domingo, 31 de maio de 2015

O abraço era a ponte

   Lembrei da história hoje à tardinha, enquanto assistia pela janela do apartamento à  jovem avó da minha rua, passeando com sua neta. Empurrava um carrinho colorido, tão terna, calma, segura, tão entregue ao seu  papel mais recente de avó, sorrindo ao mundo, facilitando a passagem da pequena pela rua irregular, sorridente à vida, solícita as novas existências, cumprimentando desafetos diários e esquecendo-se das inquietações cotidianas. Imagino que quem a viu tão transformada, sentiu vontade de alegria semelhante ou, ainda, sentiu a mesma alegria só por assistir a cena. Tocada pelo instante pensei na relação que já têm e possivelmente não sabem, especialmente a menina risonha de pouco cabelo que aceita o colo de qualquer desconhecido. 
 
    Minha avó quando ficou doente se esqueceu do mundo, não sabia nada de ninguém, não havia meios de fazer-lhe lembrar-se de passado algum. Repetíamos nossos nomes, grau de parentesco ou histórias que ela mesma um dia contou, mas quase qualquer informação escapava-lhe, ela tinha as próprias recordações, em nenhuma delas eu estava. Do dia que sofrera o AVC até o dia que voltou para casa, ela não sabia mais de mim; nem de ninguém; esqueceu dela mesma. Falavam que o AVC deixara-lhe com sequelas, mas só hoje sabemos do seu mal. Minha avó muito ativa, quase incansável, acostumada aos serviços diários mais extenuantes, em poucas semanas, perdeu os movimentos das pernas, de uma das mãos, a capacidade de andar e as lembranças dos seus últimos cinquenta anos. Vê-la tão frágil partia o coração da família inteira, mas imagino que perder-se, mesmo sem estar aparentemente consciente do esquecimento, era muito mais duro para ela mesma.

  Depois do esquecimento, minha avó perdeu suas características mais marcantes, antes calada, discreta e muito doce, passou a usar palavras que nunca ninguém ouviu dela e tornou-se agressiva quase; antes calorenta, deu para a sentir muito frio, vivia agasalhada, pela primeira vez na vida aceitava as calças compridas - minha avó usou vestido durante toda a vida que teve o comando - meias de lã muito grossas, chinelos de pano horríveis e uma confusão de mantas colocadas sobre as pernas atrofiadas pelo descanso obrigatório.

  Mesmo que não soubesse quem eu era, eu jamais desistia de me apresentar, explicar-me a ela e, principalmente, reconquistar o seu afeto; nunca desisti de tentar fazê-la lembrar-se do nosso laço, pelo contrário, me empenhei ao máximo para isso. Ela reclamava muito de um frio que parecia inerente à ela, no seu desamparo de quem não sabe quem é, minha avó era só frio e solidão, mesmo sob a abundância de cobertores e gentes a todo tempo ao seu lado. O frio de minha avó era mais perene que a sua memória. Vez ou outra, ela lembrava do fogão de lenha há muito destruído, pedia que a levassem até o calor que a sua barriga acostumou a sentir. Mas não tinha mais fogão. Tudo o que ela desejava não existia mais e o que havia sobrevivido ao tempo, sua doença a fez ignorar.

  Nas suas crises de frio intenso, eu chegava até a ela, enroscava bem os meus braços no seus ombros e pescoço  e perguntava: - Vó, assim esquenta? Ela procurava os meus olhos e, ainda sufocada pelo meu excesso sorria, dizendo: - Melhor que fogão de lenha. Eu jamais pude aquecê-la o quanto precisava, mas nunca deixei de tentar. Ela jamais pediu que a estranha a soltasse; minha avó não me reconhecia, como eu gostaria, mas ela sempre compreendeu a linguagem do  meu abraço. Só depois de muito tempo eu entendi que no abraço, a memória da avó voltava. O frio era o esquecimento, o afeto sua lembrança.

  Despeço-me da avó recente, fecho a janela para a rua e desejo que, a dupla que assisto,  tenha muito tempo para se lembrar e, quem sabe, se esquecer, se inevitável for, mas que tenha sempre algum lugar para guardar cada memória. Fez frio hoje e a avó não recebe mais o meu abraço, mas lembro-me de cada um deles e me sinto confortada. Eu dava abraço e, mesmo que não soubesse, a avó finalmente me reconhecia.



4 comentários:

Paulo Abreu disse...

Puxa vida! Puxa vida... emociona a gente -

Amanda M. disse...

Ah...que bom! Obrigada Paulo. ;)

Cristina disse...

Vixe! Que lindeza mais calorosa!

Amanda M. disse...

:)