quinta-feira, 30 de julho de 2015

Sob um estado pacificado

  Nos lugares onde nunca vamos, nas coisas que não temos ou nas pessoas que não somos, mora o maravilhoso. Nas varandas decoradas que ninguém usa, nas sacadas apertadas dos apartamentos, onde ninguém toma  café da amanhã aos sábados ou divide uma garrafa de vinho ao final da tarde, nos carros que ninguém dirige, por não ter um bom lugar para estacionar, nos chapéus que ficam no fundo do armário, aguardando uma ocasião em que o seu uso seja mais comum, nos avós adoráveis ou maridos sensíveis que os outros não sabem do valor, o nosso desejo se manifesta.  Ilusão de felicidade completa, de que se fossem nossos, saberíamos bem deles. 

  Um homem passa de jaqueta azul do outro lado da rua com seu cão amarelo e só de vê-los passar uma brisa de satisfação sopra as ventas do meu desejo. Quero o cão, quero a jaqueta, quero a serenidade e o rio de calmaria que os dois vivem; acho que vivem, na verdade. Do meu lado, uma adolescente passeia lépida com o seu amor, o rapaz é alto e se curva todo para olhá-la nos olhos e ela pequena se alonga para sentir o cheiro do hálito de menta dele. Quero a esperança do sonho do casal de amantes jovem, quero o mesmo tempo que permanece  infinito para eles, nesse momento. Uma sacola esbarra no meu braço e uma senhora de muitas rugas sorri, jovem, para os carros que param para ela passar; aproveito seu desfile elegante e atravesso junto com ela. Quero o exibicionismo garboso, a alegria com cor de serenidade que a mulher traz junto às suas sacolas de feira. No carro prata, no sinal fechado, uma mulher penteia os cabelos pretos, retoca o batom brilhante e cantarola a música pop americana. Eu quero ser embalada por essa canção sossegada de quem não feriu ninguém, não roubou, não mentiu, nem matou nunca sentimento nenhum na vida; quero a boca desenhada sem pressa.

  Dos sentimentos que não podemos saber, só suspeitar, colocamos muita fé, investimos muito crédito. Como se ter cachorro amarelo, jaqueta azul, amor juvenil, graça madura e batom, com fundo musical, fossem as reais razões de um estado que é, somente, da ordem da alma. 

  O menino não tinha varanda, carro na garagem, nem chapéu no fundo da gaveta,  morava no apartamento muito frequentado, com mulheres que falavam alto o dia inteiro, que levavam suas revistas com modelos de vestido, debaixo dos braços e tecidos estampados, embrulhados no papel e demoravam um dia e meio para escolherem aquele que fariam. Morava no apartamento sem sacada, com luminosidade rara e que em tempo de chuva abrigava os varais com roupa cheirando a amaciante, as roupas úmidas atrapalhando a brincadeira, bagunçando cabelos e colorindo a casa, roupas sobre as cabeças dos moradores, os pares de pernas flutuando sobre o sofá, a mesa de jantar; as mangas sem braços, acolhendo as visitas. A campainha era estridente e tocava a todo o tempo, os filmes ficavam quase sempre pelo meio, quando alguém mais velho trocava o canal.  Era uma casa com varais, com pessoas o tempo todo, as vozes, mas nada disso era capaz de roubar a calmaria, a serenidade que era um estado de sentimento. A paz que nunca pede lugar, que não depende de jaquetas azuis ou cachorros amarelos, que existe, mesmo na balbúrdia.

  E enquanto me perco nos outros, no brilho que não é meu, encontro meu estado de paz. E quase sinto o cheiro do amaciante das roupas que secavam pelo apartamento. Eu tenho uma varanda bonita e tomo meus cafés de sábado nela e vejo a tarde ir embora, regada a taças de vinho. A varanda que trago em mim não requisita concretude, pelo contrário, pede mesmo é nuvens de sonho. Sob um estado pacificado atravesso a rua e avanço para a felicidade que é visita sem exigências. 




2 comentários:

Paulo Abreu disse...

Um texto para ser guardado, e lido toda vez que adentrarmos nos desertos da vida.

Amanda M. disse...

:)