sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Não era eu

   Não era eu a atrasada, não era eu quem carregava na bolsa um amontoado de contas com dinheiro pra pagar só a metade delas; a escolha, portanto, não era minha. Não era eu a pressionada pela biologia a ter filhos naturais nos próximos meses, pelos mais velhos a economizar para o futuro, pelos amigos a sair de casa em busca de novos ares. Não era eu quem olhava pela janela do ônibus, na cidade sempre solar e hoje tão cinzenta, buscando fora o que não queimava por dentro. Não era eu.

  Não era a desesperada, cansada, vestida numa malha cinza de ginástica e tênis de cores cítricas, com o cabelo preso num elástico preto, no figurino completamente deslocado do cenário interior; não era eu quem não queria estar atlética hoje. Não era eu quem olhava para os outros bancos e desejava ser a pessoa que ocupava esses outros bancos. Não era eu quem intimamente imaginava que o motorista perdia a direção e seguia infinitamente pelas avenidas da cidade, adiando, assim, decisões, conversas, prestação de contas e admissão de culpa ou absolvição definitiva.

  Não era eu quem olhava para a aliança amarela no dedo magro da mão esquerda e pensava se ela permanecia tempo demais ali. Não era a que sabia que a dor não duraria e mesmo assim, não queria descer no próximo ponto, nem no próximo, nem no depois de todos os próximos. Não era eu quem fatalmente chegaria ao ponto final, desceria do ônibus e pegaria um outro para atender ao compromisso ao qual estava atrelada. Não era a que se questionava se era preciso mesmo manter-se ajustada a tal laço.

  Não era eu quem não pegaria a sombrinha, que enfrentaria os pingos de chuva, atravessando a cidade pelas marquises, invadindo as beiradas de sombrinhas alheias, desviando de poças d'água e afundando os pés em algumas delas. Não era eu quem não queria tomar decisões, mas, ainda assim, corria ao encontro delas. Não era a observada pela mulher em pé, aquela com ar de superior, sorrisinho de lado, contemplando a cidade que só sabia chover, quem me via começar a chorar e talvez não conseguir mais parar. Não era eu a imagem da mulher desiludida, do livro da Beauvoir, que li no começo da vida adulta, por duas vezes, achando-o inédito.

  Não era eu a última a descer do ônibus, tarde da noite, numa alameda desconhecida, sem bateria no celular, pedindo informação ao motorista e chamando um táxi para me levar em casa, morta de medo e constrangimento. Não era eu a me perguntar no carro, se teria dinheiro para a corrida, se teria casa ainda, se voltaria à academia, teria um filho no próxima primavera ou se atiraria a aliança em algum bueiro da rua.

  Não era eu quem tinha abandonado as aulas de francês, porque a pós-graduação aumentaria o salário, nem o buldogue alemão na casa da mãe, porque o apartamento novo era pequeno, antes tivesse permanecido no velho, onde o cão a fazia sorrir. Não era a mulher dos mil sapatos, sem ter lugar para usá-los, nem a mulher de trinta amores, que guardava duas ou três memórias realmente amorosas. Não era eu essa mulher. 

  Não era eu a que duvidava, protelava, amargava uma decisão que já estava tomada há tempos, mas ainda difícil de assumir. Não era a mulher da roupa de ginástica que não precisava de aeróbico algum, mas correr, correr em direção e não mais contra. Não era eu aquela que quando chegasse em casa não falaria sobre o clima, nem a chuva que atrasou o trânsito, mas perguntaria: - Quanto tempo ainda temos para o nosso sonho?

  Não era eu a triste do último banco do ônibus, a melancólica,  a chorosa do tênis chamativo ou a decidida, a consciente dos sucessivos abandonos próprios, a desencantada que queria arder de novo. Não era eu a observada pela outra que talvez se identificasse e quisesse vir ao meu consolo. Não era eu a mulher do ônibus, na segunda, mas podia ser. Sempre podemos ser o alguém do outro banco, que não quer muito chegar em casa tão rápido.



3 comentários:

Paulo Abreu disse...

O texto ficou grande, então achei melhor dividir, como dividida está a protagonista, em dois tomos. Mais prolixo, impossível.
TOMO 1
Amanda

Já falei aqui, num destes cafés de tantos que já degustamos juntos, que adoro seu jeito feminino de escrever, com olhar, com detalhes e nuanças sutis que só uma mulher domina.

Hoje deparei com esta negação cândida da moça que flutua com amargo sentimento, com o agravante de um tênue mecanismo de defesa pessoal, e que recorre com relutância contra as ideias reprimidas que saltam para o consciente, ocultas no sagrado do seu eu – seus sonhos. Talvez tenha desejado na infância um pai presente, carinhoso e herói, mas este pai não existiu. Daí talvez o medo, a insegurança, mas isto já passou, e agora é bola prá frente. Assim, como será feliz? Há de encontrar a formula de uma reconciliação entre o domínio (real) e a servidão (sonhos e questões mal resolvidas). Loucura? Mas o que é normal? A moça vive uma vida real onde tem que superar o passado e os sonhos.

