domingo, 19 de agosto de 2012

A porta está entreaberta agora

  Conheceram-se, interessaram-se um pelo outro, apaixonaram-se (?) - pelo menos ela . E, por acreditar, por desejar que a relação que acabara de começar, fosse fundada sobre sinceridade, entrega e liberdade, ela abriu-se completamente. Assim, clara, límpida, ela não fazia jogos, não racionalizava os pormenores das suas declarações, só dizia, o que realmente queria, seus "sins" eram sins, seus "nãos", eram somente nãos, se entregava; transparente, era possível ver nela toda e qualquer sensação mais profunda. Dividiu segredos, impressões, culpas e traumas remotos, mas de maneira gradativa e leve, sem sufocar seu novo amor, com sessões amadoras de psicanálise. Fazia-o, porque enxergou nele, alguém em quem confiar, alguém que a amaria, com todos os seus "senões".

  Talvez por ansiedade, por desejar demasiadamente aquele amor, mais do que o próprio ser amado, ela despejou cedo demais suas imperfeições; ofereceu munição a quem, mais tarde, iria ferí-la de morte. Um dia, seu amor não voltou, não ligou, não atendeu ligações, não explicou-se, nem pediu explicações. Só se foi. Nada demais. E ela que entregara seu coração, recorria ao cérebro para entender o súbito e inexplicável sumiço do seu amado. Culpa dela, da sua entrega, da sua ansiedade; culpa do seu sentimento sufocante. Depois, culpa dele, da sua insensibilidade, imaturidade; culpa do seu medo de se comprometer com alguém tão intensa. Mais tarde, culpa da operadora de celular, que não enviou as mensagens dele (com suas desculpas para ela), nem as  ligações dela para o telefone dele;  do correio, que não entregou seu telegrama urgente; da garrafa extraviada, que continha uma carta de amor dele para ela. A mãe morrera e ele entrara em depressão; talvez a perda de um membro em algum acidente, perna talvez, e por amor a ela e por desejar que ela se relacionasse com alguém "perfeito", sem nenhum drama, ele a abandonara; talvez ele morrera em um acidente e ninguém da família conseguiu contactá-la, é isso, talvez seu amor não tivesse abandonado-a, talvez estivesse morto. E as "explicações", as hipóteses, durante algum tempo, acompanharam-na, até que, em uma sexta-feira à tarde, enquanto voltava para casa, vi-o dentro de um ônibus,  saudável, alegre, intacto, com todos os membros e provavelmente ainda tinha uma mãe viva e feliz. Ele foi embora, porque quis e sem nenhuma explicação, porque escolhera assim. Não havia mistério, equívocos tecnológicos, nem cartas em garrafas, talvez nem houvesse amor.

  Pode não ter magia mesmo, não há poesia em tudo. Talvez fosse amor que, simplesmente, acabou-se; talvez não fosse. O que importa? Ele foi embora e nunca soube que durante tanto tempo levara com ele o que ela tinha de mais doce: sua fé no amor.
  Quando ele chegou encontrou janelas e portas escancaradas, quando resolveu ir embora, sem explicação, elas se fecharam atrás dele; nem ao menos luz, entrou no apartamento vazio de afeto, entendimento e expectativas. A moça ficou refém do amor, que ela mesma incentivara; agora, ela e a desilusão dividiam o cativeiro. O sentimento recém desabrochado, murchou; desacreditado, pareceu para sempre perdido, talvez ele, um dia renasça dentro dela, porque, ao menos um feixe de claridade, hoje, começa a adentrar o frio apartamento; a porta já está entreaberta agora. Mas, ela ainda repete para si: - Cuidado moça, cuidado com amor que nem sempre é tão mágico, quanto gostaríamos. Mas ela olha para luz e acredita, ela reconhece que a fé se aproxima, pelo cheiro, pela cor e, principalmente, o calor...



2 comentários:

Cissa disse...

Lindo o texto. Profundo, sutil, simples. Acontece a toda hora, tão previsível e, mesmo assim, continuamos...

Amanda M. disse...

Obrigada Cissa! Sim, continuamos...o que se há de fazer?rs