domingo, 7 de junho de 2015

A mulher da ilha

  Não se lembrava de como havia chegado, se por acidente, por nascimento ou pelo dois. Era sozinha numa ilha inteira, aprendeu a se relacionar com os espaços vazios, com a alma quase deserta, com a natureza imposta: solitária no meio de extraordinária beleza. Era consciente da maldição e dádiva recebidas. Não sentia falta de quase nada que era fora dali, porque aquilo era tudo o que conhecia.

  Aprendeu a entender o ciclo das águas, as fases da lua, a imprevisibilidade dos céus e a constância da vida animal: que nasciam, cresciam, procriavam e morriam. Entendia se lutavam por território, se buscavam comida, abrigo ou algum tipo de interação. Compreendia o animal, o vegetal e o mineral. E mesmo que partilhasse a ilha com uma infinidade de habitantes, acabava por se sentir incomunicável. Os gestos dela, os olhos dela, os afagos dela, vez ou outra, obtinham resposta. Mas e as palavras dela? Essas voltavam a ela como saiam.

  Um dia sentiu demasiada falta de outra palavra; alguma que não fosse a dela. Queria conhecer vozes, ouvir de outras almas algo que ela pudesse reconhecer. Os pássaros tinham sua comunicação própria, os peixes tinham alguma linguagem comum, os lagartos se interpelavam entre arbustos, as abelhas tinham a comunicação entre as suas iguais, os leões tinham quem os escutasse,  assim como os tigres, os camaleões e as centopeias. E  se alguém respondesse? E se fora da ilha alguém a compreendesse? Sonhava com o dia da resposta.

  Dia após dia, catava os cacos que seus únicos recursos se tornavam; um cantil muito antigo, um mulambo que parecia uma espécie de bolsa e a pior das suas misérias, a esperança de ser encontrada.  E se não vista, ao menos, ouvida por alguém, mesmo que continuasse sua sina na ilha, mesmo que fosse esquecida em minutos; teria sabido que a sua voz não era em vão, não era fraca, nem pouca. Existia e podia ser ouvida.

  Começou por ampliar o som da sua voz, não sussurrava mais, nem  pouparia o diafragma ou pulmões. Subia todos os dias no lugar mais alto da ilha e gritava por horas, só silenciava enquanto esperava alguma resposta. Embora estivesse empenhada no início, aos poucos, se sentia comprometida com a tarefa e amargurada pelas tentativas sem sucesso. Gritava o que sabia, as palavras que conhecia de um vocabulário muito limitado pelo isolamento remoto. As respostas eram instantâneas e idênticas as suas iniciativas. Na ilha, sua voz voltava em eco. Odiava o vazio da sua condição, a penúria de receber apenas exatamente aquilo que ofertava.

  Depois de sucessivas subidas nas montanhas mais escarpadas da ilha, pulmões sugados, desgastes de sentimentos e força dos músculos mais interiores, finalmente, pode ouvir o que não era ela.  A mulher na ilha perturbada pela outra voz que a respondia.

  - Não sou mais eco. Estou salva.

  Os gritos treinados, a tentativa de escapar a um destino desabitado, a voz exposta ao seu limite. Um dia, a resposta chega, a comunicação se estabelece e não saberemos o que fazer com cada coisa a qual não nos habituamos. Na urgência de resolução, nos calamos, abrimos mão de sermos correspondidos e abandonamos a maratona antes do pódio.  

  A mulher na ilha chorou, chorou até embargar a voz  e estar impossibilitada de resposta. Calou-se pela surpresa, pelo alumbramento da realização de um desejo tão acalentado; calou-se também por medo e por não saber o que fazer com aquilo que ouvia e pela possibilidade do resgate, agora, tão as suas mãos. Muda, dormiu com a tranquilidade de alguém que não é mais só.

  Ao acordar, deu-se conta da solidão, agora, voluntária. Não queria ser ilha, mas aceitou seu destino-solidão e, desde então, vive aos sussurros na ilhota do Pacífico. Todos os dias, no final da tarde, olha para o penhasco onde gritava e promete que um dia voltará. Entre um cantil descascado, restos de uma bolsa de viagem, o conforto de saber que sua voz é conhecida e o medo de ser salva, uma mulher vive numa ilha.  Temendo, numa mesma medida: o desamparo da solidão e a promessa do encontro.



4 comentários:

Paulo Abreu disse...

Prezada Dona Louca, sim, parece louca. Obrigou-me a voltar com sua resposta ao meu comentário anterior - numa sutileza feminina clássica, que seduz e enobrece a gente. Dito isto, prossigo nesta carta - sim, uma carta, para revelar-lhe que não sou escritor. Bem, é verdade que naveguei por terras freudianas e por consequencia lacanianas, mas isto não faz de mim nada maior do que a senhora.
Portanto, exclua a observação da sua mente, mas mantenha-a na sua grafia proposta na resposta, colocada entre parenteses: (claro que considerando as distâncias muito ampliadas entre as obras de ambos e os meus textos).
Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa - seus textos são lindos, e saem do seu universo, recheado de emoções diuturnas, paixões platônicas, amor cortes, enfim o sentimento clássico de quem ama de uma forma íntima, pessoal e intransferível, mas isto parece uma perfilação, portanto aqui paro neste sentido.
Voltemos ao que nos trás ao diálogo virtual - "A mulher da ilha". O texto é de uma feminilidade intangível aos da minha classe masculina. Quando via uma coisa assim, nos tempos de professor universitário, eu falava - isto é coisa de menina mulher fêmea do sexo feminino duplo XX - impossível um homem ter esta visão.
Que visão é esta? A visão da ilha (o útero) e você sendo gerada com todas as suas dúvidas, mas sabendo da relação entre as partes - mãe e filha. Está tudo lá, desde a concepção até o parto, o choro e a solidão.
Outras pessoas verão no seu texto uma Ilha - uma sonífera ilha como disse o poeta.
Outras verão um ponto de reflexão e muitos não verão nada mesmo.
Além disto, seu português é lindo. Boa e abençoada semana!

Amanda M. disse...

Ah Paulo...se diz que não é escritor, tomo como certo. Mas ainda acho que escreve e é, sem erro, um leitor generosíssimo e, melhor, leitor-mergulhador, porque busca exatamente o profundo. Grata, mais uma vez, por cada perspectiva sua compartilhada com uma louca desconhecida. Ótima semana! ;)

Paulo Abreu disse...

Lya Luft tem uma posição interessante sobre o universo feminino, que é muito bom. Conserve esta nobreza em sua escrita.

"Não existe isso de homem escrever com vigor e mulher escrever com fragilidade. Puta que pariu, não é assim. Isso não existe. É um erro pensar assim. Eu sou uma mulher. Faço tudo de mulher, como mulher. Mas não sou uma mulher que necessita de ajuda de um homem. Não necessito de proteção de homem nenhum. Essas mulheres frageizinhas, que fazem esse gênero, querem mesmo é explorar seus maridos. Isso entra também na questão literária. Não existe isso de homens com escrita vigorosa, enquanto as mulheres se perdem na doçura. Eu fico puta da vida com isso. Eu quero escrever com o vigor de uma mulher. Não me interessa escrever como homem."

Amanda M. disse...

Sim, muito interessante a perspectiva dela, Paulo!
Concordo especialmente com "escrever com o vigor de uma mulher", por vezes, a aparente fragilidade tem uma potência demasiada. Muito bom!