Delirando nesta calorenta tarde de sexta-feira, ainda no escritório, vi nesta luta da moça a dualidade tão comum a todos os humanos – uma mulher voluptuosa incandescente habitando num corpo frágil de uma escrava do cotidiano real, que busca sua liberdade (apesar de não conseguir um caminho). Talvez queira que um príncipe venha e a pegue pelas mãos, a tome em seus braços, a beije até a satisfação máxima de ambos e sejam felizes para sempre. Para sempre? Existe felicidade para sempre fora da Disney?

Então, dando uma ousada volta nas margens do pensamento de Hegel, acho que ela conflita em constante movimento e isto é o que me fez perceber a sutileza da autora - tudo é movimento e transformação e as transformações das ideias determinam a transformação da matéria. Acho que Amanda mostrou que ela caminha, de uma forma obtusa, outras vezes com medo (taxi rolou o medo) pode significar que os sonhos dela não morreram e mesmo na árdua luta da sua realidade, eles não foram defenestrados pelas derrotas e obstáculos, mas transformados em uma realidade pessoal.

O conflito de um casamento fadado ao fim antes que amanheça ou que terminemos esta percepção literária, as dívidas, o prazer roubado, o filho, mas ela não se reconhece nestes conflitos, daí o porquê dela dicotomizar. Vou fazer aqui um ensaio pobre, lamentável do ponto de vista filosófico, pois buscarei (de maneira tosca) em Hegel esta dualidade, trazendo a discussão hegeliana para esta mulher que sofre, aliás, uma sofre e a outra goza. Não vou me intrometer na dialética (até mesmo por que existem aqui limitações de minha parte), mas apenas centrar no conflito.

E farei isto para provocar nela um sentimento de esperança, de uma liberdade estóica.

Vamos viajar? Então?! Vou começar:

Num conflito incompreensível ao transeunte desapercebido, uma mulher se desfaz e se refaz concomitantemente em duas – e estas duas mulheres é que lutam entre si. Uma delas é plena de coragem (faz compras, dívidas, ballet, francês, pós-graduação, sexo e outros prazeres mundanos). Ela aceita arriscar sua vida no combate, mostrando assim que é uma mulher livre, superior à sua vida.

A outra, que não ousa arriscar a vida, é vencida.

Paulo Abreu disse...

TOMO 2
Aquela primeira, a vencedora, não mata a outra que é prisioneira dos seus sonhos, ao contrário, conserva-a cuidadosamente como testemunha e espelho de sua vitória. Tal é o escravo, o "servus", aquele que, ao pé da letra, foi conservado.

a) Mulher A (vamos dar nome às moças, a A é a vencedora, a B a deprimida) obriga a Mulher B a ser sua escrava, ao passo que somente A goza os prazeres da vida. A não cultiva seu jardim, não faz cozer seus alimentos, não acende seu fogo: ela tem B para isso. A não conhece mais os rigores do mundo material, uma vez que interpôs uma escrava entre ela e o mundo. A, porque lê o reconhecimento de sua superioridade no olhar submisso de B, é livre, ao passo que B se vê despojada dos frutos de seu trabalho, numa situação de submissão absoluta.

b) Entretanto, essa situação vai se transformar dialeticamente porque a posição de A abriga uma contradição interna: A só existe em função da existência de B. A só é reconhecida como tal pela consciência de B e também porque vive do trabalho de B. Nesse sentido, ela é uma espécie de escrava de B.

c) De fato, B, que era mais ainda a escrava da vida do que a escrava de A (foi por medo de morrer que se submeteu), vai encontrar uma nova forma de liberdade. Colocada numa situação infeliz em que só conhece provações, aprende a se afastar de todos os eventos exteriores, a libertar-se de tudo o que a oprime, desenvolvendo uma consciência pessoal.

Mas, sobretudo, B incessantemente ocupada com o trabalho, aprenderá a vencer a natureza ao utilizar as leis da matéria e recuperará uma certa forma de liberdade (o domínio da natureza) por intermédio de seu trabalho. Por uma conversão dialética exemplar, o trabalho servil devolve-lhe a liberdade. Desse modo, B, transformada pelas provações e pelo próprio trabalho, ensina a A a verdadeira liberdade que é o domínio de si mesmo.

Então B será feliz quando toda esta dor tangível se transformar em coisas belas. O poeta Drummond assim falou das coisas belas:

“As coisas tangíveis, tornam-se insensíveis na palma da mão, mas as coisas findas, muito mais que lindas, estas ficarão” Este poema fala exatamente desta luta e chama-se Memória. Nela, Drummond fala que nada pode o passado contra o sem sentido, bem, melhor declamar o poema para você:

Memória (Carlos Drummond de Andrade)

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Amanda M. disse...

Então Paulo, revisitei uma dezena de vezes seu comentário (tão bem organizado, articulado, divido em partes até...). Então, enquanto isso, tomamos uma dezena de cafés também.

Li, reli,refleti, primeiro porque gostei muito da perspectiva hegeliana, de Drummond e tudo mais e depois, porque achava que um interlocutor tão perspicaz e sensível merecia uma resposta, ao menos, de uma estatura aproximada. Mas, então, depois de tantos cafés, acabo por achar que já está dito, perfeitamente.

Então, muito grata, mais uma vez e ótima semana! ;)