração, aprendida aos 12 ou 13 anos.

  Acontece que nem tudo que acreditamos ser tão individual ou limitado, não vá tocar também o outro. Há individualidades tão universais, que chegam a assustar aquele que acreditava ser só, desacompanhado e único. 

  A minha descoberta se deu, quando eu conheci um amigo de infância, de uma amiga com quem eu  fazia faculdade. Logo a simpatia foi recíproca. O menino frágil, de voz e gestos doces, tinha um passado recente como estudante de teatro e, embora, naquele momento estudasse em outra área completamente diversa, a literatura, as artes cênicas, os autores clássicos se tornaram temas recorrentes nas nossas conversas. Minha convivência com o moço de sensibilidade surpreendente, não durou mais do que um final de semana, mas por uma dessas razões inexplicáveis, tal qual o pequeno príncipe, o chamei de minha rosa e me apeguei completamente a sua alma. Em uma de nossas saídas noturnas, ele apaixonou-se. Trocaram telefones, beijos e o amigo da minha amiga colocou seu coração nas mãos do amado tão recente. Exagero ou não, o certo é que ele parecia, dizia, demonstrava que a sua vida, sem a sua paixão, de nada valia. Assustado, acuado, surpreendido o alvo da paixão do pequeno Shakespeare, logo o repeliu. Eu sei que em qualquer outro caso eu também consideraria exagero, carência e até um pouco de loucura o sentimento avassalador do meu novo amigo, mas eu ouvi sua voz e palavras, eu vi dentro dos seus olhos e fiz o que uma boa amiga, de longa data faria: não julguei seus sentimentos. E, de algum modo, por um momento eu invejei sua energia, seu despreendimento, seu desapego por si mesmo e a entrega imediata  a qual o Shakespeare genérico se lançava. Duvidei, inclusive, que o próprio poeta inglês tivesse tamanha coragem. Seja como for, entre um consolo e outro, recordei-me da minha "frase de cabeceira" e compartilhei com meu amigo, que agora soluçava desesperadamente: "O sol brilha, a ginástica me faz bem. E se Francisca me deixou, mulheres não me faltarão. Aliás, não guardo nenhum rancor de Francisca, ela nunca esteve a minha altura". Os olhos do meu amiguinho sofredor brilharam e pediu-me que repetisse para ele a oração. A cada nova repetição o seu pranto diminuia, já na terceira ou quarta vez que repetia a frase, o choro findou-se.

  A dor do meu amigo foi aplacada por uma frase, que eu encontrei em um livro de português, quando eu tinha 13 anos, seu autor, por ironia (ou não) um médico (Moacyr Scliar), ajudou-me durante muitos anos com as minhas dores (12 em 12 horas) e, compartilhando a receita, pude ajudar na dor de outro alguém. E há por aí quem acredite mais nos fármacos. Dor de amor se cura com poesia. Para dor da alma, o melhor receituário é a literatura. 

  Meu amigo utilizou-se da frase durante muito tempo, sempre que conversávamos ele se lembrava dela e a repetia tal qual um mantra poderoso. Há algum tempo, deixei de identificar-me com a frase, outrora tão familiar. Talvez porque nunca tenha sido, de fato, abandonada por nada nem por ninguém, talvez por ser eu a abandonar tudo, pelo caminho. Talvez por ser eu a malfadada Francisca. Quem sabe? Seja como for, um dia a tal frase fez muito bem para alguém e, hoje, eu a ofereço a quem dela mais precisar. E, é por isso, que eu  acredito na redenção pelas palavras, eu acredito que qualquer sujeito possa ser salvo por elas. Um livro de português, nunca é só um livro, uma frase pode sempre ir além daquilo que está escrito. Acredite, o sol sempre brilha, mesmo quando Francisca vai embora.


2 comentários:

Carla Machado disse...

Já dei essa frase de remédio para algumas pessoas que merecem uma boa dose de poesia na hora certa, acho que foi você que me apresentou a ela... recomendo A mulher que escreveu a Bíblia, o Scliar arrasou no romance.

Amanda M. disse...

Também te apresento coisas boas...Putz que burra, eu li e amei...e nem me lembrava. Beijo