sábado, 13 de junho de 2015

Outra coisa que não seja esse amor da banca de revista

  Numa ruazinha curta no centro da cidade tem um "vento encanado"; eu descobri. Só entendi o que significava a expressão popular, no dia em que eu percebi o próprio fenômeno. Há coisas, muitas na vida, que só entendemos depois de conhecermos; a palavra acaba por explicar depois, porque é o vivido que preenche-a de sentido. Primeiro o sentimento, a sensação, depois o verbo.

  Levei quase um ano para ter certeza de que era mesmo um vento encanado permanente, passava pela  rua duas vezes ao dia, para estar certa da peculiaridade. Talvez outros demorassem menos, bem menos, mas acabo sempre errando mais pelo excesso do que pela falta; não dei chance para os chutes, minha pesquisa minuciosa rendeu-me segurança ao declarar que a curta rua no centro tem algum tipo de fenômeno climático. Isto foi tudo, mas o bastante para o meu olhar investigador. Saber o porquê, como ou se havia algum registro nos órgãos de clima da cidade não me interessaram. Dei-me por satisfeita apenas pelo entendimento da expressão. Passei pela mesma rua hoje e o vento ainda estava lá.

  No final da ruazinha,  numa banca de revistas, os detestáveis cinco passos para entrar em forma, os dez passos para conquistar um homem e os vinte passos para ter uma carreira de sucesso - para a boa forma o caminho é o mais curto, só não sei se o mais suave ou recompensador. Em promoção, um livro de alguma autora americana assegurava a solitários ou insatisfeitos o caminho para o "amor perfeito", em destaque na capa, a informação de que o receituário tinha o respaldo de uma pesquisa inglesa. O livro da banca tem mais ciência do que o meu vento encanado. Mas não o comprei, não me rendi. Prefiro conhecer a palavra depois da sensação. Ou, provavelmente, desconhecerei por completo tal caminho. Não quero o amor do livro da banca de jornais.

  A perfeição aprisiona, angustia, deixa-nos desconfortáveis,  receosos  de bagunçar a arrumação. Perfeição é consultório médico e não a casa para qual gostamos de voltar; é o penteado cheio de laquê, que não permite ao vento dançar com os cabelos; é a pia sem louça suja a qual respeitamos tanto que adiamos o copo de água, o chá, a taça de vinho só para não macular a perfeição. É a roupa limpa da criança que volta de qualquer lugar (escola, parque, sítio do avô), pois não há diversão infantil sem marcas, nódoas ou rasgos acidentais; a perfeição cheira a amaciante, em roupa recém lavada é até bom, mas, por muito tempo, enjoa. 

  Especialista em ventos numa só rua da cidade e não em amores perfeitos, escrevo o caminho dos amores possíveis, daqueles que atravessam as muitas ruas da cidade, sem ciência inglesa ou publicação alguma. Um tipo de afeto que não tenta  roubar do outro nenhuma liberdade, nem aprisione a quem amamos à ideia que fazemos dele, mas que consiga nos fazer deixar de olhar para, finalmente, enxergar o que ninguém mais pode. Que as  palavras do outro não precisem ser as últimas ou as primeiras do dia, nem sejam necessárias, definitivas ou públicas, mas sejam elas que  nos façam sorrir e gostar mais de ouvir a voz dele. Que ensine a gente a ser eterno e infinito num dia só, sem esperança de durar muito no tempo dos relógios. Que não nos leve ao encontro do que  exatamente esperamos, mas a outra coisa, o que  nem sonhávamos que existisse. Afeto esse que ainda que alma viva em chamas, ninguém desconfie do que eles têm ou são; mas que é discreto aos olhos dos outros e arrebatador aos deles próprios.

  Amor possível é o dos programas desmarcados em cima da hora, do atraso, da comunicação desajustada, dos sucessivos mal entendidos, da sensação de invasão de privacidade, de acusações injustas e desculpas sentidas, da confusão, do engano, do ciúme despropositado e da reconciliação necessária. Da falta de jeito, mas nunca da falta de afeto; da espera acompanhada pela água no fogão para o café, porque, afinal, tem louça suja na pia da cozinha. É o do olhar investigativo que nem sabe o que procura, mas não desiste, segue atento e, que só depois de algum tempo tem o entendimento da palavra que ele agora sabe que nunca havia compreendido, de fato, antes.

  O livro do amor perfeito que não li, não há de me fazer falta, nem os passos das revistas que nunca estiveram sincronizados aos meus. Que os amores perfeitos sejam um tipo de livro que se acabem na própria capa. Não há ciência que explique o que antes precisa ser sentido, sem perfeição, de preferência.



2 comentários:

Paulo Abreu disse...

Menina, que coisa bonita e atemporal e tão rica em detalhes. Tem uma passagem no seu texto, caracteristicamente "Hegeliana". Hegel deixou uma vasta e profunda lição filosofica para nós, mas é de um dos seus aforismos que refleti sobre seu texto. É dele : “a palavra mata a coisa”.
E você, tão docilmente, escreveu - "Há coisas, muitas na vida, que só entendemos depois de conhecermos; a palavra acaba por explicar depois, porque é o vivido que preenche-a de sentido. Primeiro o sentimento, a sensação, depois o verbo."

Também seu texto, quando tangencia o amor, me fez lembrar de um da Adelia Prado, que posto abaixo. Um abraço e continue escrevendo.

Há mulheres que dizem: Meu marido, se quiser pescar, pesque, mas que limpe os peixes. Eu não. A qualquer hora da noite me levanto, ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar. É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha, de vez em quando os cotovelos se esbarram, ele fala coisas como "este foi difícil" "prateou no ar dando rabanadas" e faz o gesto com a mão. O silêncio de quando nos vimos a primeira vez atravessa a cozinha como um rio profundo. Por fim, os peixes na travessa, vamos dormir. Coisas prateadas espocam: somos noivo e noiva.

Amanda M. disse...

Muito obrigada Paulo. Que lindo este trecho de Adélia, tão cheia de sensibilidade a escrita dela. E a sua leitura sempre tão sensível também. Grata mesmo, muito grata por toda a partilha que tem feito. ;)