quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Não tenha pressa, mas não se demore tanto

  Entro na loja de informática, há só um vendedor e ele logo se desculpa porque está ocupado com outro atendimento, diz que não demora, pergunta se posso esperar e, orgulhosa, eu respondo que  não tenho pressa - essa  frase é o meu alento maior, "não tenho pressa". Enquanto ele termina o atendimento, passeio entre as gôndolas, passo as mãos pela fileiras de objetos nada familiares e quase sempre me interesso pelos artigos mais coloridos, dos quais desconheço a função, para além de serem bonitos.

  Logo me canso dos materiais e curiosa me aproximo da família com a qual divido o vendedor: um homem de cerca de trinta anos, que já se prepara para pagar a sua compra, carteira nas mãos e olhos vidrados no visor do celular; uma menina pequena, mas já bem articulada e falante e uma mulher loira, muito séria. O vendedor pergunta para os três se desejam que ele embrulhe a compra para presente. A iniciativa é da menina, cujos olhos brilham enquanto ela responde:
 - Por favor, um embrulho bem bonito, com um laço grande se tiver.

  O homem com a carteira nas mãos, suspira fundo e impaciente diz que não precisa, fala que é só ajeitar em uma sacola mesmo. O vendedor já com um papel colorido nas mãos, fica indeciso e a mulher loira, contrariada, mas definitiva, decreta: 
- Por favor, o senhor pode fazer um embrulho sim, nós aguardamos.

  Embora tenha uma menina alegre, um presente e um laço de fita grande, faltam sorrisos, a alegria aqui parece ser só a infantil, a risada dela não faz eco, a festa é solitária; porque o clima ao redor é de guerra. O vendedor constrangido, embrulha um computador rosa, lindo, novinho, mas a menina tem os olhos brilhantes voltados ao homem quase todo o tempo, enquanto a mãe olha triste para a sua menina feliz e o homem olha para o celular e o cartão, agora fora da carteira; ninguém olha para o presente, além do vendedor.

  Essa sucessão de olhares desencontrados, me inquieta, começo a ter pressa, a pensar na vida que nega tanto a quem mais dela merece, dos três, a menina é a minha dor maior, entregue a um amor não correspondido, abandonada  em um sentimento irreversível e que é só dela. E mesmo que aquela mulher loira, forte, de discurso decidido queira lhe proteger, evitar a sua dor, ela não pode. A menina estará sozinha para sempre na busca de um olhar que não a atende.

  Ela olha para ele, buscando amor, ele nem a vê. A mãe partida de dor e consumida por raiva, segura seu orgulho e apoia a filha. O vendedor termina o embrulho, logo o homem lhe entrega o cartão. No balcão da loja um computador rosa em um embrulho colorido, com laçarote gigantesco e ninguém olha para ele. Se ajeitam para partir e a garotinha insistente, em uma derradeira tentativa, me procura na gôndola atrás dela e me convida a ser sua testemunha, aponta para o embrulho e faz publicidade: 
- Meu primeiro presente de natal, meu pai foi quem me deu. Meu pai quem comprou para mim, viu? É rosa, bonito, foi meu pai quem escolheu.
 Atrás dela, a mulher corajosa segura as lágrimas, o vendedor se enternece e o pai não diz nada.

  Não sei quem é o homem, não sei o tipo de relação que mantém com aquela mulher e sua filha, mas ele nega o direito mais essencial de alguém, especialmente a um filho: saber-se amado. Se ele visse os olhos dela, se esquecesse os problemas da relação ou a obrigatoriedade da responsabilidade pela indesejada vida. Se ele lhe sorrisse uma única vez, se entregasse a ela o pacote, se no lugar do computador rosa lhe ofertasse regalo maior e mais genuíno, se ele só se deixasse ser amado.

  A menina se despede do pai e agradece pelo presente, desconcertado pelo afeto tão público e devotado da menina, ele promete buscá-la nas férias para um passeio. Saem os três pela rua: ele noutra calçada apressado e as duas sem pressa, carregando o pacote malfadado.

  O vendedor agora é meu e me pergunta o que desejo, demoro meu olhar na calçada mais um pouco e, desanimada,  peço dois cartuchos de tinta, mas desejando muito outra coisa que nem sei o que é. O melhor presente o pai ainda não deu a sua filha, porque oferta melhor não é o que a gente solicita, merece por direito ou exige. Que da próxima vez ele não se apresse quando estiver com ela, mas que também não se demore para as férias. As crianças crescem rápido e as férias escolares duram sempre bem pouco, quando somos crianças.



3 comentários:

Paulo Abreu disse...

Não apenas uma crônica do cotidiano, mas uma aula de vida!

Amanda M. disse...

:)

Ana disse...

Amanda ando meio sem tempo, tenho umas saudades de vir aqui...
agora mudei-me para aqui:
http://chocolateemtempodechuva.blogspot.pt/
beijo grande